Exortação Apostólica Evangelii Gaudium
Primeira Exortação Apostólica de Papa Francisco; texto na íntegra de Evangelii Gaudium.pdf (637621)
Primeira Exortação
Apostólica de Papa
Francisco; texto na
íntegra de Evangelii
Gaudium
2013-11-26 Rádio Vaticana
1. A ALEGRIA DO EVANGELHO enche o coração e
a vida inteira daqueles que se encontram com
Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são
libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior,
do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem
cessar a alegria. Quero, com esta Exortação, dirigirme
aos fiéis cristãos a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora
marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos
próximos anos.
1. Alegria que se renova e comunica
2. O grande risco do mundo actual, com sua múltipla e avassaladora oferta de
consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e
mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência
isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver
espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus,
já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer
o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes.
Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem
vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que
Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo
ressuscitado.
3. Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a
renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos,
a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem
cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz
respeito, já que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído». Quem
arrisca, o Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em
direcção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua
chegada. Este é o momento para dizer a Jesus Cristo: «Senhor, deixei-me
enganar, de mil maneiras fugi do vosso amor, mas aqui estou novamente para
renovar a minha aliança convosco. Preciso de Vós. Resgatai-me de novo,
Senhor; aceitai-me mais uma vez nos vossos braços redentores». Como nos faz
bem voltar para Ele, quando nos perdemos! Insisto uma vez mais: Deus nunca
Se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir a sua
misericórdia. Aquele que nos convidou a perdoar «setenta vezes sete» (Mt 18,
22) dá-nos o exemplo: Ele perdoa setenta vezes sete. Volta uma vez e outra a
carregar-nos aos seus ombros. Ninguém nos pode tirar a dignidade que este
amor infinito e inabalável nos confere. Ele permite-nos levantar a cabeça e
recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode
restituir a alegria. Não fujamos da ressurreição de Jesus; nunca nos demos por
mortos, suceda o que suceder. Que nada possa mais do que a sua vida que nos
impele para diante!
4. Os livros do Antigo Testamento preanunciaram a alegria da salvação, que
havia de tornar-se superabundante nos tempos messiânicos. O profeta Isaías
dirige-se ao Messias esperado, saudando-O com regozijo: «Multiplicaste a
alegria, aumentaste o júbilo» (9, 2). E anima os habitantes de Sião a recebê-Lo
com cânticos: «Exultai de alegria!» (12, 6). A quem já O avistara no horizonte, o
profeta convida-o a tornar-se mensageiro para os outros: «Sobe a um alto
monte, arauto de Sião! Grita com voz forte, arauto de Jerusalém» (40, 9). A
criação inteira participa nesta alegria da salvação: «Cantai, ó céus! Exulta de
alegria, ó terra! Rompei em exclamações, ó montes! Na verdade, o Senhor
consola o seu povo e se compadece dos desamparados» (49, 13).
Zacarias, vendo o dia do Senhor, convida a vitoriar o Rei que chega «humilde,
montado num jumento»: «Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo,
filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti. Ele é justo e vitorioso» (9, 9). Mas
o convite mais tocante talvez seja o do profeta Sofonias, que nos mostra o
próprio Deus como um centro irradiante de festa e de alegria, que quer
comunicar ao seu povo este júbilo salvífico. Enche-me de vida reler este texto:
«O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de
alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria
por tua causa» (3, 17).É a alegria que se vive no meio das pequenas coisas da
vida quotidiana, como resposta ao amoroso convite de Deus nosso Pai: «Meu
filho, se tens com quê, trata-te bem (...). Não te prives da felicidade presente»
(Sir 14, 11.14). Quanta ternura paterna se vislumbra por detrás destas palavras!
5. O Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida
insistentemente à alegria. Apenas alguns exemplos: «Alegra-te» é a saudação
do anjo a Maria (Lc 1, 28). A visita de Maria a Isabel faz com que João salte de
alegria no ventre de sua mãe (cf. Lc 1, 41). No seu cântico, Maria proclama: «O
meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lc 1, 47). E, quando Jesus
começa o seu ministério, João exclama: «Esta é a minha alegria! E tornou-se
completa!» (Jo 3, 29). O próprio Jesus «estremeceu de alegria sob a acção do
Espírito Santo» (Lc 10, 21). A sua mensagem é fonte de alegria: «Manifestei-vos
estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja
completa» (Jo 15, 11). A nossa alegria cristã brota da fonte do seu coração
transbordante. Ele promete aos seus discípulos: «Vós haveis de estar tristes,
mas a vossa tristeza há-de converter-se em alegria» (Jo 16, 20). E insiste: «Eu
hei-de ver-vos de novo! Então, o vosso coração há-de alegrar-se e ninguém vos
poderá tirar a vossa alegria» (Jo 16, 22). Depois, ao verem-No ressuscitado,
«encheram-se de alegria» (Jo 20, 20). O livro dos Actos dos Apóstolos conta
que, na primitiva comunidade, «tomavam o alimento com alegria» (2, 46). Por
onde passaram os discípulos, «houve grande alegria» (8, 8); e eles, no meio da
perseguição, «estavam cheios de alegria» (13, 52). Um eunuco, recémbaptizado,
«seguiu o seu caminho cheio de alegria» (8, 39); e o carcereiro
«entregou-se, com a família, à alegria de ter acreditado em Deus» (16, 34).
Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria?
6. Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa.
Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as
etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transformase,
mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da
certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados.
Compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves
dificuldades que têm de suportar, mas aos poucos é preciso permitir que a
alegria da fé comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança,
mesmo no meio das piores angústias: «A paz foi desterrada da minha alma, já
nem sei o que é a felicidade (…). Isto, porém, guardo no meu coração; por isso,
mantenho a esperança. É que a misericórdia do Senhor não acaba, não se
esgota a sua compaixão. Cada manhã ela se renova; é grande a tua fidelidade.
(...) Bom é esperar em silêncio a salvação do Senhor» (Lm 3, 17.21-23.26).
7. A tentação apresenta-se, frequentemente, sob forma de desculpas e queixas,
como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria.
Habitualmente isto acontece, porque «a sociedade técnica teve a possibilidade
de multiplicar as ocasiões de prazer; no entanto ela encontra dificuldades
grandes no engendrar também a alegria». Posso dizer que as alegrias mais
belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas
muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria
genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais,
souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias
maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós
manifestado em Jesus Cristo. Não me cansarei de repetir estas palavras de
Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao início do ser cristão, não
há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um
acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta
forma, o rumo decisivo».
8. Somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que
se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência
isolada e da auto-referencialidade. Chegamos a ser plenamente humanos,
quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos
conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais
verdadeiro. Aqui está a fonte da acção evangelizadora. Porque, se alguém
acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o
desejo de o comunicar aos outros?
2. A doce e reconfortante alegria de evangelizar
9. O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de
verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa
que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às
necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e
desenvolve-se. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não
tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem. Assim, não
nos deveriam surpreender frases de São Paulo como estas: «O amor de Cristo
nos absorve completamente» (2 Cor 5, 14); «ai de mim, se eu não evangelizar!»
(1 Cor 9, 16).
10. A proposta é viver a um nível superior, mas não com menor intensidade:
«Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no
isolamento. De facto, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a
segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos
demais». Quando a Igreja faz apelo ao compromisso evangelizador, não faz
mais do que indicar aos cristãos o verdadeiro dinamismo da realização pessoal:
«Aqui descobrimos outra profunda lei da realidade: “A vida se alcança e
amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros”. Isto é,
definitivamente, a missão». Consequentemente, um evangelizador não deveria
ter constantemente uma cara de funeral. Recuperemos e aumentemos o fervor
de espírito, «a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for
preciso semear com lágrimas! (...) E que o mundo do nosso tempo, que procura
ora na angústia ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não
de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou ansiosos, mas sim
de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu
primeiro em si a alegria de Cristo».
Uma eterna novidade
11. Um anúncio renovado proporciona aos crentes, mesmo tíbios ou não
praticantes, uma nova alegria na fé e uma fecundidade evangelizadora. Na
realidade, o seu centro e a sua essência são sempre o mesmo: o Deus que
manifestou o seu amor imenso em Cristo morto e ressuscitado. Ele torna os
seus fiéis sempre novos; ainda que sejam idosos, «renovam as suas forças.
Têm asas como a águia, correm sem se cansar, marcham sem desfalecer» (Is
40, 31). Cristo é a «Boa-Nova de valor eterno» (Ap 14, 6), sendo «o mesmo
ontem, hoje e pelos séculos» (Heb 13, 8), mas a sua riqueza e a sua beleza são
inesgotáveis. Ele é sempre jovem, e fonte de constante novidade. A Igreja não
cessa de se maravilhar com a «profundidade de riqueza, de sabedoria e de
ciência de Deus» (Rm 11, 33). São João da Cruz dizia: «Esta espessura de
sabedoria e ciência de Deus é tão profunda e imensa, que, por mais que a alma
saiba dela, sempre pode penetrá-la mais profundamente». Ou ainda, como
afirmava Santo Ireneu: «Na sua vinda, [Cristo] trouxe consigo toda a novidade».
Com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa
comunidade, e a proposta cristã, ainda que atravesse períodos obscuros e
fraquezas eclesiais, nunca envelhece. Jesus Cristo pode romper também os
esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisioná-Lo, e surpreende-nos
com a sua constante criatividade divina. Sempre que procuramos voltar à fonte
e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas,
métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras
cheias de renovado significado para o mundo actual. Na realidade, toda a acção
evangelizadora autêntica é sempre «nova».
12. Embora esta missão nos exija uma entrega generosa, seria um erro
considerá-la como uma heróica tarefa pessoal, dado que ela é, primariamente e
acima de tudo o que possamos sondar e compreender, obra de Deus. Jesus é
«o primeiro e o maior evangelizador». Em qualquer forma de evangelização, o
primado é sempre de Deus, que quis chamar-nos para cooperar com Ele e
impelir-nos com a força do seu Espírito. A verdadeira novidade é aquela que o
próprio Deus misteriosamente quer produzir, aquela que Ele inspira, aquela que
Ele provoca, aquela que Ele orienta e acompanha de mil e uma maneiras. Em
toda a vida da Igreja, deve-se sempre manifestar que a iniciativa pertence a
Deus, «porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19) e é «só Deus que faz
crescer» (1 Cor 3, 7). Esta convicção permite-nos manter a alegria no meio
duma tarefa tão exigente e desafiadora que ocupa inteiramente a nossa vida.
Pede-nos tudo, mas ao mesmo tempo dá-nos tudo.
13. E também não deveremos entender a novidade desta missão como um
desenraizamento, como um esquecimento da história viva que nos acolhe e
impele para diante. A memória é uma dimensão da nossa fé, que, por analogia
com a memória de Israel, poderíamos chamar «deuteronómica». Jesus deixanos
a Eucaristia como memória quotidiana da Igreja, que nos introduz cada vez
mais na Páscoa (cf. Lc 22, 19). A alegria evangelizadora refulge sempre sobre o
horizonte da memória agradecida: é uma graça que precisamos de pedir. Os
Apóstolos nunca mais esqueceram o momento em que Jesus lhes tocou o
coração: «Eram as quatro horas da tarde» (Jo 1, 39). A memória faz-nos
presente, juntamente com Jesus, uma verdadeira «nuvem de testemunhas»
(Heb 12, 1). De entre elas, distinguem-se algumas pessoas que incidiram de
maneira especial para fazer germinar a nossa alegria crente: «Recordai-vos dos
vossos guias, que vos pregaram a palavra de Deus» (Heb 13, 7). Às vezes,
trata-se de pessoas simples e próximas de nós, que nos iniciaram na vida da fé:
«Trago à memória a tua fé sem fingimento, que se encontrava já na tua avó
Lóide e na tua mãe Eunice» (2 Tm 1, 5). O crente é, fundamentalmente, «uma
pessoa que faz memória».
3. A nova evangelização para a transmissão da fé
14. À escuta do Espírito, que nos ajuda a reconhecer comunitariamente os
sinais dos tempos, celebrou-se de 7 a 28 de Outubro de 2012 a XIII Assembleia
Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema A nova evangelização para
a transmissão da fé cristã. Lá foi recordado que a nova evangelização interpela
a todos, realizando-se fundamentalmente em três âmbitos. Em primeiro lugar,
mencionamos o âmbito da pastoral ordinária, «animada pelo fogo do Espírito a
fim de incendiar os corações dos fiéis que frequentam regularmente a
comunidade, reunindo-se no dia do Senhor, para se alimentarem da sua Palavra
e do Pão de vida eterna». Devem ser incluídos também neste âmbito os fiéis
que conservam uma fé católica intensa e sincera, exprimindo-a de diversos
modos, embora não participem frequentemente no culto. Esta pastoral está
orientada para o crescimento dos crentes, a fim de corresponderem cada vez
melhor e com toda a sua vida ao amor de Deus.
Em segundo lugar, lembramos o âmbito das «pessoas baptizadas que, porém,
não vivem as exigências do Baptismo», não sentem uma pertença cordial à
Igreja e já não experimentam a consolação da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja
esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé
e o desejo de se comprometerem com o Evangelho.
Por fim, frisamos que a evangelização está essencialmente relacionada com a
proclamação do Evangelho àqueles que não conhecem Jesus Cristo ou que
sempre O recusaram. Muitos deles buscam secretamente a Deus, movidos pela
nostalgia do seu rosto, mesmo em países de antiga tradição cristã. Todos têm o
direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de o anunciar, sem
excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como
quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete
apetecível. A Igreja não cresce por proselitismo, mas «por atracção».
15. João Paulo II convidou-nos a reconhecer que «não se pode perder a tensão
para o anúncio» àqueles que estão longe de Cristo, «porque esta é a tarefa
primária da Igreja». A actividade missionária «ainda hoje representa o máximo
desafio para a Igreja» e «a causa missionária deve ser (…) a primeira de todas
as causas». Que sucederia se tomássemos realmente a sério estas palavras?
Simplesmente reconheceríamos que a acção missionária é o paradigma de toda
a obra da Igreja. Nesta linha, os Bispos latino-americanos afirmaram que «não
podemos ficar tranquilos, em espera passiva, em nossos templos», sendo
necessário passar «de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral
decididamente missionária». Esta tarefa continua a ser a fonte das maiores
alegrias para a Igreja: «Haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se
converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão»
(Lc 15, 7).
A proposta desta Exortação e seus contornos
16. Com prazer, aceitei o convite dos Padres sinodais para redigir esta
Exortação. Para o efeito, recolho a riqueza dos trabalhos do Sínodo; consultei
também várias pessoas e pretendo, além disso, exprimir as preocupações que
me movem neste momento concreto da obra evangelizadora da Igreja. Os
temas relacionados com a evangelização no mundo actual, que se poderiam
desenvolver aqui, são inumeráveis. Mas renunciei a tratar detalhadamente esta
multiplicidade de questões que devem ser objecto de estudo e aprofundamento
cuidadoso. Penso, aliás, que não se deve esperar do magistério papal uma
palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à
Igreja e ao mundo. Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no
discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios.
Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar
«descentralização».
17. Aqui escolhi propor algumas directrizes que possam encorajar e orientar, em
toda a Igreja, uma nova etapa evangelizadora, cheia de ardor e dinamismo.
Neste quadro e com base na doutrina da Constituição dogmática Lumen
gentium, decidi, entre outros temas, de me deter amplamente sobre as
seguintes questões:
a) A reforma da Igreja em saída missionária.b) As tentações dos agentes
pastorais.
c) A Igreja vista como a totalidade do povo de Deus que evangeliza.d) A homilia
e a sua preparação.
e) A inclusão social dos pobres.f) A paz e o diálogo social.
g) As motivações espirituais para o compromisso missionário.
18. Demorei-me nestes temas, desenvolvendo-os dum modo que talvez possa
parecer excessivo. Mas não o fiz com a intenção de oferecer um tratado, mas só
para mostrar a relevante incidência prática destes assuntos na missão actual da
Igreja. De facto, todos eles ajudam a delinear um preciso estilo evangelizador,
que convido a assumir em qualquer actividade que se realize. E, desta forma,
podemos assumir, no meio do nosso trabalho diário, esta exortação da Palavra
de Deus: «Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo vos digo: alegrai-vos!» (Fl 4,
4).
Capítulo I
A TRANSFORMAÇÃO MISSIONÁRIA DA IGREJA
19. A evangelização obedece ao mandato missionário de Jesus: «Ide, pois, fazei
discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt
28, 19-20). Nestes versículos, aparece o momento em que o Ressuscitado
envia os seus a pregar o Evangelho em todos os tempos e lugares, para que a
fé n’Ele se estenda a todos os cantos da terra.
1. Uma Igreja «em saída»
20. Na Palavra de Deus, aparece constantemente este dinamismo de «saída»,
que Deus quer provocar nos crentes. Abraão aceitou a chamada para partir
rumo a uma nova terra (cf. Gn 12, 1-3). Moisés ouviu a chamada de Deus: «Vai;
Eu te envio» (Ex 3, 10), e fez sair o povo para a terra prometida (cf. Ex 3, 17). A
Jeremias disse: «Irás aonde Eu te enviar» (Jr 1, 7). Naquele «ide» de Jesus,
estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão
evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos chamados a esta nova «saída»
missionária. Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho
que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada:
sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que
precisam da luz do Evangelho.
21. A alegria do Evangelho, que enche a vida da comunidade dos discípulos, é
uma alegria missionária. Experimentam-na os setenta e dois discípulos, que
voltam da missão cheios de alegria (cf. Lc 10, 17). Vive-a Jesus, que exulta de
alegria no Espírito Santo e louva o Pai, porque a sua revelação chega aos
pobres e aos pequeninos (cf. Lc 10, 21). Sentem-na, cheios de admiração, os
primeiros que se convertem no Pentecostes, ao ouvir «cada um na sua própria
língua» (Act 2, 6) a pregação dos Apóstolos. Esta alegria é um sinal de que o
Evangelho foi anunciado e está a frutificar. Mas contém sempre a dinâmica do
êxodo e do dom, de sair de si mesmo, de caminhar e de semear sempre de
novo, sempre mais além. O Senhor diz: «Vamos para outra parte, para as
aldeias vizinhas, a fim de pregar aí, pois foi para isso que Eu vim» (Mc 1, 38).
Ele, depois de lançar a semente num lugar, não se demora lá a explicar melhor
ou a cumprir novos sinais, mas o Espírito leva-O a partir para outras aldeias.
22. A Palavra possui, em si mesma, uma tal potencialidade, que não a podemos
prever. O Evangelho fala da semente que, uma vez lançada à terra, cresce por
si mesma, inclusive quando o agricultor dorme (cf. Mc 4, 26-29). A Igreja deve
aceitar esta liberdade incontrolável da Palavra, que é eficaz a seu modo e sob
formas tão variadas que muitas vezes nos escapam, superando as nossas
previsões e quebrando os nossos esquemas.
23. A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão
«reveste essencialmente a forma de comunhão missionária». Fiel ao modelo do
Mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em
todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem
medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém;
assim foi anunciada pelo anjo aos pastores de Belém: «Não temais, pois
anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo» (Lc 2, 10). O
Apocalipse fala de «uma Boa-Nova de valor eterno para anunciar aos habitantes
da terra: a todas as nações, tribos, línguas e povos» (Ap 14, 6).
«Primeirear», envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar
24. A Igreja «em saída» é a comunidade de discípulos missionários que
«primeireiam», que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam.
Primeireiam – desculpai o neologismo –, tomam a iniciativa! A comunidade
missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor
(cf. 1 Jo 4, 10), e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem
medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos
caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer
misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua
força difusiva. Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa! Como
consequência, a Igreja sabe «envolver-se». Jesus lavou os pés aos seus
discípulos. O Senhor envolve-Se e envolve os seus, pondo-Se de joelhos diante
dos outros para os lavar; mas, logo a seguir, diz aos discípulos: «Sereis felizes
se o puserdes em prática» (Jo 13, 17). Com obras e gestos, a comunidade
missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se
for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne
sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o «cheiro de
ovelha», e estas escutam a sua voz. Em seguida, a comunidade evangelizadora
dispõe-se a «acompanhar». Acompanha a humanidade em todos os seus
processos, por mais duros e demorados que sejam. Conhece as longas esperas
e a suportação apostólica. A evangelização patenteia muita paciência, e evita
deter-se a considerar as limitações. Fiel ao dom do Senhor, sabe também
«frutificar». A comunidade evangelizadora mantém-se atenta aos frutos, porque
o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e não perde a paz por causa do joio. O
semeador, quando vê surgir o joio no meio do trigo, não tem reacções
lastimosas ou alarmistas. Encontra o modo para fazer com que a Palavra se
encarne numa situação concreta e dê frutos de vida nova, apesar de serem
aparentemente imperfeitos ou defeituosos. O discípulo sabe oferecer a vida
inteira e jogá-la até ao martírio como testemunho de Jesus Cristo, mas o seu
sonho não é estar cheio de inimigos, mas antes que a Palavra seja acolhida e
manifeste a sua força libertadora e renovadora. Por fim, a comunidade
evangelizadora jubilosa sabe sempre «festejar»: celebra e festeja cada pequena
vitória, cada passo em frente na evangelização. No meio desta exigência diária
de fazer avançar o bem, a evangelização jubilosa torna-se beleza na liturgia. A
Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que é também
celebração da actividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso para se
dar.
2. Pastoral em conversão
25. Não ignoro que hoje os documentos não suscitam o mesmo interesse que
noutras épocas, acabando rapidamente esquecidos. Apesar disso sublinho que,
aquilo que pretendo deixar expresso aqui, possui um significado programático e
tem consequências importantes. Espero que todas as comunidades se esforcem
por actuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão
pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste
momento, não nos serve uma «simples administração». Constituamo-nos em
«estado permanente de missão», em todas as regiões da terra.
26. Paulo VI convidou a alargar o apelo à renovação de modo que ressalte, com
força, que não se dirige apenas aos indivíduos, mas à Igreja inteira. Lembremos
este texto memorável, que não perdeu a sua força interpeladora: «A Igreja deve
aprofundar a consciência de si mesma, meditar sobre o seu próprio mistério (...).
Desta consciência esclarecida e operante deriva espontaneamente um desejo
de comparar a imagem ideal da Igreja, tal como Cristo a viu, quis e amou, ou
seja, como sua Esposa santa e imaculada (Ef 5, 27), com o rosto real que a
Igreja apresenta hoje. (…) Em consequência disso, surge uma necessidade
generosa e quase impaciente de renovação, isto é, de emenda dos defeitos,
que aquela consciência denuncia e rejeita, como se fosse um exame interior ao
espelho do modelo que Cristo nos deixou de Si mesmo».
O Concílio Vaticano II apresentou a conversão eclesial como a abertura a uma
reforma permanente de si mesma por fidelidade a Jesus Cristo: «Toda a
renovação da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade à própria
vocação. (…) A Igreja peregrina é chamada por Cristo a esta reforma perene.
Como instituição humana e terrena, a Igreja necessita perpetuamente desta
reforma». Há estruturas eclesiais que podem chegar a condicionar um
dinamismo evangelizador; de igual modo, as boas estruturas servem quando há
uma vida que as anima, sustenta e avalia. Sem vida nova e espírito evangélico
autêntico, sem «fidelidade da Igreja à própria vocação», toda e qualquer nova
estrutura se corrompe em pouco tempo.
Uma renovação eclesial inadiável
27. Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os
costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se
tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à
auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só
se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais
missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais
comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante
de «saída» e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem
Jesus oferece a sua amizade. Como dizia João Paulo II aos Bispos da Oceânia,
«toda a renovação na Igreja há-de ter como alvo a missão, para não cair vítima
duma espécie de introversão eclesial».
28. A paróquia não é uma estrutura caduca; precisamente porque possui uma
grande plasticidade, pode assumir formas muito diferentes que requerem a
docilidade e a criatividade missionária do Pastor e da comunidade. Embora não
seja certamente a única instituição evangelizadora, se for capaz de se reformar
e adaptar constantemente, continuará a ser «a própria Igreja que vive no meio
das casas dos seus filhos e das suas filhas». Isto supõe que esteja realmente
em contacto com as famílias e com a vida do povo, e não se torne uma
estrutura complicada, separada das pessoas, nem um grupo de eleitos que
olham para si mesmos. A paróquia é presença eclesial no território, âmbito para
a escuta da Palavra, o crescimento da vida cristã, o diálogo, o anúncio, a
caridade generosa, a adoração e a celebração. Através de todas as suas
actividades, a paróquia incentiva e forma os seus membros para serem agentes
da evangelização. É comunidade de comunidades, santuário onde os sedentos
vão beber para continuarem a caminhar, e centro de constante envio
missionário. Temos, porém, de reconhecer que o apelo à revisão e renovação
das paróquias ainda não deu suficientemente fruto, tornando-se ainda mais
próximas das pessoas, sendo âmbitos de viva comunhão e participação e
orientando-se completamente para a missão.
29. As outras instituições eclesiais, comunidades de base e pequenas
comunidades, movimentos e outras formas de associação são uma riqueza da
Igreja que o Espírito suscita para evangelizar todos os ambientes e sectores.
Frequentemente trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de
diálogo com o mundo que renovam a Igreja. Mas é muito salutar que não
percam o contacto com esta realidade muito rica da paróquia local e que se
integrem de bom grado na pastoral orgânica da Igreja particular. Esta integração
evitará que fiquem só com uma parte do Evangelho e da Igreja, ou que se
transformem em nómades sem raízes.
30. Cada Igreja particular, porção da Igreja Católica sob a guia do seu Bispo,
está, também ela, chamada à conversão missionária. Ela é o sujeito primário da
evangelização, enquanto é a manifestação concreta da única Igreja num lugar
da terra e, nela, «está verdadeiramente presente e opera a Igreja de Cristo, una,
santa, católica e apostólica». É a Igreja encarnada num espaço concreto,
dotada de todos os meios de salvação dados por Cristo, mas com um rosto
local. A sua alegria de comunicar Jesus Cristo exprime-se tanto na sua
preocupação por anunciá-Lo noutros lugares mais necessitados, como numa
constante saída para as periferias do seu território ou para os novos âmbitos
socioculturais. Procura estar sempre onde fazem mais falta a luz e a vida do
Ressuscitado. Para que este impulso missionário seja cada vez mais intenso,
generoso e fecundo, exorto também cada uma das Igrejas particulares a entrar
decididamente num processo de discernimento, purificação e reforma.
31. O Bispo deve favorecer sempre a comunhão missionária na sua Igreja
diocesana, seguindo o ideal das primeiras comunidades cristãs, em que os
crentes tinham um só coração e uma só alma (cf. Act 4, 32) . Para isso, às
vezes pôr-se-á à frente para indicar a estrada e sustentar a esperança do povo,
outras vezes manter-se-á simplesmente no meio de todos com a sua
proximidade simples e misericordiosa e, em certas circunstâncias, deverá
caminhar atrás do povo, para ajudar aqueles que se atrasaram e sobretudo
porque o próprio rebanho possui o olfacto para encontrar novas estradas. Na
sua missão de promover uma comunhão dinâmica, aberta e missionária, deverá
estimular e procurar o amadurecimento dos organismos de participação
propostos pelo Código de Direito Canónico e de outras formas de diálogo
pastoral, com o desejo de ouvir a todos, e não apenas alguns sempre prontos a
lisonjeá-lo. Mas o objectivo destes processos participativos não há-de ser
principalmente a organização eclesial, mas o sonho missionário de chegar a
todos.
32. Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar
também numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma,
permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério
que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo pretendeu dar-lhe e às
necessidades actuais da evangelização. O Papa João Paulo II pediu que o
ajudassem a encontrar «uma forma de exercício do primado que, sem renunciar
de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação
nova». Pouco temos avançado neste sentido. Também o papado e as estruturas
centrais da Igreja universal precisam de ouvir este apelo a uma conversão
pastoral. O Concílio Vaticano II afirmou que, à semelhança das antigas Igrejas
patriarcais, as conferências episcopais podem «aportar uma contribuição
múltipla e fecunda, para que o sentimento colegial leve a aplicações concretas».
Mas este desejo não se realizou plenamente, porque ainda não foi
suficientemente explicitado um estatuto das conferências episcopais que as
considere como sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica
autoridade doutrinal. Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica
a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária.
33. A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cómodo critério
pastoral: «fez-se sempre assim». Convido todos a serem ousados e criativos
nesta tarefa de repensar os objectivos, as estruturas, o estilo e os métodos
evangelizadores das respectivas comunidades. Uma identificação dos fins, sem
uma condigna busca comunitária dos meios para os alcançar, está condenada a
traduzir-se em mera fantasia. A todos exorto a aplicarem, com generosidade e
coragem, as orientações deste documento, sem impedimentos nem receios.
Importante é não caminhar sozinho, mas ter sempre em conta os irmãos e, de
modo especial, a guia dos Bispos, num discernimento pastoral sábio e realista.
3. A partir do coração do Evangelho
34. Se pretendemos colocar tudo em chave missionária, isso aplica-se também
à maneira de comunicar a mensagem. No mundo actual, com a velocidade das
comunicações e a selecção interessada dos conteúdos feita pelos mass-media,
a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer
mutilada e reduzida a alguns dos seus aspectos secundários.
Consequentemente, algumas questões que fazem parte da doutrina moral da
Igreja ficam fora do contexto que lhes dá sentido. O problema maior ocorre
quando a mensagem que anunciamos parece então identificada com tais
aspectos secundários, que, apesar de serem relevantes, por si sozinhos não
manifestam o coração da mensagem de Jesus Cristo. Portanto, convém ser
realistas e não dar por suposto que os nossos interlocutores conhecem o
horizonte completo daquilo que dizemos ou que eles podem relacionar o nosso
discurso com o núcleo essencial do Evangelho que lhe confere sentido, beleza e
fascínio.
35. Uma pastoral em chave missionária não está obsessionada pela
transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor
à força de insistir. Quando se assume um objectivo pastoral e um estilo
missionário, que chegue realmente a todos sem excepções nem exclusões, o
anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais
atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário. A proposta acaba simplificada,
sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais
convincente e radiosa.
36. Todas as verdades reveladas procedem da mesma fonte divina e são
acreditadas com a mesma fé, mas algumas delas são mais importantes por
exprimir mais directamente o coração do Evangelho. Neste núcleo fundamental,
o que sobressai é a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus
Cristo morto e ressuscitado. Neste sentido, o Concílio Vaticano II afirmou que
«existe uma ordem ou “hierarquia” das verdades da doutrina católica, já que o
nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente». Isto é válido tanto para
os dogmas da fé como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a
doutrina moral.
37. São Tomás de Aquino ensinava que, também na mensagem moral da Igreja,
há uma hierarquia nas virtudes e acções que delas procedem. Aqui o que conta
é, antes de mais nada, «a fé que actua pelo amor» (Gal 5, 6). As obras de amor
ao próximo são a manifestação externa mais perfeita da graça interior do
Espírito: «O elemento principal da Nova Lei é a graça do Espírito Santo, que se
manifesta através da fé que opera pelo amor». Por isso afirma que,
relativamente ao agir exterior, a misericórdia é a maior de todas as virtudes:
«Em si mesma, a misericórdia é a maior das virtudes; na realidade, compete-lhe
debruçar-se sobre os outros e – o que mais conta – remediar as misérias
alheias. Ora, isto é tarefa especialmente de quem é superior; é por isso que se
diz que é próprio de Deus usar de misericórdia e é, sobretudo nisto, que se
manifesta a sua omnipotência».
38. É importante tirar as consequências pastorais desta doutrina conciliar, que
recolhe uma antiga convicção da Igreja. Antes de mais nada, deve-se dizer que,
no anúncio do Evangelho, é necessário que haja uma proporção adequada.
Esta reconhece-se na frequência com que se mencionam alguns temas e nas
acentuações postas na pregação. Por exemplo, se um pároco, durante um ano
litúrgico, fala dez vezes sobre a temperança e apenas duas ou três vezes sobre
a caridade ou sobre a justiça, gera-se uma desproporção, acabando
obscurecidas precisamente aquelas virtudes que deveriam estar mais presentes
na pregação e na catequese. E o mesmo acontece quando se fala mais da lei
que da graça, mais da Igreja que de Jesus Cristo, mais do Papa que da Palavra
de Deus.
39. Tal como existe uma unidade orgânica entre as virtudes que impede de
excluir qualquer uma delas do ideal cristão, assim também nenhuma verdade é
negada. Não é preciso mutilar a integridade da mensagem do Evangelho. Além
disso, cada verdade entende-se melhor se a colocarmos em relação com a
totalidade harmoniosa da mensagem cristã: e, neste contexto, todas as
verdades têm a sua própria importância e iluminam-se reciprocamente. Quando
a pregação é fiel ao Evangelho, manifesta-se com clareza a centralidade de
algumas verdades e fica claro que a pregação moral cristã não é uma ética
estóica, é mais do que uma ascese, não é uma mera filosofia prática nem um
catálogo de pecados e erros. O Evangelho convida, antes de tudo, a responder
a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-O nos outros e saindo de nós
mesmos para procurar o bem de todos. Este convite não há-de ser obscurecido
em nenhuma circunstância! Todas as virtudes estão ao serviço desta resposta
de amor. Se tal convite não refulge com vigor e fascínio, o edifício moral da
Igreja corre o risco de se tornar um castelo de cartas, sendo este o nosso pior
perigo; é que, então, não estaremos propriamente a anunciar o Evangelho, mas
algumas acentuações doutrinais ou morais, que derivam de certas opções
ideológicas. A mensagem correrá o risco de perder o seu frescor e já não ter «o
perfume do Evangelho».
4. A missão que se encarna nas limitações humanas
40. A Igreja, que é discípula missionária, tem necessidade de crescer na sua
interpretação da Palavra revelada e na sua compreensão da verdade. A tarefa
dos exegetas e teólogos ajuda a «amadurecer o juízo da Igreja». Embora de
modo diferente, fazem-no também as outras ciências. Referindo-se às ciências
sociais, por exemplo, João Paulo II disse que a Igreja presta atenção às suas
contribuições «para obter indicações concretas que a ajudem no cumprimento
da sua missão de Magistério». Além disso, dentro da Igreja, há inúmeras
questões à volta das quais se indaga e reflecte com grande liberdade. As
diversas linhas de pensamento filosófico, teológico e pastoral, se se deixam
harmonizar pelo Espírito no respeito e no amor, podem fazer crescer a Igreja,
enquanto ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Palavra. A quantos
sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto
poderá parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade
ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza
inesgotável do Evangelho.
41. Ao mesmo tempo, as enormes e rápidas mudanças culturais exigem que
prestemos constante atenção ao tentar exprimir as verdades de sempre numa
linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade; é que, no
depósito da doutrina cristã, «uma coisa é a substância (...) e outra é a
formulação que a reveste». Por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem
totalmente ortodoxa, aquilo que os fiéis recebem, devido à linguagem que eles
mesmos utilizam e compreendem, é algo que não corresponde ao verdadeiro
Evangelho de Jesus Cristo. Com a santa intenção de lhes comunicar a verdade
sobre Deus e o ser humano, nalgumas ocasiões, damos-lhes um falso deus ou
um ideal humano que não é verdadeiramente cristão. Deste modo, somos fiéis a
uma formulação, mas não transmitimos a substância. Este é o risco mais grave.
Lembremo-nos de que «a expressão da verdade pode ser multiforme. E a
renovação das formas de expressão torna-se necessária para transmitir ao
homem de hoje a mensagem evangélica no seu significado imutável».
42. Isto possui uma grande relevância no anúncio do Evangelho, se temos
verdadeiramente a peito fazer perceber melhor a sua beleza e fazê-la acolher
por todos. Em todo o caso, não poderemos jamais tornar os ensinamentos da
Igreja uma realidade facilmente compreensível e felizmente apreciada por todos;
a fé conserva sempre um aspecto de cruz, certa obscuridade que não tira
firmeza à sua adesão. Há coisas que se compreendem e apreciam só a partir
desta adesão que é irmã do amor, para além da clareza com que se possam
compreender as razões e os argumentos. Por isso, é preciso recordar-se de que
cada ensinamento da doutrina deve situar-se na atitude evangelizadora que
desperte a adesão do coração com a proximidade, o amor e o testemunho.
43. No seu constante discernimento, a Igreja pode chegar também a reconhecer
costumes próprios não directamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns
muito radicados no curso da história, que hoje já não são interpretados da
mesma maneira e cuja mensagem habitualmente não é percebida de modo
adequado. Podem até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à
transmissão do Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! Da mesma forma,
há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras
épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida. São
Tomás de Aquino sublinhava que os preceitos dados por Cristo e pelos
Apóstolos ao povo de Deus «são pouquíssimos». E, citando Santo Agostinho,
observava que os preceitos adicionados posteriormente pela Igreja se devem
exigir com moderação, «para não tornar pesada a vida aos fiéis» nem
transformar a nossa religião numa escravidão, quando «a misericórdia de Deus
quis que fosse livre». Esta advertência, feita há vários séculos, tem uma
actualidade tremenda. Deveria ser um dos critérios a considerar, quando se
pensa numa reforma da Igreja e da sua pregação que permita realmente chegar
a todos.
44. Aliás, tanto os Pastores como todos os fiéis que acompanham os seus
irmãos na fé ou num caminho de abertura a Deus não podem esquecer aquilo
que ensina, com muita clareza, o Catecismo da Igreja Católica: «A
imputabilidade e responsabilidade dum acto podem ser diminuídas, e até
anuladas, pela ignorância, a inadvertência, a violência, o medo, os hábitos, as
afeições desordenadas e outros factores psíquicos ou sociais».
Portanto, sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com
misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que
se vão construindo dia após dia. Aos sacerdotes, lembro que o confessionário
não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor
que nos incentiva a praticar o bem possível. Um pequeno passo, no meio de
grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida
externamente correcta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias
dificuldades. A todos deve chegar a consolação e o estímulo do amor salvífico
de Deus, que opera misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus
defeitos e das suas quedas.
45. Vemos assim que o compromisso evangelizador se move por entre as
limitações da linguagem e das circunstâncias. Procura comunicar cada vez
melhor a verdade do Evangelho num contexto determinado, sem renunciar à
verdade, ao bem e à luz que pode dar quando a perfeição não é possível. Um
coração missionário está consciente destas limitações, fazendo-se «fraco com
os fracos (...) e tudo para todos» (1 Cor 9, 22). Nunca se fecha, nunca se refugia
nas próprias seguranças, nunca opta pela rigidez auto-defensiva. Sabe que ele
mesmo deve crescer na compreensão do Evangelho e no discernimento das
sendas do Espírito, e assim não renuncia ao bem possível, ainda que corra o
risco de sujar-se com a lama da estrada.
5. Uma mãe de coração aberto
46. A Igreja «em saída» é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direcção
aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo
sem direcção nem sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte
a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para
acompanhar quem ficou caído à beira do caminho. Às vezes, é como o pai do
filho pródigo, que continua com as portas abertas para, quando este voltar,
poder entrar sem dificuldade.
47. A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. Um dos sinais
concretos desta abertura é ter, por todo o lado, igrejas com as portas abertas.
Assim, se alguém quiser seguir uma moção do Espírito e se aproximar à
procura de Deus, não esbarrará com a frieza duma porta fechada. Mas há
outras portas que também não se devem fechar: todos podem participar de
alguma forma na vida eclesial, todos podem fazer parte da comunidade, e nem
sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer.
Isto vale sobretudo quando se trata daquele sacramento que é a «porta»: o
Baptismo. A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é
um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os
fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos
chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como
controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma
alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa.
48. Se a Igreja inteira assume este dinamismo missionário, há-de chegar a
todos, sem excepção. Mas, a quem deveria privilegiar? Quando se lê o
Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e
vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas
vezes são desprezados e esquecidos, «àqueles que não têm com que te
retribuir» (Lc 14, 14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que
debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, «os pobres são os
destinatários privilegiados do Evangelho», e a evangelização dirigida
gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem
rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os
deixemos jamais sozinhos!
49. Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui,
para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de
Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído
pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se
agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o
centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se
alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é
que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da
amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um
horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos
mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa
protecção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos
em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e
Jesus repete-nos sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37).
Capítulo II
NA CRISE DO COMPROMISSO COMUNITÁRIO
50. Antes de falar de algumas questões fundamentais relativas à acção
evangelizadora, convém recordar brevemente o contexto em que temos de viver
e agir. É habitual hoje falar-se dum «excesso de diagnóstico», que nem sempre
é acompanhado por propostas resolutivas e realmente aplicáveis. Por outro
lado, também não nos seria de grande proveito um olhar puramente sociológico,
que tivesse a pretensão, com a sua metodologia, de abraçar toda a realidade de
maneira supostamente neutra e asséptica. O que quero oferecer situa-se mais
na linha dum discernimento evangélico. É o olhar do discípulo missionário que
«se nutre da luz e da força do Espírito Santo».
51. Não é função do Papa oferecer uma análise detalhada e completa da
realidade contemporânea, mas animo todas as comunidades a «uma
capacidade sempre vigilante de estudar os sinais dos tempos». Trata-se duma
responsabilidade grave, pois algumas realidades hodiernas, se não encontrarem
boas soluções, podem desencadear processos de desumanização tais que será
difícil depois retroceder. É preciso esclarecer o que pode ser um fruto do Reino
e também o que atenta contra o projecto de Deus. Isto implica não só
reconhecer e interpretar as moções do espírito bom e do espírito mau, mas
também – e aqui está o ponto decisivo – escolher as do espírito bom e rejeitar
as do espírito mau. Pressuponho as várias análises que ofereceram os outros
documentos do Magistério universal, bem como as propostas pelos episcopados
regionais e nacionais. Nesta Exortação, pretendo debruçar-me, brevemente e
numa perspectiva pastoral, apenas sobre alguns aspectos da realidade que
podem deter ou enfraquecer os dinamismos de renovação missionária da Igreja,
seja porque afectam a vida e a dignidade do povo de Deus, seja porque incidem
sobre os sujeitos que mais directamente participam nas instituições eclesiais e
nas tarefas de evangelização.
1. Alguns desafios do mundo actual
52. A humanidade vive, neste momento, uma viragem histórica, que podemos
constatar nos progressos que se verificam em vários campos. São louváveis os
sucessos que contribuem para o bem-estar das pessoas, por exemplo, no
âmbito da saúde, da educação e da comunicação. Todavia não podemos
esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu
dia a dia precariamente, com funestas consequências. Aumentam algumas
doenças. O medo e o desespero apoderam-se do coração de inúmeras
pessoas, mesmo nos chamados países ricos. A alegria de viver frequentemente
se desvanece; crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social
torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes viver
com pouca dignidade. Esta mudança de época foi causada pelos enormes
saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados que se verificam no
progresso científico, nas inovações tecnológicas e nas suas rápidas aplicações
em diversos âmbitos da natureza e da vida. Estamos na era do conhecimento e
da informação, fonte de novas formas dum poder muitas vezes anónimo.
Não a uma economia da exclusão
53. Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar
o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma
economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é
possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia,
enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode
tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que
passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da
competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em
consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas
e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser
humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode
usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás
chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de
exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na
própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas,
na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são
«explorados», mas resíduos, «sobras».
54. Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável»
que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre
mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no
mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma
confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico
e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os
excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que
exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveuse
uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos
incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à
vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se
tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do
bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado
oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas
por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não nos
incomoda de forma alguma.
Não à nova idolatria do dinheiro
55. Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o
dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas
sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua
origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser
humano. Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex
32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na
ditadura duma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente
humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a
descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência duma
orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas
necessidades: o consumo.
56. Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria
situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal
desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos
mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos
Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma
nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e
implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos
juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os
cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção
ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A
ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a
fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil,
como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado,
transformados em regra absoluta.
Não a um dinheiro que governa em vez de servir
57. Por detrás desta atitude, escondem-se a rejeição da ética e a recusa de
Deus. Para a ética, olha-se habitualmente com um certo desprezo sarcástico; é
considerada contraproducente, demasiado humana, porque relativiza o dinheiro
e o poder. É sentida como uma ameaça, porque condena a manipulação e
degradação da pessoa. Em última instância, a ética leva a Deus que espera
uma resposta comprometida que está fora das categorias do mercado. Para
estas, se absolutizadas, Deus é incontrolável, não manipulável e até mesmo
perigoso, na medida em que chama o ser humano à sua plena realização e à
independência de qualquer tipo de escravidão. A ética – uma ética não
ideologizada – permite criar um equilíbrio e uma ordem social mais humana.
Neste sentido, animo os peritos financeiros e os governantes dos vários países
a considerarem as palavras dum sábio da antiguidade: «Não fazer os pobres
participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são
nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos».
58. Uma reforma financeira que tivesse em conta a ética exigiria uma vigorosa
mudança de atitudes por parte dos dirigentes políticos, a quem exorto a
enfrentar este desafio com determinação e clarividência, sem esquecer
naturalmente a especificidade de cada contexto. O dinheiro deve servir, e não
governar! O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome
de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e
promovê-los. Exorto-vos a uma solidariedade desinteressada e a um regresso
da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano.
Não à desigualdade social que gera violência
59. Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se
eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários
povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os
pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as
várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais
cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local,
nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há
programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam
garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a
desigualdade social provoca a reacção violenta de quantos são excluídos do
sistema, mas porque o sistema social e económico é injusto na sua raiz. Assim
como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a
injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as
bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se
cada acção tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma
sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal
cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos
esperar um futuro melhor. Estamos longe do chamado «fim da história», já que
as condições dum desenvolvimento sustentável e pacífico ainda não estão
adequadamente implantadas e realizadas.
60. Os mecanismos da economia actual promovem uma exacerbação do
consumo, mas sabe-se que o consumismo desenfreado, aliado à desigualdade
social, é duplamente daninho para o tecido social. Assim, mais cedo ou mais
tarde, a desigualdade social gera uma violência que as corridas armamentistas
não resolvem nem poderão resolver jamais. Servem apenas para tentar enganar
aqueles que reclamam maior segurança, como se hoje não se soubesse que as
armas e a repressão violenta, mais do que dar solução, criam novos e piores
conflitos. Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios males,
os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e pretendem
encontrar a solução numa «educação» que os tranquilize e transforme em seres
domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os
excluídos vêem crescer este câncer social que é a corrupção profundamente
radicada em muitos países – nos seus Governos, empresários e instituições –
seja qual for a ideologia política dos governantes.
Alguns desafios culturais
61. Evangelizamos também procurando enfrentar os diferentes desafios que se
nos podem apresentar. Às vezes, estes manifestam-se em verdadeiros ataques
à liberdade religiosa ou em novas situações de perseguição aos cristãos, que,
nalguns países, atingiram níveis alarmantes de ódio e violência. Em muitos
lugares, trata-se mais de uma generalizada indiferença relativista, relacionada
com a desilusão e a crise das ideologias que se verificou como reacção a tudo o
que pareça totalitário. Isto não prejudica só a Igreja, mas a vida social em geral.
Reconhecemos que, numa cultura onde cada um pretende ser portador duma
verdade subjectiva própria, torna-se difícil que os cidadãos queiram inserir-se
num projecto comum que vai além dos benefícios e desejos pessoais.
62. Na cultura dominante, ocupa o primeiro lugar aquilo que é exterior, imediato,
visível, rápido, superficial, provisório. O real cede o lugar à aparência. Em
muitos países, a globalização comportou uma acelerada deterioração das raízes
culturais com a invasão de tendências pertencentes a outras culturas,
economicamente desenvolvidas mas eticamente debilitadas. Assim se
exprimiram, em distintos Sínodos, os Bispos de vários continentes. Há alguns
anos, os Bispos da África, por exemplo, retomando a Encíclica Sollicitudo rei
socialis, assinalaram que muitas vezes se quer transformar os países africanos
em meras «peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigantesca.
Isto verifica-se com frequência também no domínio dos meios de comunicação
social, os quais, sendo na sua maior parte geridos por centros situados na parte
norte do mundo, nem sempre têm na devida conta as prioridades e os
problemas próprios desses países e não respeitam a sua fisionomia cultural».
De igual modo, os Bispos da Ásia sublinharam «as influências externas que
estão a penetrar nas culturas asiáticas. Vão surgindo formas novas de
comportamento resultantes da orientação dos mass-media (…). Em
consequência disso, os aspectos negativos dos mass-media e espectáculos
estão a ameaçar os valores tradicionais».
63. A fé católica de muitos povos encontra-se hoje perante o desafio da
proliferação de novos movimentos religiosos, alguns tendentes ao
fundamentalismo e outros que parecem propor uma espiritualidade sem Deus.
Isto, por um lado, é o resultado duma reacção humana contra a sociedade
materialista, consumista e individualista e, por outro, um aproveitamento das
carências da população que vive nas periferias e zonas pobres, sobrevive no
meio de grandes preocupações humanas e procura soluções imediatas para as
suas necessidades. Estes movimentos religiosos, que se caracterizam pela sua
penetração subtil, vêm colmar, dentro do individualismo reinante, um vazio
deixado pelo racionalismo secularista. Além disso, é necessário reconhecer que,
se uma parte do nosso povo baptizado não sente a sua pertença à Igreja, isso
deve-se também à existência de estruturas com clima pouco acolhedor
nalgumas das nossas paróquias e comunidades, ou à atitude burocrática com
que se dá resposta aos problemas, simples ou complexos, da vida dos nossos
povos. Em muitas partes, predomina o aspecto administrativo sobre o pastoral,
bem como uma sacramentalização sem outras formas de evangelização.
64. O processo de secularização tende a reduzir a fé e a Igreja ao âmbito
privado e íntimo. Além disso, com a negação de toda a transcendência,
produziu-se uma crescente deformação ética, um enfraquecimento do sentido
do pecado pessoal e social e um aumento progressivo do relativismo; e tudo
isso provoca uma desorientação generalizada, especialmente na fase tão
vulnerável às mudanças da adolescência e juventude. Como justamente
observam os Bispos dos Estados Unidos da América, enquanto a Igreja insiste
na existência de normas morais objectivas, válidas para todos, «há aqueles que
apresentam esta doutrina como injusta, ou seja, contrária aos direitos humanos
básicos. Tais alegações brotam habitualmente de uma forma de relativismo
moral, que se une consistentemente a uma confiança nos direitos absolutos dos
indivíduos. Nesta perspectiva, a Igreja é sentida como se estivesse promovendo
um convencionalismo particular e interferisse com a liberdade individual».
Vivemos numa sociedade da informação que nos satura indiscriminadamente de
dados, todos postos ao mesmo nível, e acaba por nos conduzir a uma tremenda
superficialidade no momento de enquadrar as questões morais. Por
conseguinte, torna-se necessária uma educação que ensine a pensar
criticamente e ofereça um caminho de amadurecimento nos valores.
65. Apesar de toda a corrente secularista que invade a sociedade, em muitos
países – mesmo onde o cristianismo está em minoria – a Igreja Católica é uma
instituição credível perante a opinião pública, fiável no que diz respeito ao
âmbito da solidariedade e preocupação pelos mais indigentes. Em repetidas
ocasiões, ela serviu de medianeira na solução de problemas que afectam a paz,
a concórdia, o meio ambiente, a defesa da vida, os direitos humanos e civis, etc.
E como é grande a contribuição das escolas e das universidades católicas no
mundo inteiro! E é muito bom que assim seja. Mas, quando levantamos outras
questões que suscitam menor acolhimento público, custa-nos a demonstrar que
o fazemos por fidelidade às mesmas convicções sobre a dignidade da pessoa
humana e do bem comum.
66. A família atravessa uma crise cultural profunda, como todas as comunidades
e vínculos sociais. No caso da família, a fragilidade dos vínculos reveste-se de
especial gravidade, porque se trata da célula básica da sociedade, o espaço
onde se aprende a conviver na diferença e a pertencer aos outros e onde os
pais transmitem a fé aos seus filhos. O matrimónio tende a ser visto como mera
forma de gratificação afectiva, que se pode constituir de qualquer maneira e
modificar-se de acordo com a sensibilidade de cada um. Mas a contribuição
indispensável do matrimónio à sociedade supera o nível da afectividade e o das
necessidades ocasionais do casal. Como ensinam os Bispos franceses, não
provém «do sentimento amoroso, efémero por definição, mas da profundidade
do compromisso assumido pelos esposos que aceitam entrar numa união de
vida total».
67. O individualismo pós-moderno e globalizado favorece um estilo de vida que
debilita o desenvolvimento e a estabilidade dos vínculos entre as pessoas e
distorce os vínculos familiares. A acção pastoral deve mostrar ainda melhor que
a relação com o nosso Pai exige e incentiva uma comunhão que cura, promove
e fortalece os vínculos interpessoais. Enquanto no mundo, especialmente
nalguns países, se reacendem várias formas de guerras e conflitos, nós,
cristãos, insistimos na proposta de reconhecer o outro, de curar as feridas, de
construir pontes, de estreitar laços e de nos ajudarmos «a carregar as cargas
uns dos outros» (Gal 6, 2). Além disso, vemos hoje surgir muitas formas de
agregação para a defesa de direitos e a consecução de nobres objectivos.
Deste modo se manifesta uma sede de participação de numerosos cidadãos,
que querem ser construtores do desenvolvimento social e cultural.
Desafios da inculturação da fé
68. O substrato cristão dalguns povos – sobretudo ocidentais – é uma realidade
viva. Aqui encontramos, especialmente nos mais necessitados, uma reserva
moral que guarda valores de autêntico humanismo cristão. Um olhar de fé sobre
a realidade não pode deixar de reconhecer o que semeia o Espírito Santo.
Significaria não ter confiança na sua acção livre e generosa pensar que não
existem autênticos valores cristãos, onde uma grande parte da população
recebeu o Baptismo e exprime de variadas maneiras a sua fé e solidariedade
fraterna. Aqui há que reconhecer muito mais que «sementes do Verbo», visto
que se trata duma autêntica fé católica com modalidades próprias de expressão
e de pertença à Igreja. Não convém ignorar a enorme importância que tem uma
cultura marcada pela fé, porque, não obstante os seus limites, esta cultura
evangelizada tem, contra os ataques do secularismo actual, muitos mais
recursos do que a mera soma dos crentes. Uma cultura popular evangelizada
contém valores de fé e solidariedade que podem provocar o desenvolvimento
duma sociedade mais justa e crente, e possui uma sabedoria peculiar que
devemos saber reconhecer com olhar agradecido.
69. Há uma necessidade imperiosa de evangelizar as culturas para inculturar o
Evangelho. Nos países de tradição católica, tratar-se-á de acompanhar, cuidar e
fortalecer a riqueza que já existe e, nos países de outras tradições religiosas ou
profundamente secularizados, há que procurar novos processos de
evangelização da cultura, ainda que suponham projectos a longo prazo.
Entretanto não podemos ignorar que há sempre uma chamada ao crescimento:
toda a cultura e todo o grupo social necessitam de purificação e
amadurecimento. No caso das culturas populares de povos católicos, podemos
reconhecer algumas fragilidades que precisam ainda de ser curadas pelo
Evangelho: o machismo, o alcoolismo, a violência doméstica, uma escassa
participação na Eucaristia, crenças fatalistas ou supersticiosas que levam a
recorrer à bruxaria, etc. Mas o melhor ponto de partida para curar e ver-se livre
de tais fragilidades é precisamente a piedade popular.
70. Certo é também que, às vezes, se dá maior realce a formas exteriores das
tradições de grupos concretos ou a supostas revelações privadas, que se
absolutizam, do que ao impulso da piedade cristã. Há certo cristianismo feito de
devoções – próprio duma vivência individual e sentimental da fé – que, na
realidade, não corresponde a uma autêntica «piedade popular». Alguns
promovem estas expressões sem se preocupar com a promoção social e a
formação dos fiéis, fazendo-o nalguns casos para obter benefícios económicos
ou algum poder sobre os outros. Também não podemos ignorar que, nas últimas
décadas, se produziu uma ruptura na transmissão geracional da fé cristã no
povo católico. É inegável que muitos se sentem desiludidos e deixam de se
identificar com a tradição católica, que cresceu o número de pais que não
baptizam os seus filhos nem os ensinam a rezar, e que há um certo êxodo para
outras comunidades de fé. Algumas causas desta ruptura são a falta de
espaços de diálogo familiar, a influência dos meios de comunicação, o
subjectivismo relativista, o consumismo desenfreado que o mercado incentiva, a
falta de cuidado pastoral pelos mais pobres, a inexistência dum acolhimento
cordial nas nossas instituições, e a dificuldade que sentimos em recriar a
adesão mística da fé num cenário religioso pluralista.
Desafios das culturas urbanas
71. A nova Jerusalém, a cidade santa (cf. Ap 21, 2-4), é a meta para onde
peregrina toda a humanidade. É interessante que a revelação nos diga que a
plenitude da humanidade e da história se realiza numa cidade. Precisamos de
identificar a cidade a partir dum olhar contemplativo, isto é, um olhar de fé que
descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças. A
presença de Deus acompanha a busca sincera que indivíduos e grupos
efectuam para encontrar apoio e sentido para a sua vida. Ele vive entre os
citadinos promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de
verdade, de justiça. Esta presença não precisa de ser criada, mas descoberta,
desvendada. Deus não Se esconde de quantos O buscam com coração sincero,
ainda que o façam tacteando, de maneira imprecisa e incerta.
72. Na cidade, o elemento religioso é mediado por diferentes estilos de vida, por
costumes ligados a um sentido do tempo, do território e das relações que difere
do estilo das populações rurais. Na vida quotidiana, muitas vezes os citadinos
lutam para sobreviver e, nesta luta, esconde-se um sentido profundo da
existência que habitualmente comporta também um profundo sentido religioso.
Precisamos de o contemplar para conseguirmos um diálogo parecido com o que
o Senhor teve com a Samaritana, junto do poço onde ela procurava saciar a sua
sede (cf. Jo 4, 7-26).
73. Novas culturas continuam a formar-se nestas enormes geografias humanas
onde o cristão já não costuma ser promotor ou gerador de sentido, mas recebe
delas outras linguagens, símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem
novas orientações de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de
Jesus. Uma cultura inédita palpita e está em elaboração na cidade. O Sínodo
constatou que as transformações destas grandes áreas e a cultura que
exprimem são, hoje, um lugar privilegiado da nova evangelização. Isto requer
imaginar espaços de oração e de comunhão com características inovadoras,
mais atraentes e significativas para as populações urbanas. Os ambientes
rurais, devido à influência dos mass-media, não estão imunes destas
transformações culturais que também operam mudanças significativas nas suas
formas de vida.
74. Torna-se necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se
relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores
fundamentais. É necessário chegar aonde são concebidas as novas histórias e
paradigmas, alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da
alma das cidades. Não se deve esquecer que a cidade é um âmbito
multicultural. Nas grandes cidades, pode observar-se uma trama em que grupos
de pessoas compartilham as mesmas formas de sonhar a vida e ilusões
semelhantes, constituindo-se em novos sectores humanos, em territórios
culturais, em cidades invisíveis. Na realidade, convivem variadas formas
culturais, mas exercem muitas vezes práticas de segregação e violência. A
Igreja é chamada a ser servidora dum diálogo difícil. Enquanto há citadinos que
conseguem os meios adequados para o desenvolvimento da vida pessoal e
familiar, muitíssimos são também os «não-citadinos», os «meio-citadinos» ou os
«resíduos urbanos». A cidade dá origem a uma espécie de ambivalência
permanente, porque, ao mesmo tempo que oferece aos seus habitantes infinitas
possibilidades, interpõe também numerosas dificuldades ao pleno
desenvolvimento da vida de muitos. Esta contradição provoca sofrimentos
lancinantes. Em muitas partes do mundo, as cidades são cenário de protestos
em massa, onde milhares de habitantes reclamam liberdade, participação,
justiça e várias reivindicações que, se não forem adequadamente interpretadas,
nem pela força poderão ser silenciadas.
75. Não podemos ignorar que, nas cidades, facilmente se desenvolve o tráfico
de drogas e de pessoas, o abuso e a exploração de menores, o abandono de
idosos e doentes, várias formas de corrupção e crime. Ao mesmo tempo, o que
poderia ser um precioso espaço de encontro e solidariedade, transforma-se
muitas vezes num lugar de retraimento e desconfiança mútua. As casas e os
bairros constroem-se mais para isolar e proteger do que para unir e integrar. A
proclamação do Evangelho será uma base para restabelecer a dignidade da
vida humana nestes contextos, porque Jesus quer derramar nas cidades vida
em abundância (cf. Jo 10, 10). O sentido unitário e completo da vida humana
proposto pelo Evangelho é o melhor remédio para os males urbanos, embora
devamos reparar que um programa e um estilo uniformes e rígidos de
evangelização não são adequados para esta realidade. Mas viver a fundo a
realidade humana e inserir-se no coração dos desafios como fermento de
testemunho, em qualquer cultura, em qualquer cidade, melhora o cristão e
fecunda a cidade.
2. Tentações dos agentes pastorais
76. Sinto uma enorme gratidão pela tarefa de quantos trabalham na Igreja. Não
quero agora deter-me na exposição das actividades dos vários agentes
pastorais, desde os Bispos até ao mais simples e ignorado dos serviços
eclesiais. Prefiro reflectir sobre os desafios que todos eles enfrentam no meio da
cultura globalizada actual. Mas, antes de tudo e como dever de justiça, tenho a
dizer que é enorme a contribuição da Igreja no mundo actual. A nossa tristeza e
vergonha pelos pecados de alguns membros da Igreja, e pelos próprios, não
devem fazer esquecer os inúmeros cristãos que dão a vida por amor: ajudam
tantas pessoas seja a curar-se seja a morrer em paz em hospitais precários,
acompanham as pessoas que caíram escravas de diversos vícios nos lugares
mais pobres da terra, prodigalizam-se na educação de crianças e jovens,
cuidam de idosos abandonados por todos, procuram comunicar valores em
ambientes hostis, e dedicam-se de muitas outras maneiras que mostram o
imenso amor à humanidade inspirado por Deus feito homem. Agradeço o belo
exemplo que me dão tantos cristãos que oferecem a sua vida e o seu tempo
com alegria. Este testemunho faz-me muito bem e me apoia na minha aspiração
pessoal de superar o egoísmo para uma dedicação maior.
77. Apesar disso, como filhos desta época, todos estamos de algum modo sob o
influxo da cultura globalizada actual, que, sem deixar de apresentar valores e
novas possibilidades, pode também limitar-nos, condicionar-nos e até mesmo
combalir-nos. Reconheço que precisamos de criar espaços apropriados para
motivar e sanar os agentes pastorais, «lugares onde regenerar a sua fé em
Jesus crucificado e ressuscitado, onde compartilhar as próprias questões mais
profundas e as preocupações quotidianas, onde discernir em profundidade e
com critérios evangélicos sobre a própria existência e experiência, com o
objectivo de orientar para o bem e a beleza as próprias opções individuais e
sociais». Ao mesmo tempo, quero chamar a atenção para algumas tentações
que afectam, particularmente nos nossos dias, os agentes pastorais.
Sim ao desafio duma espiritualidade missionária
78. Hoje nota-se em muitos agentes pastorais, mesmo pessoas consagradas,
uma preocupação exacerbada pelos espaços pessoais de autonomia e
relaxamento, que leva a viver os próprios deveres como mero apêndice da vida,
como se não fizessem parte da própria identidade. Ao mesmo tempo, a vida
espiritual confunde-se com alguns momentos religiosos que proporcionam
algum alívio, mas não alimentam o encontro com os outros, o compromisso no
mundo, a paixão pela evangelização. Assim, é possível notar em muitos
agentes evangelizadores – não obstante rezem – uma acentuação do
individualismo, uma crise de identidade e um declínio do fervor. São três males
que se alimentam entre si.
79. A cultura mediática e alguns ambientes intelectuais transmitem, às vezes,
uma acentuada desconfiança quanto à mensagem da Igreja, e um certo
desencanto. Em consequência disso, embora rezando, muitos agentes pastorais
desenvolvem uma espécie de complexo de inferioridade que os leva a relativizar
ou esconder a sua identidade cristã e as suas convicções. Gera-se então um
círculo vicioso, porque assim não se sentem felizes com o que são nem com o
que fazem, não se sentem identificados com a missão evangelizadora, e isto
debilita a entrega. Acabam assim por sufocar a alegria da missão numa espécie
de obsessão por serem como todos os outros e terem o que possuem os
demais. Deste modo, a tarefa da evangelização torna-se forçada e dedica-selhe
pouco esforço e um tempo muito limitado.
80. Nos agentes pastorais, independentemente do estilo espiritual ou da linha
de pensamento que possam ter, desenvolve-se um relativismo ainda mais
perigoso que o doutrinal. Tem a ver com as opções mais profundas e sinceras
que determinam uma forma de vida concreta. Este relativismo prático é agir
como se Deus não existisse, decidir como se os pobres não existissem, sonhar
como se os outros não existissem, trabalhar como se aqueles que não
receberam o anúncio não existissem. É impressionante como até aqueles que
aparentemente dispõem de sólidas convicções doutrinais e espirituais acabam,
muitas vezes, por cair num estilo de vida que os leva a agarrarem-se a
seguranças económicas ou a espaços de poder e de glória humana que se
buscam por qualquer meio, em vez de dar a vida pelos outros na missão. Não
nos deixemos roubar o entusiasmo missionário!
Não à acédia egoísta
81. Quando mais precisamos dum dinamismo missionário que leve sal e luz ao
mundo, muitos leigos temem que alguém os convide a realizar alguma tarefa
apostólica e procuram fugir de qualquer compromisso que lhes possa roubar o
tempo livre. Hoje, por exemplo, tornou-se muito difícil nas paróquias conseguir
catequistas que estejam preparados e perseverem no seu dever por vários
anos. Mas algo parecido acontece com os sacerdotes que se preocupam
obsessivamente com o seu tempo pessoal. Isto, muitas vezes, fica-se a dever a
que as pessoas sentem imperiosamente necessidade de preservar os seus
espaços de autonomia, como se uma tarefa de evangelização fosse um veneno
perigoso e não uma resposta alegre ao amor de Deus que nos convoca para a
missão e nos torna completos e fecundos. Alguns resistem a provar até ao
fundo o gosto da missão e acabam mergulhados numa acédia paralisadora.
82. O problema não está sempre no excesso de actividades, mas sobretudo nas
actividades mal vividas, sem as motivações adequadas, sem uma
espiritualidade que impregne a acção e a torne desejável. Daí que as
obrigações cansem mais do que é razoável, e às vezes façam adoecer. Não se
trata duma fadiga feliz, mas tensa, gravosa, desagradável e, em definitivo, não
assumida. Esta acédia pastoral pode ter origens diversas: alguns caem nela por
sustentarem projectos irrealizáveis e não viverem de bom grado o que poderiam
razoavelmente fazer; outros, por não aceitarem a custosa evolução dos
processos e querem que tudo caia do Céu; outros, por se apegarem a alguns
projectos ou a sonhos de sucesso cultivados pela sua vaidade; outros, por
terem perdido o contacto real com o povo, numa despersonalização da pastoral
que leva a prestar mais atenção à organização do que às pessoas, acabando
assim por se entusiasmarem mais com a «tabela de marcha» do que com a
própria marcha; outros ainda caem na acédia, por não saberem esperar e
quererem dominar o ritmo da vida. A ânsia hodierna de chegar a resultados
imediatos faz com que os agentes pastorais não tolerem facilmente tudo o que
signifique alguma contradição, um aparente fracasso, uma crítica, uma cruz.
83. Assim se gera a maior ameaça, que «é o pragmatismo cinzento da vida
quotidiana da Igreja, no qual aparentemente tudo procede dentro da
normalidade, mas na realidade a fé vai-se deteriorando e degenerando na
mesquinhez». Desenvolve-se a psicologia do túmulo, que pouco a pouco
transforma os cristãos em múmias de museu. Desiludidos com a realidade, com
a Igreja ou consigo mesmos, vivem constantemente tentados a apegar-se a
uma tristeza melosa, sem esperança, que se apodera do coração como «o mais
precioso elixir do demónio». Chamados para iluminar e comunicar vida, acabam
por se deixar cativar por coisas que só geram escuridão e cansaço interior e
corroem o dinamismo apostólico. Por tudo isto, permiti que insista: Não
deixemos que nos roubem a alegria da evangelização!
Não ao pessimismo estéril
84. A alegria do Evangelho é tal que nada e ninguém no-la poderá tirar (cf. Jo
16, 22). Os males do nosso mundo – e os da Igreja – não deveriam servir como
desculpa para reduzir a nossa entrega e o nosso ardor. Vejamo-los como
desafios para crescer. Além disso, o olhar crente é capaz de reconhecer a luz
que o Espírito Santo sempre irradia no meio da escuridão, sem esquecer que,
«onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rm 5, 20). A nossa fé é
desafiada a entrever o vinho em que a água pode ser transformada, e a
descobrir o trigo que cresce no meio do joio. Cinquenta anos depois do Concílio
Vaticano II, apesar de nos entristecerem as misérias do nosso tempo e estarmos
longe de optimismos ingénuos, um maior realismo não deve significar menor
confiança no Espírito nem menor generosidade. Neste sentido, podemos voltar
a ouvir as palavras pronunciadas pelo Beato João XXIII naquele memorável 11
de Outubro de 1962: «Chegam-nos aos ouvidos insinuações de almas,
ardorosas sem dúvida no zelo, mas não dotadas de grande sentido de discrição
e moderação. Nos tempos actuais, não vêem senão prevaricações e ruínas. [...]
Mas a nós parece-nos que devemos discordar desses profetas de desgraças,
que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o
fim do mundo. Na ordem presente das coisas, a misericordiosa Providência
está-nos levantando para uma ordem de relações humanas que, por obra dos
homens e a maior parte das vezes para além do que eles esperam, se
encaminham para o cumprimento dos seus desígnios superiores e inesperados,
e tudo, mesmo as adversidades humanas, converge para o bem da Igreja».
85. Uma das tentações mais sérias que sufoca o fervor e a ousadia é a
sensação de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e
desencantados com cara de vinagre. Ninguém pode empreender uma luta, se
de antemão não está plenamente confiado no triunfo. Quem começa sem
confiança, perdeu de antemão metade da batalha e enterra os seus talentos.
Embora com a dolorosa consciência das próprias fraquezas, há que seguir em
frente, sem se dar por vencido, e recordar o que disse o Senhor a São Paulo:
«Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza» (2 Cor 12,
9). O triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente,
estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as
investidas do mal. O mau espírito da derrota é irmão da tentação de separar
prematuramente o trigo do joio, resultado de uma desconfiança ansiosa e
egocêntrica.
86. É verdade que, nalguns lugares, se produziu uma «desertificação»
espiritual, fruto do projecto de sociedades que querem construir sem Deus ou
que destroem as suas raízes cristãs. Lá, «o mundo cristão está a tornar-se
estéril e se esgota como uma terra excessivamente desfrutada que se
transforma em poeira». Noutros países, a resistência violenta ao cristianismo
obriga os cristãos a viverem a sua fé às escondidas no país que amam. Esta é
outra forma muito triste de deserto. E a própria família ou o lugar de trabalho
podem ser também o tal ambiente árido, onde há que conservar a fé e procurar
irradiá-la. Mas «é precisamente a partir da experiência deste deserto, deste
vazio, que podemos redescobrir a alegria de crer, a sua importância vital para
nós, homens e mulheres. No deserto, é possível redescobrir o valor daquilo que
é essencial para a vida; assim sendo, no mundo de hoje, há inúmeros sinais da
sede de Deus, do sentido último da vida, ainda que muitas vezes expressos
implícita ou negativamente. E, no deserto, existe sobretudo a necessidade de
pessoas de fé que, com suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra
Prometida, mantendo assim viva a esperança». Em todo o caso, lá somos
chamados a ser pessoas-cântaro para dar de beber aos outros. Às vezes o
cântaro transforma-se numa pesada cruz, mas foi precisamente na Cruz que o
Senhor, trespassado, Se nos entregou como fonte de água viva. Não deixemos
que nos roubem a esperança!
Sim às relações novas geradas por Jesus Cristo
87. Neste tempo em que as redes e demais instrumentos da comunicação
humana alcançaram progressos inauditos, sentimos o desafio de descobrir e
transmitir a «mística» de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço,
apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se
numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa
peregrinação sagrada. Assim, as maiores possibilidades de comunicação
traduzir-se-ão em novas oportunidades de encontro e solidariedade entre todos.
Como seria bom, salutar, libertador, esperançoso, se pudéssemos trilhar este
caminho! Sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem. Fechar-se em si
mesmo é provar o veneno amargo da imanência, e a humanidade perderá com
cada opção egoísta que fizermos.
88. O ideal cristão convidará sempre a superar a suspeita, a desconfiança
permanente, o medo de sermos invadidos, as atitudes defensivas que nos
impõe o mundo actual. Muitos tentam escapar dos outros fechando-se na sua
privacidade confortável ou no círculo reduzido dos mais íntimos, e renunciam ao
realismo da dimensão social do Evangelho. Porque, assim como alguns
quiseram um Cristo puramente espiritual, sem carne nem cruz, também se
pretendem relações interpessoais mediadas apenas por sofisticados aparatos,
por ecrãs e sistemas que se podem acender e apagar à vontade. Entretanto o
Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do
outro, com a sua presença física que interpela, com o seu sofrimentos e suas
reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A
verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo,
da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros.
Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura.
89. O isolamento, que é uma concretização do imanentismo, pode exprimir-se
numa falsa autonomia que exclui Deus, mas pode também encontrar na religião
uma forma de consumismo espiritual à medida do próprio individualismo
doentio. O regresso ao sagrado e a busca espiritual, que caracterizam a nossa
época. são fenómenos ambíguos. Mais do que o ateísmo, o desafio que hoje se
nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas,
para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus
Cristo sem carne e sem compromisso com o outro. Se não encontram na Igreja
uma espiritualidade que os cure, liberte, encha de vida e de paz, ao mesmo
tempo que os chame à comunhão solidária e à fecundidade missionária,
acabarão enganados por propostas que não humanizam nem dão glória a Deus.
90. As formas próprias da religiosidade popular são encarnadas, porque
brotaram da encarnação da fé cristã numa cultura popular. Por isso mesmo,
incluem uma relação pessoal, não com energias harmonizadoras, mas com
Deus, Jesus Cristo, Maria, um Santo. Têm carne, têm rostos. Estão aptas para
alimentar potencialidades relacionais e não tanto fugas individualistas. Noutros
sectores da nossa sociedade, cresce o apreço por várias formas de
«espiritualidade do bem-estar» sem comunidade, por uma «teologia da
prosperidade» sem compromissos fraternos ou por experiências subjectivas
sem rostos, que se reduzem a uma busca interior imanentista.
91. Um desafio importante é mostrar que a solução nunca consistirá em escapar
de uma relação pessoal e comprometida com Deus, que ao mesmo tempo nos
comprometa com os outros. Isto é o que se verifica hoje quando os crentes
procuram esconder-se e livrar-se dos outros, e quando subtilmente escapam de
um lugar para outro ou de uma tarefa para outra, sem criar vínculos profundos e
estáveis: «A imaginação e mudança de lugares enganou a muitos». É um
remédio falso que faz adoecer o coração e, às vezes, o corpo. Faz falta ajudar a
reconhecer que o único caminho é aprender a encontrar os demais com a
atitude adequada, que é valorizá-los e aceitá-los como companheiros de
estrada, sem resistências interiores. Melhor ainda, trata-se de aprender a
descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz, nas suas reivindicações; e
aprender também a sofrer, num abraço com Jesus crucificado, quando
recebemos agressões injustas ou ingratidões, sem nos cansarmos jamais de
optar pela fraternidade.
92. Nisto está a verdadeira cura: de facto, o modo de nos relacionarmos com os
outros que, em vez de nos adoecer, nos cura é uma fraternidade mística,
contemplativa, que sabe ver a grandeza sagrada do próximo, que sabe
descobrir Deus em cada ser humano, que sabe tolerar as moléstias da
convivência agarrando-se ao amor de Deus, que sabe abrir o coração ao amor
divino para procurar a felicidade dos outros como a procura o seu Pai bom.
Precisamente nesta época, inclusive onde são um «pequenino rebanho» (Lc 12,
32), os discípulos do Senhor são chamados a viver como comunidade que seja
sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13-16). São chamados a testemunhar, de
forma sempre nova, uma pertença evangelizadora. Não deixemos que nos
roubem a comunidade!
Não ao mundanismo espiritual
93. O mundanismo espiritual, que se esconde por detrás de aparências de
religiosidade e até mesmo de amor à Igreja, é buscar, em vez da glória do
Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal. É aquilo que o Senhor
censurava aos fariseus: «Como vos é possível acreditar, se andais à procura da
glória uns dos outros, e não procurais a glória que vem do Deus único?» (Jo 5,
44). É uma maneira subtil de procurar «os próprios interesses, não os interesses
de Jesus Cristo» (Fl 2, 21). Reveste-se de muitas formas, de acordo com o tipo
de pessoas e situações em que penetra. Por cultivar o cuidado da aparência,
nem sempre suscita pecados de domínio público, pelo que externamente tudo
parece correcto. Mas, se invadisse a Igreja, «seria infinitamente mais
desastroso do que qualquer outro mundanismo meramente moral».
94. Este mundanismo pode alimentar-se sobretudo de duas maneiras
profundamente relacionadas. Uma delas é o fascínio do gnosticismo, uma fé
fechada no subjectivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência
ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e
iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência
da sua própria razão ou dos seus sentimentos. A outra maneira é o
neopelagianismo auto-referencial e prometeuco de quem, no fundo, só confia
nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir
determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico
próprio do passado. É uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá
lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se
analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça,
consomem-se as energias a controlar. Em ambos os casos, nem Jesus Cristo
nem os outros interessam verdadeiramente. São manifestações dum
imanentismo antropocêntrico. Não é possível imaginar que, destas formas
desvirtuadas do cristianismo, possa brotar um autêntico dinamismo
evangelizador.
95. Este obscuro mundanismo manifesta-se em muitas atitudes, aparentemente
opostas mas com a mesma pretensão de «dominar o espaço da Igreja».
Nalguns, há um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da
Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no
povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história. Assim, a vida da
Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa possessão de poucos.
Noutros, o próprio mundanismo espiritual esconde-se por detrás do fascínio de
poder mostrar conquistas sociais e políticas, ou numa vanglória ligada à gestão
de assuntos práticos, ou numa atracção pelas dinâmicas de auto-estima e de
realização autoreferencial. Também se pode traduzir em várias formas de se
apresentar a si mesmo envolvido numa densa vida social cheia de viagens,
reuniões, jantares, recepções. Ou então desdobra-se num funcionalismo
empresarial, carregado de estatísticas, planificações e avaliações, onde o
principal beneficiário não é o povo de Deus mas a Igreja como organização. Em
qualquer um dos casos, não traz o selo de Cristo encarnado, crucificado e
ressuscitado, encerra-se em grupos de elite, não sai realmente à procura dos
que andam perdidos nem das imensas multidões sedentas de Cristo. Já não há
ardor evangélico, mas o gozo espúrio duma autocomplacência egocêntrica.
96. Neste contexto, alimenta-se a vanglória de quantos se contentam com ter
algum poder e preferem ser generais de exércitos derrotados antes que simples
soldados dum batalhão que continua a lutar. Quantas vezes sonhamos planos
apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais
derrotados! Assim negamos a nossa história de Igreja, que é gloriosa por ser
história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de
constância no trabalho fadigoso, porque todo o trabalho é «suor do nosso
rosto». Em vez disso, entretemo-nos vaidosos a falar sobre «o que se deveria
fazer» – o pecado do «deveriaqueísmo» – como mestres espirituais e peritos de
pastoral que dão instruções ficando de fora. Cultivamos a nossa imaginação
sem limites e perdemos o contacto com a dolorosa realidade do nosso povo fiel.
97. Quem caiu neste mundanismo olha de cima e de longe, rejeita a profecia
dos irmãos, desqualifica quem o questiona, faz ressaltar constantemente os
erros alheios e vive obcecado pela aparência. Circunscreveu os pontos de
referência do coração ao horizonte fechado da sua imanência e dos seus
interesses e, consequentemente, não aprende com os seus pecados nem está
verdadeiramente aberto ao perdão. É uma tremenda corrupção, com aparências
de bem. Devemos evitá-lo, pondo a Igreja em movimento de saída de si mesma,
de missão centrada em Jesus Cristo, de entrega aos pobres. Deus nos livre de
uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais! Este mundanismo
asfixiante cura-se saboreando o ar puro do Espírito Santo, que nos liberta de
estarmos centrados em nós mesmos, escondidos numa aparência religiosa
vazia de Deus. Não deixemos que nos roubem o Evangelho!
Não à guerra entre nós
98. Dentro do povo de Deus e nas diferentes comunidades, quantas guerras! No
bairro, no local de trabalho, quantas guerras por invejas e ciúmes, mesmo entre
cristãos! O mundanismo espiritual leva alguns cristãos a estar em guerra com
outros cristãos que se interpõem na sua busca pelo poder, prestígio, prazer ou
segurança económica. Além disso, alguns deixam de viver uma adesão cordial
à Igreja por alimentar um espírito de contenda. Mais do que pertencer à Igreja
inteira, com a sua rica diversidade, pertencem a este ou àquele grupo que se
sente diferente ou especial.
99. O mundo está dilacerado pelas guerras e a violência, ou ferido por um
generalizado individualismo que divide os seres humanos e põe-nos uns contra
os outros visando o próprio bem-estar. Em vários países, ressurgem conflitos e
antigas divisões que se pensavam em parte superados. Aos cristãos de todas
as comunidades do mundo, quero pedir-lhes de modo especial um testemunho
de comunhão fraterna, que se torne fascinante e resplandecente. Que todos
possam admirar como vos preocupais uns pelos outros, como mutuamente vos
encorajais animais e ajudais: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus
discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35). Foi o que Jesus, com
uma intensa oração, Jesus pediu ao Pai: «Que todos sejam um só (…) em nós
[para que] o mundo creia» (Jo 17, 21). Cuidado com a tentação da inveja!
Estamos no mesmo barco e vamos para o mesmo porto! Peçamos a graça de
nos alegrarmos com os frutos alheios, que são de todos.
100. Para quantos estão feridos por antigas divisões, resulta difícil aceitar que
os exortemos ao perdão e à reconciliação, porque pensam que ignoramos a sua
dor ou pretendemos fazer-lhes perder a memória e os ideais. Mas, se virem o
testemunho de comunidades autenticamente fraternas e reconciliadas, isso é
sempre uma luz que atrai. Por isso me dói muito comprovar como nalgumas
comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, se dá espaço a
várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a desejos
de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que parecem
uma implacável caça às bruxas. Quem queremos evangelizar com estes
comportamentos?
101. Peçamos ao Senhor que nos faça compreender a lei do amor. Que bom é
termos esta lei! Como nos faz bem, apesar de tudo amar-nos uns aos outros!
Sim, apesar de tudo! A cada um de nós é dirigida a exortação de Paulo: «Não te
deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» (Rm 12, 21). E ainda:
«Não nos cansemos de fazer o bem» (Gal 6, 9). Todos nós provamos simpatias
e antipatias, e talvez neste momento estejamos chateados com alguém. Pelo
menos digamos ao Senhor: «Senhor, estou chateado com este, com aquela.
Peço-Vos por ele e por ela». Rezar pela pessoa com quem estamos irritados é
um belo passo rumo ao amor, e é um acto de evangelização. Façamo-lo hoje
mesmo. Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno!
Outros desafios eclesiais
102. A imensa maioria do povo de Deus é constituída por leigos. Ao seu serviço,
está uma minoria: os ministros ordenados. Cresceu a consciência da identidade
e da missão dos leigos na Igreja. Embora não suficiente, pode-se contar com
um numeroso laicado, dotado de um arreigado sentido de comunidade e uma
grande fidelidade ao compromisso da caridade, da catequese, da celebração da
fé. Mas, a tomada de consciência desta responsabilidade laical que nasce do
Baptismo e da Confirmação não se manifesta de igual modo em toda a parte;
nalguns casos, porque não se formaram para assumir responsabilidades
importantes, noutros por não encontrar espaço nas suas Igrejas particulares
para poderem exprimir-se e agir por causa dum excessivo clericalismo que os
mantém à margem das decisões. Apesar de se notar uma maior participação de
muitos nos ministérios laicais, este compromisso não se reflecte na penetração
dos valores cristãos no mundo social, político e económico; limita-se muitas
vezes às tarefas no seio da Igreja, sem um empenhamento real pela aplicação
do Evangelho na transformação da sociedade. A formação dos leigos e a
evangelização das categorias profissionais e intelectuais constituem um
importante desafio pastoral.
103. A Igreja reconhece a indispensável contribuição da mulher na sociedade,
com uma sensibilidade, uma intuição e certas capacidades peculiares, que
habitualmente são mais próprias das mulheres que dos homens. Por exemplo, a
especial solicitude feminina pelos outros, que se exprime de modo particular,
mas não exclusivamente, na maternidade. Vejo, com prazer, como muitas
mulheres partilham responsabilidades pastorais juntamente com os sacerdotes,
contribuem para o acompanhamento de pessoas, famílias ou grupos e prestam
novas contribuições para a reflexão teológica. Mas ainda é preciso ampliar os
espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Porque «o génio
feminino é necessário em todas as expressões da vida social; por isso deve ser
garantida a presença das mulheres também no âmbito do trabalho» e nos vários
lugares onde se tomam as decisões importantes, tanto na Igreja como nas
estruturas sociais.
104. As reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme
convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja
questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente. O
sacerdócio reservado aos homens, como sinal de Cristo Esposo que Se entrega
na Eucaristia, é uma questão que não se põe em discussão, mas pode tornar-se
particularmente controversa se se identifica demasiado a potestade sacramental
com o poder. Não se esqueça que, quando falamos da potestade sacerdotal,
«estamos na esfera da função e não na da dignidade e da santidade». O
sacerdócio ministerial é um dos meios que Jesus utiliza ao serviço do seu povo,
mas a grande dignidade vem do Baptismo, que é acessível a todos. A
configuração do sacerdote com Cristo Cabeça – isto é, como fonte principal da
graça – não comporta uma exaltação que o coloque por cima dos demais. Na
Igreja, as funções «não dão justificação à superioridade de uns sobre os
outros». Com efeito, uma mulher, Maria, é mais importante do que os Bispos.
Mesmo quando a função do sacerdócio ministerial é considerada «hierárquica»,
há que ter bem presente que «se ordena integralmente à santidade dos
membros do corpo místico de Cristo». A sua pedra de fecho e o seu fulcro não
são o poder entendido como domínio, mas a potestade de administrar o
sacramento da Eucaristia; daqui deriva a sua autoridade, que é sempre um
serviço ao povo. Aqui está um grande desafio para os Pastores e para os
teólogos, que poderiam ajudar a reconhecer melhor o que isto implica no que se
refere ao possível lugar das mulheres onde se tomam decisões importantes, nos
diferentes âmbitos da Igreja.
105. A pastoral juvenil, tal como estávamos habituados a desenvolvê-la, sofreu
o impacto das mudanças sociais. Nas estruturas ordinárias, os jovens
habitualmente não encontram respostas para as suas preocupações,
necessidades, problemas e feridas. A nós, adultos, custa-nos ouvi-los com
paciência, compreender as suas preocupações ou as suas reivindicações, e
aprender a falar-lhes na linguagem que eles entendem. Pela mesma razão, as
propostas educacionais não produzem os frutos esperados. A proliferação e o
crescimento de associações e movimentos predominantemente juvenis podem
ser interpretados como uma acção do Espírito que abre caminhos novos em
sintonia com as suas expectativas e a busca de espiritualidade profunda e dum
sentido mais concreto de pertença. Todavia é necessário tornar mais estável a
participação destas agregações no âmbito da pastoral de conjunto da Igreja.
106. Embora nem sempre seja fácil abordar os jovens, houve crescimento em
dois aspectos: a consciência de que toda a comunidade os evangeliza e educa,
e a urgência de que eles tenham um protagonismo maior. Deve-se reconhecer
que, no actual contexto de crise do compromisso e dos laços comunitários, são
muitos os jovens que se solidarizam contra os males do mundo, aderindo a
várias formas de militância e voluntariado. Alguns participam na vida da Igreja,
integram grupos de serviço e diferentes iniciativas missionárias nas suas
próprias dioceses ou noutros lugares. Como é bom que os jovens sejam
«caminheiros da fé», felizes por levarem Jesus Cristo a cada esquina, a cada
praça, a cada canto da terra!
107. Em muitos lugares, há escassez de vocações ao sacerdócio e à vida
consagrada. Frequentemente isso fica-se a dever à falta de ardor apostólico
contagioso nas comunidades, pelo que estas não entusiasmam nem fascinam.
Onde há vida, fervor, paixão de levar Cristo aos outros, surgem vocações
genuínas. Mesmo em paróquias onde os sacerdotes não são muito disponíveis
nem alegres, é a vida fraterna e fervorosa da comunidade que desperta o
desejo de se consagrar inteiramente a Deus e à evangelização, especialmente
se essa comunidade vivente reza insistentemente pelas vocações e tem a
coragem de propor aos seus jovens um caminho de especial consagração. Por
outro lado, apesar da escassez vocacional, hoje temos noção mais clara da
necessidade de melhor selecção dos candidatos ao sacerdócio. Não se podem
encher os seminários com qualquer tipo de motivações, e menos ainda se estas
estão relacionadas com insegurança afectiva, busca de formas de poder, glória
humana ou bem-estar económico.
108. Como já disse, não pretendi oferecer um diagnóstico completo, mas
convido as comunidades a completarem e a enriquecerem estas perspectivas a
partir da consciência dos desafios próprios e das comunidades vizinhas. Espero
que, ao fazê-lo, tenham em conta que, todas as vezes que intentamos ler os
sinais dos tempos na realidade actual, é conveniente ouvir os jovens e os
idosos. Tanto uns como outros são a esperança dos povos. Os idosos fornecem
a memória e a sabedoria da experiência, que convida a não repetir tontamente
os mesmos erros do passado. Os jovens chamam-nos a despertar e a aumentar
a esperança, porque trazem consigo as novas tendências da humanidade e
abrem-nos ao futuro, de modo que não fiquemos encalhados na nostalgia de
estruturas e costumes que já não são fonte de vida no mundo actual.
109. Os desafios existem para ser superados. Sejamos realistas, mas sem
perder a alegria, a audácia e a dedicação cheia de esperança. Não deixemos
que nos roubem a força missionária!
Capítulo III
O ANÚNCIO DO EVANGELHO
110. Depois de considerar alguns desafios da realidade actual, quero agora
recordar o dever que incumbe sobre nós em toda e qualquer época e lugar,
porque «não pode haver verdadeira evangelização sem o anúncio explícito de
Jesus como Senhor» e sem existir uma «primazia do anúncio de Jesus Cristo
em qualquer trabalho de evangelização». Recolhendo as preocupações dos
Bispos asiáticos, João Paulo II afirmou que, se a Igreja «deve realizar o seu
destino providencial, então uma evangelização entendida como o jubiloso,
paciente e progressivo anúncio da Morte salvífica e Ressurreição de Jesus
Cristo há-de ser a vossa prioridade absoluta». Isto é válido para todos.
1. Todo o povo de Deus anuncia o Evangelho
111. A evangelização é dever da Igreja. Este sujeito da evangelização, porém, é
mais do que uma instituição orgânica e hierárquica; é, antes de tudo, um povo
que peregrina para Deus. Trata-se certamente de um mistério que mergulha as
raízes na Trindade, mas tem a sua concretização histórica num povo peregrino
e evangelizador, que sempre transcende toda a necessária expressão
institucional. Proponho que nos detenhamos um pouco nesta forma de
compreender a Igreja, que tem o seu fundamento último na iniciativa livre e
gratuita de Deus.
Um povo para todos
112. A salvação, que Deus nos oferece, é obra da sua misericórdia. Não há
acção humana, por melhor que seja, que nos faça merecer tão grande dom. Por
pura graça, Deus atrai-nos para nos unir a Si. Envia o seu Espírito aos nossos
corações, para nos fazer seus filhos, para nos transformar e tornar capazes de
responder com a nossa vida ao seu amor. A Igreja é enviada por Jesus Cristo
como sacramento da salvação oferecida por Deus. Através da sua acção
evangelizadora, ela colabora como instrumento da graça divina, que opera
incessantemente para além de toda e qualquer possível supervisão. Bem o
exprimiu Bento XVI, ao abrir as reflexões do Sínodo: «É sempre importante
saber que a primeira palavra, a iniciativa verdadeira, a actividade verdadeira
vem de Deus e só inserindo-nos nesta iniciativa divina, só implorando esta
iniciativa divina, nos podemos tornar também – com Ele e n'Ele –
evangelizadores». O princípio da primazia da graça deve ser um farol que
ilumine constantemente as nossas reflexões sobre a evangelização.
113. Esta salvação, que Deus realiza e a Igreja jubilosamente anuncia, é para
todos, e Deus criou um caminho para Se unir a cada um dos seres humanos de
todos os tempos. Escolheu convocá-los como povo, e não como seres isolados.
Ninguém se salva sozinho, isto é, nem como indivíduo isolado, nem por suas
próprias forças. Deus atrai-nos, no respeito da complexa trama de relações
interpessoais que a vida numa comunidade humana supõe. Este povo, que
Deus escolheu para Si e convocou, é a Igreja. Jesus não diz aos Apóstolos para
formarem um grupo exclusivo, um grupo de elite. Jesus diz: «Ide, pois, fazei
discípulos de todos os povos» (Mt 28, 19). São Paulo afirma que no povo de
Deus, na Igreja, «não há judeu nem grego (...), porque todos sois um só em
Cristo Jesus» (Gal 3, 28). Eu gostaria de dizer àqueles que se sentem longe de
Deus e da Igreja, aos que têm medo ou aos indiferentes: o Senhor também te
chama para seres parte do seu povo, e fá-lo com grande respeito e amor!
114. Ser Igreja significa ser povo de Deus, de acordo com o grande projecto de
amor do Pai. Isto implica ser o fermento de Deus no meio da humanidade; quer
dizer anunciar e levar a salvação de Deus a este nosso mundo, que muitas
vezes se sente perdido, necessitado de ter respostas que encorajem, dêem
esperança e novo vigor para o caminho. A Igreja deve ser o lugar da
misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados,
perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho.
Um povo com muitos rostos
115. Este Povo de Deus encarna-se nos povos da Terra, cada um dos quais tem
a sua cultura própria. A noção de cultura é um instrumento precioso para
compreender as diversas expressões da vida cristã que existem no povo de
Deus. Trata-se do estilo de vida que uma determinada sociedade possui, da
forma peculiar que têm os seus membros de se relacionar entre si, com as
outras criaturas e com Deus. Assim entendida, a cultura abrange a totalidade da
vida dum povo. Cada povo, na sua evolução histórica, desenvolve a própria
cultura com legítima autonomia. Isso fica-se a dever ao facto de que a pessoa
humana, «por sua natureza, necessita absolutamente da vida social» e mantém
contínua referência à sociedade, na qual vive uma maneira concreta de se
relacionar com a realidade. O ser humano está sempre culturalmente situado:
«natureza e cultura encontram-se intimamente ligadas». A graça supõe a
cultura, e o dom de Deus encarna-se na cultura de quem o recebe.
116. Ao longo destes dois milénios de cristianismo, uma quantidade inumerável
de povos recebeu a graça da fé, fê-la florir na sua vida diária e transmitiu-a
segundo as próprias modalidades culturais. Quando uma comunidade acolhe o
anúncio da salvação, o Espírito Santo fecunda a sua cultura com a força
transformadora do Evangelho. E assim, como podemos ver na história da Igreja,
o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural, mas «permanecendo o
que é, na fidelidade total ao anúncio evangélico e à tradição da Igreja, o
cristianismo assumirá também o rosto das diversas culturas e dos vários povos
onde for acolhido e se radicar». Nos diferentes povos, que experimentam o dom
de Deus segundo a própria cultura, a Igreja exprime a sua genuína catolicidade
e mostra «a beleza deste rosto pluriforme». Através das manifestações cristãs
dum povo evangelizado, o Espírito Santo embeleza a Igreja, mostrando-lhe
novos aspectos da Revelação e presenteando-a com um novo rosto. Pela
inculturação, a Igreja «introduz os povos com as suas culturas na sua própria
comunidade», porque «cada cultura oferece formas e valores positivos que
podem enriquecer o modo como o Evangelho é pregado, compreendido e
vivido». Assim, «a Igreja, assumindo os valores das diversas culturas, torna-se
sponsa ornata monilibus suis, a noiva que se adorna com suas jóias (cf. Is 61,
10)».
117. Se for bem entendida, a diversidade cultural não ameaça a unidade da
Igreja. É o Espírito Santo, enviado pelo Pai e o Filho, que transforma os nossos
corações e nos torna capazes de entrar na comunhão perfeita da Santíssima
Trindade, onde tudo encontra a sua unidade. O Espírito Santo constrói a
comunhão e a harmonia do povo de Deus. Ele mesmo é a harmonia, tal como é
o vínculo de amor entre o Pai e o Filho. É Ele que suscita uma abundante e
diversificada riqueza de dons e, ao mesmo tempo, constrói uma unidade que
nunca é uniformidade, mas multiforme harmonia que atrai. A evangelização
reconhece com alegria estas múltiplas riquezas que o Espírito gera na Igreja.
Não faria justiça à lógica da encarnação pensar num cristianismo monocultural e
monocórdico. É verdade que algumas culturas estiveram intimamente ligadas à
pregação do Evangelho e ao desenvolvimento do pensamento cristão, mas a
mensagem revelada não se identifica com nenhuma delas e possui um
conteúdo transcultural. Por isso, na evangelização de novas culturas ou de
culturas que não acolheram a pregação cristã, não é indispensável impor uma
determinada forma cultural, por mais bela e antiga que seja, juntamente com a
proposta do Evangelho. A mensagem, que anunciamos, sempre apresenta
alguma roupagem cultural, mas às vezes, na Igreja, caímos na vaidosa
sacralização da própria cultura, o que pode mostrar mais fanatismo do que
autêntico ardor evangelizador.
118. Os Bispos da Oceânia pediram que a Igreja neste continente «desenvolva
uma compreensão e exposição da verdade de Cristo partindo das tradições e
culturas locais», e instaram todos os missionários «a trabalhar de harmonia com
os cristãos indígenas para garantir que a doutrina e a vida da Igreja sejam
expressas em formas legítimas e apropriadas a cada cultura». Não podemos
pretender que todos os povos dos vários continentes, ao exprimir a fé cristã,
imitem as modalidades adoptadas pelos povos europeus num determinado
momento da história, porque a fé não se pode confinar dentro dos limites de
compreensão e expressão duma cultura. É indiscutível que uma única cultura
não esgota o mistério da redenção de Cristo.
Todos somos discípulos missionários
119. Em todos os baptizados, desde o primeiro ao último, actua a força
santificadora do Espírito que impele a evangelizar. O povo de Deus é santo em
virtude desta unção, que o torna infalível «in credendo», ou seja, ao crer, não
pode enganar-se, ainda que não encontre palavras para explicar a sua fé. O
Espírito guia-o na verdade e condu-lo à salvação. Como parte do seu mistério
de amor pela humanidade, Deus dota a totalidade dos fiéis com um instinto da
fé – o sensus fidei – que os ajuda a discernir o que vem realmente de Deus. A
presença do Espírito confere aos cristãos uma certa conaturalidade com as
realidades divinas e uma sabedoria que lhes permite captá-las intuitivamente,
embora não possuam os meios adequados para expressá-las com precisão.
120. Em virtude do Baptismo recebido, cada membro do povo de Deus tornouse
discípulo missionário (cf. Mt 28, 19). Cada um dos baptizados,
independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua
fé, é um sujeito activo de evangelização, e seria inapropriado pensar num
esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto
do povo fiel seria apenas receptor das suas acções. A nova evangelização deve
implicar um novo protagonismo de cada um dos baptizados. Esta convicção
transforma-se num apelo dirigido a cada cristão para que ninguém renuncie ao
seu compromisso de evangelização, porque, se uma pessoa experimentou
verdadeiramente o amor de Deus que o salva, não precisa de muito tempo de
preparação para sair a anunciá-lo, não pode esperar que lhe dêem muitas lições
ou longas instruções. Cada cristão é missionário na medida em que se
encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus; não digamos mais que somos
«discípulos» e «missionários», mas sempre que somos «discípulos
missionários». Se não estivermos convencidos disto, olhemos para os primeiros
discípulos, que logo depois de terem conhecido o olhar de Jesus, saíram
proclamando cheios de alegria: «Encontrámos o Messias» (Jo 1, 41). A
Samaritana, logo que terminou o seu diálogo com Jesus, tornou-se missionária,
e muitos samaritanos acreditaram em Jesus «devido às palavras da mulher» (Jo
4, 39). Também São Paulo, depois do seu encontro com Jesus Cristo,
«começou imediatamente a proclamar (…) que Jesus era o Filho de Deus» (Act
9, 20). Porque esperamos nós?
121. Certamente todos somos chamados a crescer como evangelizadores.
Devemos procurar simultaneamente uma melhor formação, um aprofundamento
do nosso amor e um testemunho mais claro do Evangelho. Neste sentido, todos
devemos deixar que os outros nos evangelizem constantemente; isto não
significa que devemos renunciar à missão evangelizadora, mas encontrar o
modo de comunicar Jesus que corresponda à situação em que vivemos. Seja
como for, todos somos chamados a dar aos outros o testemunho explícito do
amor salvífico do Senhor, que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a
sua proximidade, a sua Palavra, a sua força, e dá sentido à nossa vida. O teu
coração sabe que a vida não é a mesma coisa sem Ele; pois bem, aquilo que
descobriste, o que te ajuda a viver e te dá esperança, isso é o que deves
comunicar aos outros. A nossa imperfeição não deve ser desculpa; pelo
contrário, a missão é um estímulo constante para não nos acomodarmos na
mediocridade, mas continuarmos a crescer. O testemunho de fé, que todo o
cristão é chamado a oferecer, implica dizer como São Paulo: «Não que já o
tenha alcançado ou já seja perfeito; mas corro para ver se o alcanço, (…)
lançando-me para o que vem à frente» (Fl 3, 12-13).
A força evangelizadora da piedade popular
122. Da mesma forma, podemos pensar que os diferentes povos, nos quais foi
inculturado o Evangelho, são sujeitos colectivos activos, agentes da
evangelização. Assim é, porque cada povo é o criador da sua cultura e o
protagonista da sua história. A cultura é algo de dinâmico, que um povo recria
constantemente, e cada geração transmite à seguinte um conjunto de atitudes
relativas às diversas situações existenciais, que esta nova geração deve
reelaborar face aos próprios desafios. O ser humano «é simultaneamente filho e
pai da cultura onde está inserido». Quando o Evangelho se inculturou num
povo, no seu processo de transmissão cultural também transmite a fé de
maneira sempre nova; daí a importância da evangelização entendida como
inculturação. Cada porção do povo de Deus, ao traduzir na vida o dom de Deus
segundo a sua índole própria, dá testemunho da fé recebida e enriquece-a com
novas expressões que falam por si. Pode dizer-se que «o povo se evangeliza
continuamente a si mesmo». Aqui ganha importância a piedade popular,
verdadeira expressão da actividade missionária espontânea do povo de Deus.
Trata-se de uma realidade em permanente desenvolvimento, cujo protagonista é
o Espírito Santo.
123. Na piedade popular, pode-se captar a modalidade em que a fé recebida se
encarnou numa cultura e continua a transmitir-se. Vista por vezes com
desconfiança, a piedade popular foi objecto de revalorização nas décadas
posteriores ao Concílio. Quem deu um impulso decisivo nesta direcção, foi
Paulo VI na sua Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi. Nela explica que a
piedade popular «traduz em si uma certa sede de Deus, que somente os pobres
e os simples podem experimentar» e «torna as pessoas capazes para terem
rasgos de generosidade e predispõe-nas para o sacrifício até ao heroísmo,
quando se trata de manifestar a fé». Já mais perto dos nossos dias, Bento XVI,
na América Latina, assinalou que se trata de um «precioso tesouro da Igreja
Católica» e que nela «aparece a alma dos povos latino-americanos».
124. No Documento de Aparecida, descrevem-se as riquezas que o Espírito
Santo explicita na piedade popular por sua iniciativa gratuita. Naquele amado
Continente, onde uma multidão imensa de cristãos exprime a sua fé através da
piedade popular, os Bispos chamam-na também «espiritualidade popular» ou
«mística popular». Trata-se de uma verdadeira «espiritualidade encarnada na
cultura dos simples». Não é vazia de conteúdos, mas descobre-os e exprime-os
mais pela via simbólica do que pelo uso da razão instrumental e, no acto de fé,
acentua mais o credere in Deum que o credere Deum. É «uma maneira legítima
de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser
missionários»; comporta a graça da missionariedade, do sair de si e do
peregrinar: «O caminhar juntos para os santuários e o participar em outras
manifestações da piedade popular, levando também os filhos ou convidando a
outras pessoas, é em si mesmo um gesto evangelizador». Não coarctemos nem
pretendamos controlar esta força missionária!
125. Para compreender esta necessidade, é preciso abordá-la com o olhar do
Bom Pastor, que não procura julgar mas amar. Só a partir da conaturalidade
afectiva que dá o amor é que podemos apreciar a vida teologal presente na
piedade dos povos cristãos, especialmente nos pobres. Penso na fé firme das
mães ao pé da cama do filho doente, que se agarram a um terço ainda que não
saibam elencar os artigos do Credo; ou na carga imensa de esperança contida
numa vela que se acende, numa casa humilde, para pedir ajuda a Maria, ou nos
olhares de profundo amor a Cristo crucificado. Quem ama o povo fiel de Deus,
não pode ver estas acções unicamente como uma busca natural da divindade;
são a manifestação duma vida teologal animada pela acção do Espírito Santo,
que foi derramado em nossos corações (cf. Rm 5, 5).
126. Na piedade popular, por ser fruto do Evangelho inculturado, subjaz uma
força activamente evangelizadora que não podemos subestimar: seria ignorar a
obra do Espírito Santo. Ao contrário, somos chamados a encorajá-la e fortalecêla
para aprofundar o processo de inculturação, que é uma realidade nunca
acabada. As expressões da piedade popular têm muito que nos ensinar e, para
quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção
particularmente na hora de pensar a nova evangelização.
De pessoa a pessoa
127. Hoje que a Igreja deseja viver uma profunda renovação missionária, há
uma forma de pregação que nos compete a todos como tarefa diária: é cada um
levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra, tanto aos mais íntimos
como aos desconhecidos. É a pregação informal que se pode realizar durante
uma conversa, e é também a que realiza um missionário quando visita um lar.
Ser discípulo significa ter a disposição permanente de levar aos outros o amor
de Jesus; e isto sucede espontaneamente em qualquer lugar: na rua, na praça,
no trabalho, num caminho.
128. Nesta pregação, sempre respeitosa e amável, o primeiro momento é um
diálogo pessoal, no qual a outra pessoa se exprime e partilha as suas alegrias,
as suas esperanças, as preocupações com os seus entes queridos e muitas
coisas que enchem o coração. Só depois desta conversa é que se pode
apresentar-lhe a Palavra, seja pela leitura de algum versículo ou de modo
narrativo, mas sempre recordando o anúncio fundamental: o amor pessoal de
Deus que Se fez homem, entregou-Se a Si mesmo por nós e, vivo, oferece a
sua salvação e a sua amizade. É o anúncio que se partilha com uma atitude
humilde e testemunhal de quem sempre sabe aprender, com a consciência de
que esta mensagem é tão rica e profunda que sempre nos ultrapassa. Umas
vezes exprime-se de maneira mais directa, outras através dum testemunho
pessoal, uma história, um gesto, ou outra forma que o próprio Espírito Santo
possa suscitar numa circunstância concreta. Se parecer prudente e houver
condições, é bom que este encontro fraterno e missionário conclua com uma
breve oração que se relacione com as preocupações que a pessoa manifestou.
Assim ela sentirá mais claramente que foi ouvida e interpretada, que a sua
situação foi posta nas mãos de Deus, e reconhecerá que a Palavra de Deus fala
realmente à sua própria vida.
129. Contudo não se deve pensar que o anúncio evangélico tenha de ser
transmitido sempre com determinadas fórmulas pré-estabelecidas ou com
palavras concretas que exprimam um conteúdo absolutamente invariável.
Transmite-se com formas tão diversas que seria impossível descrevê-las ou
catalogá-las, e cujo sujeito colectivo é o povo de Deus com seus gestos e sinais
inumeráveis. Por conseguinte, se o Evangelho se encarnou numa cultura, já não
se comunica apenas através do anúncio de pessoa a pessoa. Isto deve fazernos
pensar que, nos países onde o cristianismo é minoria, para além de animar
cada baptizado a anunciar o Evangelho, as Igrejas particulares hão-de promover
activamente formas, pelo menos incipientes, de inculturação. Enfim, o que se
deve procurar é que a pregação do Evangelho, expressa com categorias
próprias da cultura onde é anunciado, provoque uma nova síntese com essa
cultura. Embora estes processos sejam sempre lentos, às vezes o medo
paralisa-nos demasiado. Se deixamos que as dúvidas e os medos sufoquem
toda a ousadia, é possível que, em vez de sermos criativos, nos deixemos
simplesmente ficar cómodos sem provocar qualquer avanço e, neste caso, não
seremos participantes dos processos históricos com a nossa cooperação, mas
simplesmente espectadores duma estagnação estéril da Igreja.
Carismas ao serviço da comunhão evangelizadora
130. O Espírito Santo enriquece toda a Igreja evangelizadora também com
diferentes carismas. São dons para renovar e edificar a Igreja. Não se trata de
um património fechado, entregue a um grupo para que o guarde; mas são
presentes do Espírito integrados no corpo eclesial, atraídos para o centro que é
Cristo, donde são canalizados num impulso evangelizador. Um sinal claro da
autenticidade dum carisma é a sua eclesialidade, a sua capacidade de se
integrar harmoniosamente na vida do povo santo de Deus para o bem de todos.
Uma verdadeira novidade suscitada pelo Espírito não precisa de fazer sombra
sobre outras espiritualidades e dons para se afirmar a si mesma. Quanto mais
um carisma dirigir o seu olhar para o coração do Evangelho, tanto mais eclesial
será o seu exercício. É na comunhão, mesmo que seja fadigosa, que um
carisma se revela autêntica e misteriosamente fecundo. Se vive este desafio, a
Igreja pode ser um modelo para a paz no mundo.
131. As diferenças entre as pessoas e as comunidades por vezes são
incómodas, mas o Espírito Santo, que suscita esta diversidade, de tudo pode
tirar algo de bom e transformá-lo em dinamismo evangelizador que actua por
atracção. A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito
Santo; só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao
mesmo tempo, realizar a unidade. Ao invés, quando somos nós que
pretendemos a diversidade e nos fechamos em nossos particularismos, em
nossos exclusivismos, provocamos a divisão; e, por outro lado, quando somos
nós que queremos construir a unidade com os nossos planos humanos,
acabamos por impor a uniformidade, a homologação. Isto não ajuda a missão
da Igreja.
Cultura, pensamento e educação
132. O anúncio às culturas implica também um anúncio às culturas
profissionais, científicas e académicas. É o encontro entre a fé, a razão e as
ciências, que visa desenvolver um novo discurso sobre a credibilidade, uma
apologética original que ajude a criar as predisposições para que o Evangelho
seja escutado por todos. Quando algumas categorias da razão e das ciências
são acolhidas no anúncio da mensagem, tais categorias tornam-se instrumentos
de evangelização; é a água transformada em vinho. É aquilo que, uma vez
assumido, não só é redimido, mas torna-se instrumento do Espírito para iluminar
e renovar o mundo.
133. Uma vez que não basta a preocupação do evangelizador por chegar a
cada pessoa, mas o Evangelho também se anuncia às culturas no seu conjunto,
a teologia – e não só a teologia pastoral – em diálogo com outras ciências e
experiências humanas tem grande importância para pensar como fazer chegar a
proposta do Evangelho à variedade dos contextos culturais e dos destinatários.
A Igreja, comprometida na evangelização, aprecia e encoraja o carisma dos
teólogos e o seu esforço na investigação teológica, que promove o diálogo com
o mundo da cultura e da ciência. Faço apelo aos teólogos para que cumpram
este serviço como parte da missão salvífica da Igreja. Mas, para isso, é
necessário que tenham a peito a finalidade evangelizadora da Igreja e da
própria teologia, e não se contentem com uma teologia de gabinete.
134. As universidades são um âmbito privilegiado para pensar e desenvolver
este compromisso de evangelização de modo interdisciplinar e inclusivo. As
escolas católicas, que sempre procuram conjugar a tarefa educacional com o
anúncio explícito do Evangelho, constituem uma contribuição muito válida para
a evangelização da cultura, mesmo em países e cidades onde uma situação
adversa nos incentiva a usar a nossa criatividade para se encontrar os
caminhos adequados.
2. A homilia
135. Consideremos agora a pregação dentro da Liturgia, que requer uma séria
avaliação por parte dos Pastores. Deter-me-ei particularmente, e até com certa
meticulosidade, na homilia e sua preparação, porque são muitas as
reclamações relacionadas com este ministério importante, e não podemos
fechar os ouvidos. A homilia é o ponto de comparação para avaliar a
proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo. De
facto, sabemos que os fiéis lhe dão muita importância; e, muitas vezes, tanto
eles como os próprios ministros ordenados sofrem: uns a ouvir e os outros a
pregar. É triste que assim seja. A homilia pode ser, realmente, uma experiência
intensa e feliz do Espírito, um consolador encontro com a Palavra, uma fonte
constante de renovação e crescimento.
136. Renovemos a nossa confiança na pregação, que se funda na convicção de
que é Deus que deseja alcançar os outros através do pregador e de que Ele
mostra o seu poder através da palavra humana. São Paulo fala vigorosamente
sobre a necessidade de pregar, porque o Senhor quis chegar aos outros por
meio também da nossa palavra (cf. Rm 10, 14-17). Com a palavra, Nosso
Senhor conquistou o coração da gente. De todas as partes, vinham para O ouvir
(cf. Mc 1, 45). Ficavam maravilhados, «bebendo» os seus ensinamentos (cf. Mc
6, 2). Sentiam que lhes falava como quem tem autoridade (cf. Mc 1, 27). E os
Apóstolos, que Jesus estabelecera «para estarem com Ele e para os enviar a
pregar» (Mc 3, 14), atraíram para o seio da Igreja todos os povos com a palavra
(cf. Mc 16, 15.20).
O contexto litúrgico
137. Agora é oportuno recordar que «a proclamação litúrgica da Palavra de
Deus, principalmente no contexto da assembleia eucarística, não é tanto um
momento de meditação e de catequese, como sobretudo o diálogo de Deus com
o seu povo, no qual se proclamam as maravilhas da salvação e se propõem
continuamente as exigências da Aliança». Reveste-se de um valor especial a
homilia, derivado do seu contexto eucarístico, que supera toda a catequese por
ser o momento mais alto do diálogo entre Deus e o seu povo, antes da
comunhão sacramental. A homilia é um retomar este diálogo que já está
estabelecido entre o Senhor e o seu povo. Aquele que prega deve conhecer o
coração da sua comunidade para identificar onde está vivo e ardente o desejo
de Deus e também onde é que este diálogo de amor foi sufocado ou não pôde
dar fruto.
138. A homilia não pode ser um espectáculo de divertimento, não corresponde à
lógica dos recursos mediáticos, mas deve dar fervor e significado à celebração.
É um género peculiar, já que se trata de uma pregação no quadro duma
celebração litúrgica; por conseguinte, deve ser breve e evitar que se pareça com
uma conferência ou uma lição. O pregador pode até ser capaz de manter vivo o
interesse das pessoas por uma hora, mas assim a sua palavra torna-se mais
importante que a celebração da fé. Se a homilia se prolonga demasiado, lesa
duas características da celebração litúrgica: a harmonia entre as suas partes e o
seu ritmo. Quando a pregação se realiza no contexto da Liturgia, incorpora-se
como parte da oferenda que se entrega ao Pai e como mediação da graça que
Cristo derrama na celebração. Este mesmo contexto exige que a pregação
oriente a assembleia, e também o pregador, para uma comunhão com Cristo na
Eucaristia, que transforme a vida. Isto requer que a palavra do pregador não
ocupe um lugar excessivo, para que o Senhor brilhe mais que o ministro.
A conversa da mãe
139. Dissemos que o povo de Deus, pela acção constante do Espírito nele, se
evangeliza continuamente a si mesmo. Que implicações tem esta convicção
para o pregador? Lembra-nos que a Igreja é mãe e prega ao povo como uma
mãe fala ao seu filho, sabendo que o filho tem confiança de que tudo o que se
lhe ensina é para seu bem, porque se sente amado. Além disso, a boa mãe
sabe reconhecer tudo o que Deus semeou no seu filho, escuta as suas
preocupações e aprende com ele. O espírito de amor que reina numa família
guia tanto a mãe como o filho nos seus diálogos, nos quais se ensina e
aprende, se corrige e valoriza o que é bom; assim deve acontecer também na
homilia. O Espírito que inspirou os Evangelhos e actua no povo de Deus, inspira
também como se deve escutar a fé do povo e como se deve pregar em cada
Eucaristia. Portanto a pregação cristã encontra, no coração da cultura do povo,
um manancial de água viva tanto para saber o que se deve dizer como para
encontrar o modo mais apropriado para o dizer. Assim como todos gostamos
que nos falem na nossa língua materna, assim também, na fé, gostamos que
nos falem em termos da «cultura materna», em termos do idioma materno (cf. 2
Mac 7, 21.27), e o coração dispõe-se a ouvir melhor. Esta linguagem é uma
tonalidade que transmite coragem, inspiração, força, impulso.
140. Este âmbito materno-eclesial, onde se desenrola o diálogo do Senhor com
o seu povo, deve ser encarecido e cultivado através da proximidade cordial do
pregador, do tom caloroso da sua voz, da mansidão do estilo das suas frases,
da alegria dos seus gestos. Mesmo que às vezes a homilia seja um pouco
maçante, se houver este espírito materno-eclesial, será sempre fecunda, tal
como os conselhos maçantes duma mãe, com o passar do tempo, dão fruto no
coração dos filhos.
141. Ficamos admirados com os recursos empregues pelo Senhor para dialogar
com o seu povo, revelar o seu mistério a todos, cativar a gente comum com
ensinamentos tão elevados e exigentes. Creio que o segredo de Jesus esteja
escondido naquele seu olhar o povo mais além das suas fraquezas e quedas:
«Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o
Reino» (Lc 12, 32); Jesus prega com este espírito. Transbordando de alegria no
Espírito, bendiz o Pai por Lhe atrair os pequeninos: «Bendigo-Te, ó Pai, Senhor
do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos
inteligentes e as revelaste aos pequeninos» (Lc 10, 21). O Senhor compraz-Se
verdadeiramente em dialogar com o seu povo, e compete ao pregador fazer
sentir este gosto do Senhor ao seu povo.
Palavras que abrasam os corações
142. Um diálogo é muito mais do que a comunicação duma verdade. Realiza-se
pelo prazer de falar e pelo bem concreto que se comunica através das palavras
entre aqueles que se amam. É um bem que não consiste em coisas, mas nas
próprias pessoas que mutuamente se dão no diálogo. A pregação puramente
moralista ou doutrinadora e também a que se transforma numa lição de exegese
reduzem esta comunicação entre os corações que se verifica na homilia e que
deve ter um carácter quase sacramental: «A fé surge da pregação, e a pregação
surge pela palavra de Cristo» (Rm 10, 17). Na homilia, a verdade anda de mãos
dadas com a beleza e o bem. Não se trata de verdades abstractas ou de
silogismos frios, porque se comunica também a beleza das imagens que o
Senhor utilizava para incentivar a prática do bem. A memória do povo fiel, como
a de Maria, deve ficar transbordante das maravilhas de Deus. O seu coração,
esperançado na prática alegre e possível do amor que lhe foi anunciado, sente
que toda a palavra na Escritura, antes de ser exigência, é dom.
143. O desafio duma pregação inculturada consiste em transmitir a síntese da
mensagem evangélica, e não ideias ou valores soltos. Onde está a tua síntese,
ali está o teu coração. A diferença entre fazer luz com sínteses e o fazê-lo com
ideias soltas é a mesma que há entre o ardor do coração e o tédio. O pregador
tem a belíssima e difícil missão de unir os corações que se amam: o do Senhor
e os do seu povo. O diálogo entre Deus e o seu povo reforça ainda mais a
aliança entre ambos e estreita o vínculo da caridade. Durante o tempo da
homilia, os corações dos crentes fazem silêncio e deixam-No falar a Ele. O
Senhor e o seu povo falam-se de mil e uma maneiras directamente, sem
intermediários, mas, na homilia, querem que alguém sirva de instrumento e
exprima os sentimentos, de modo que, depois, cada um possa escolher como
continuar a sua conversa. A palavra é, essencialmente, mediadora e necessita
não só dos dois dialogantes mas também de um pregador que a represente
como tal, convencido de que «não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo
Jesus, o Senhor, e nos consideramos vossos servos, por amor de Jesus» (2 Cor
4, 5).
144. Falar com o coração implica mantê-lo não só ardente, mas também
iluminado pela integridade da Revelação e pelo caminho que essa Palavra
percorreu no coração da Igreja e do nosso povo fiel ao longo da sua história. A
identidade cristã, que é aquele abraço baptismal que o Pai nos deu em
pequeninos, faz-nos anelar, como filhos pródigos – e predilectos em Maria –,
pelo outro abraço, o do Pai misericordioso que nos espera na glória. Fazer com
que o nosso povo se sinta, de certo modo, no meio destes dois abraços é a
tarefa difícil, mas bela, de quem prega o Evangelho.
3. A preparação da pregação
145. A preparação da pregação é uma tarefa tão importante que convém
dedicar-lhe um tempo longo de estudo, oração, reflexão e criatividade pastoral.
Com muita amizade, quero deter-me a propor um itinerário de preparação da
homilia. Trata-se de indicações que, para alguns, poderão parecer óbvias, mas
considero oportuno sugeri-las para recordar a necessidade de dedicar um
tempo privilegiado a este precioso ministério. Alguns párocos sustentam
frequentemente que isto não é possível por causa de tantas incumbências que
devem desempenhar; todavia atrevo-me a pedir que todas as semanas se
dedique a esta tarefa um tempo pessoal e comunitário suficientemente longo,
mesmo que se tenha de dar menos tempo a outras tarefas também importantes.
A confiança no Espírito Santo que actua na pregação não é meramente passiva,
mas activa e criativa. Implica oferecer-se como instrumento (cf. Rm 12, 1), com
todas as próprias capacidades, para que possam ser utilizadas por Deus. Um
pregador que não se prepara não é «espiritual»: é desonesto e irresponsável
quanto aos dons que recebeu.
O culto da verdade
146. O primeiro passo, depois de invocar o Espírito Santo, é prestar toda a
atenção ao texto bíblico, que deve ser o fundamento da pregação. Quando
alguém se detém procurando compreender qual é a mensagem dum texto,
exerce o «culto da verdade». É a humildade do coração que reconhece que a
Palavra sempre nos transcende, que somos, «não os árbitros nem os
proprietários, mas os depositários, os arautos e os servidores». Esta atitude de
humilde e deslumbrada veneração da Palavra exprime-se detendo-se a estudála
com o máximo cuidado e com um santo temor de a manipular. Para se poder
interpretar um texto bíblico, faz falta paciência, pôr de parte toda a ansiedade e
atribuir-lhe tempo, interesse e dedicação gratuita. Há que pôr de lado qualquer
preocupação que nos inquiete, para entrar noutro âmbito de serena atenção.
Não vale a pena dedicar-se a ler um texto bíblico, se aquilo que se quer obter
são resultados rápidos, fáceis ou imediatos. Por isso, a preparação da pregação
requer amor. Uma pessoa só dedica um tempo gratuito e sem pressa às coisas
ou às pessoas que ama; e aqui trata-se de amar a Deus, que quis falar. A partir
deste amor, uma pessoa pode deter-se todo o tempo que for necessário, com a
atitude dum discípulo: «Fala, Senhor; o teu servo escuta» (1 Sam 3, 9).
147. Em primeiro lugar, convém estarmos seguros de compreender
adequadamente o significado das palavras que lemos. Quero insistir em algo
que parece evidente, mas que nem sempre é tido em conta: o texto bíblico, que
estudamos, tem dois ou três mil anos, a sua linguagem é muito diferente da que
usamos agora. Por mais que nos pareça termos entendido as palavras, que
estão traduzidas na nossa língua, isso não significa que compreendemos
correctamente tudo o que o escritor sagrado queria exprimir. São conhecidos os
vários recursos que proporciona a análise literária: prestar atenção às palavras
que se repetem ou evidenciam, reconhecer a estrutura e o dinamismo próprio
dum texto, considerar o lugar que ocupam os personagens, etc. Mas o objectivo
não é o de compreender todos os pequenos detalhes dum texto; o mais
importante é descobrir qual é a mensagem principal, a mensagem que confere
estrutura e unidade ao texto. Se o pregador não faz este esforço, é possível que
também a sua pregação não tenha unidade nem ordem; o seu discurso será
apenas uma súmula de várias ideias desarticuladas que não conseguirão
mobilizar os outros. A mensagem central é aquela que o autor quis
primariamente transmitir, o que implica identificar não só uma ideia mas também
o efeito que esse autor quis produzir. Se um texto foi escrito para consolar, não
deveria ser utilizado para corrigir erros; se foi escrito para exortar, não deveria
ser utilizado para instruir; se foi escrito para ensinar algo sobre Deus, não
deveria ser utilizado para explicar várias opiniões teológicas; se foi escrito para
levar ao louvor ou ao serviço missionário, não o utilizemos para informar sobre
as últimas notícias.
148. É verdade que, para se entender adequadamente o sentido da mensagem
central dum texto, é preciso colocá-lo em ligação com o ensinamento da Bíblia
inteira, transmitida pela Igreja. Este é um princípio importante da interpretação
bíblica, que tem em conta que o Espírito Santo não inspirou só uma parte, mas
a Bíblia inteira, e que, nalgumas questões, o povo cresceu na sua compreensão
da vontade de Deus a partir da experiência vivida. Assim se evitam
interpretações equivocadas ou parciais, que contradizem outros ensinamentos
da mesma Escritura. Mas isto não significa enfraquecer a acentuação própria e
específica do texto que se deve pregar. Um dos defeitos duma pregação
enfadonha e ineficaz é precisamente não poder transmitir a força própria do
texto que foi proclamado.
A personalização da Palavra
149. O pregador «deve ser o primeiro a desenvolver uma grande familiaridade
pessoal com a Palavra de Deus: não lhe basta conhecer o aspecto linguístico ou
exegético, sem dúvida necessário; precisa de se abeirar da Palavra com o
coração dócil e orante, a fim de que ela penetre a fundo nos seus pensamentos
e sentimentos e gere nele uma nova mentalidade». Faz-nos bem renovar, cada
dia, cada domingo, o nosso ardor na preparação da homilia, e verificar se, em
nós mesmos, cresce o amor pela Palavra que pregamos. É bom não esquecer
que, «particularmente, a maior ou menor santidade do ministro influi sobre o
anúncio da Palavra». Como diz São Paulo, «falamos, não para agradar aos
homens, mas a Deus que põe à prova os nossos corações» (1 Ts 2, 4). Se está
vivo este desejo de, primeiro, ouvirmos nós a Palavra que temos de pregar, esta
transmitir-se-á duma maneira ou doutra ao povo fiel de Deus: «A boca fala da
abundância do coração» (Mt 12, 34). As leituras do domingo ressoarão com
todo o seu esplendor no coração do povo, se primeiro ressoarem assim no
coração do Pastor.
150. Jesus irritava-Se com pretensiosos mestres, muito exigentes com os
outros, que ensinavam a Palavra de Deus mas não se deixavam iluminar por
ela: «Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos
outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar» (Mt 23, 4). E o
Apóstolo São Tiago exortava: «Meus irmãos, não haja muitos entre vós que
pretendam ser mestres, sabendo que nós teremos um julgamento mais severo»
(3, 1). Quem quiser pregar, deve primeiro estar disposto a deixar-se tocar pela
Palavra e fazê-la carne na sua vida concreta. Assim, a pregação consistirá na
actividade tão intensa e fecunda que é «comunicar aos outros o que foi
contemplado». Por tudo isto, antes de preparar concretamente o que vai dizer
na pregação, o pregador tem que aceitar ser primeiro trespassado por essa
Palavra que há-de trespassar os outros, porque é uma Palavra viva e eficaz,
que, como uma espada, «penetra até à divisão da alma e do corpo, das
articulações e das medulas, e discerne os sentimentos e intenções do coração»
(Heb 4, 12). Isto tem um valor pastoral. Mesmo nesta época, a gente prefere
escutar as testemunhas: «Tem sede de autenticidade (...), reclama
evangelizadores que lhe falem de um Deus que eles conheçam e lhes seja
familiar como se eles vissem o invisível».
151. Não nos é pedido que sejamos imaculados, mas que não cessamos de
melhorar, vivamos o desejo profundo de progredir no caminho do Evangelho, e
não deixemos cair os braços. Indispensável é que o pregador esteja seguro de
que Deus o ama, de que Jesus Cristo o salvou, de que o seu amor tem sempre
a última palavra. À vista de tanta beleza, sentirá muitas vezes que a sua vida
não lhe dá plenamente glória e desejará sinceramente corresponder melhor a
um amor tão grande. Todavia, se não se detém com sincera abertura a escutar
esta Palavra, se não deixa que a mesma toque a sua vida, que o interpele,
exorte, mobilize, se não dedica tempo para rezar com esta Palavra, então na
realidade será um falso profeta, um embusteiro ou um charlatão vazio. Em todo
o caso, desde que reconheça a sua pobreza e deseje comprometer-se mais,
sempre poderá dar Jesus Cristo, dizendo como Pedro: «Não tenho ouro nem
prata, mas o que tenho, isto te dou» (Act 3, 6). O Senhor quer servir-Se de nós
como seres vivos, livres e criativos, que se deixam penetrar pela sua Palavra
antes de a transmitir; a sua mensagem deve passar realmente através do
pregador, e não só pela sua razão, mas tomando posse de todo o seu ser. O
Espírito Santo, que inspirou a Palavra, é quem «hoje ainda, como nos inícios da
Igreja, age em cada um dos evangelizadores que se deixa possuir e conduzir
por Ele, e põe na sua boca as palavras que ele sozinho não poderia encontrar».
A leitura espiritual
152. Há uma modalidade concreta para escutarmos aquilo que o Senhor nos
quer dizer na sua Palavra e nos deixarmos transformar pelo Espírito:
designamo-la por «lectio divina». Consiste na leitura da Palavra de Deus num
tempo de oração, para lhe permitir que nos ilumine e renove. Esta leitura orante
da Bíblia não está separada do estudo que o pregador realiza para individuar a
mensagem central do texto; antes pelo contrário, é dela que deve partir para
procurar descobrir aquilo que essa mesma mensagem tem a dizer à sua própria
vida. A leitura espiritual dum texto deve partir do seu sentido literal. Caso
contrário, uma pessoa facilmente fará o texto dizer o que lhe convém, o que
serve para confirmar as suas próprias decisões, o que se adapta aos seus
próprios esquemas mentais. E isto seria, em última análise, usar o sagrado para
proveito próprio e passar esta confusão para o povo de Deus. Nunca devemos
esquecer-nos de que, por vezes, «também Satanás se disfarça em anjo de luz»
(2 Cor 11, 14).
153. Na presença de Deus, numa leitura tranquila do texto, é bom perguntar-se,
por exemplo: «Senhor, a mim que me diz este texto? Com esta mensagem, que
quereis mudar na minha vida? Que é que me dá fastídio neste texto? Porque é
que isto não me interessa?»; ou então: «De que gosto? Em que me estimula
esta Palavra? Que me atrai? E porque me atrai?». Quando se procura ouvir o
Senhor, é normal ter tentações. Uma delas é simplesmente sentir-se chateado e
acabrunhado e dar tudo por encerrado; outra tentação muito comum é começar
a pensar naquilo que o texto diz aos outros, para evitar de o aplicar à própria
vida. Acontece também começar a procurar desculpas, que nos permitam diluir
a mensagem específica do texto. Outras vezes pensamos que Deus nos exige
uma decisão demasiado grande, que ainda não estamos em condições de
tomar. Isto leva muitas pessoas a perderem a alegria do encontro com a
Palavra, mas isso significaria esquecer que ninguém é mais paciente do que
Deus Pai, ninguém compreende e sabe esperar como Ele. Deus convida
sempre a dar um passo mais, mas não exige uma resposta completa, se ainda
não percorremos o caminho que a torna possível. Apenas quer que olhemos
com sinceridade a nossa vida e a apresentemos sem fingimento diante dos seus
olhos, que estejamos dispostos a continuar a crescer, e peçamos a Ele o que
ainda não podemos conseguir.
À escuta do povo
154. O pregador deve também pôr-se à escuta do povo, para descobrir aquilo
que os fiéis precisam de ouvir. Um pregador é um contemplativo da Palavra e
também um contemplativo do povo. Desta forma, descobre «as aspirações, as
riquezas e as limitações, as maneiras de orar, de amar, de encarar a vida e o
mundo, que caracterizam este ou aquele aglomerado humano», prestando
atenção «ao povo concreto com os seus sinais e símbolos e respondendo aos
problemas que apresenta». Trata-se de relacionar a mensagem do texto bíblico
com uma situação humana, com algo que as pessoas vivem, com uma
experiência que precisa da luz da Palavra. Esta preocupação não é ditada por
uma atitude oportunista ou diplomática, mas é profundamente religiosa e
pastoral. No fundo, é uma «sensibilidade espiritual para saber ler nos
acontecimentos a mensagem de Deus», e isto é muito mais do que encontrar
algo interessante para dizer. Procura-se descobrir «o que o Senhor tem a dizer
nessas circunstâncias». Então a preparação da pregação transforma-se num
exercício de discernimento evangélico, no qual se procura reconhecer – à luz do
Espírito – «um “apelo” que Deus faz ressoar na própria situação histórica:
também nele e através dele, Deus chama o crente».
155. Nesta busca, é possível recorrer apenas a alguma experiência humana
frequente, como, por exemplo, a alegria dum reencontro, as desilusões, o medo
da solidão, a compaixão pela dor alheia, a incerteza perante o futuro, a
preocupação com um ser querido, etc.; mas faz falta intensificar a sensibilidade
para se reconhecer o que isso realmente tem a ver com a vida das pessoas.
Recordemos que nunca se deve responder a perguntas que ninguém se põe,
nem convém fazer a crónica da actualidade para despertar interesse; para isso,
já existem os programas televisivos. Em todo o caso, é possível partir de algum
facto para que a Palavra possa repercutir fortemente no seu apelo à conversão,
à adoração, a atitudes concretas de fraternidade e serviço, etc., porque
acontece, às vezes, que algumas pessoas gostam de ouvir comentários sobre a
realidade na pregação, mas nem por isso se deixam interpelar pessoalmente.
Recursos pedagógicos
156. Alguns acreditam que podem ser bons pregadores por saber o que devem
dizer, mas descuidam o como, a forma concreta de desenvolver uma pregação.
Zangam-se quando os outros não os ouvem ou não os apreciam, mas talvez
não se tenham empenhado por encontrar a forma adequada de apresentar a
mensagem. Lembremo-nos de que «a evidente importância do conteúdo da
evangelização não deve esconder a importância dos métodos e dos meios da
mesma evangelização». A preocupação com a forma de pregar também é uma
atitude profundamente espiritual. É responder ao amor de Deus, entregando-nos
com todas as nossas capacidades e criatividade à missão que Ele nos confia;
mas também é um exímio exercício de amor ao próximo, porque não queremos
oferecer aos outros algo de má qualidade. Na Bíblia, por exemplo, aparece a
recomendação para se preparar a pregação de modo a garantir uma apropriada
extensão: «Sê conciso no teu falar: muitas coisas em poucas palavras» (Sir 32,
8).
157. Apenas, para exemplificar, recordemos alguns recursos práticos que
podem enriquecer uma pregação e torná-la mais atraente. Um dos esforços
mais necessários é aprender a usar imagens na pregação, isto é, a falar por
imagens. Às vezes usam-se exemplos para tornar mais compreensível algo que
se quer explicar, mas estes exemplos frequentemente dirigem-se apenas ao
entendimento, enquanto as imagens ajudam a apreciar e acolher a mensagem
que se quer transmitir. Uma imagem fascinante faz com que se sinta a
mensagem como algo familiar, próximo, possível, relacionado com a própria
vida. Uma imagem apropriada pode levar a saborear a mensagem que se quer
transmitir, desperta um desejo e motiva a vontade na direcção do Evangelho.
Uma boa homilia, como me dizia um antigo professor, deve conter «uma ideia,
um sentimento, uma imagem».
158. Já dizia Paulo VI que os fiéis «esperam muito desta pregação e dela
poderão tirar fruto, contanto que ela seja simples, clara, directa, adaptada». A
simplicidade tem a ver com a linguagem utilizada. Deve ser linguagem que os
destinatários compreendam, para não correr o risco de falar ao vento. Acontece
frequentemente que os pregadores usam palavras que aprenderam nos seus
estudos e em certos ambientes, mas que não fazem parte da linguagem comum
das pessoas que os ouvem. Há palavras próprias da teologia ou da catequese,
cujo significado não é compreensível para a maioria dos cristãos. O maior risco
dum pregador é habituar-se à sua própria linguagem e pensar que todos os
outros a usam e compreendem espontaneamente. Se se quer adaptar à
linguagem dos outros, para poder chegar até eles com a Palavra, deve-se
escutar muito, é preciso partilhar a vida das pessoas e prestar-lhes benévola
atenção. A simplicidade e a clareza são duas coisas diferentes. A linguagem
pode ser muito simples, mas pouco clara a pregação. Pode-se tornar
incompreensível pela desordem, pela sua falta de lógica, ou porque trata vários
temas ao mesmo tempo. Por isso, outro cuidado necessário é procurar que a
pregação tenha unidade temática, uma ordem clara e ligação entre as frases, de
modo que as pessoas possam facilmente seguir o pregador e captar a lógica do
que lhes diz.
159. Outra característica é a linguagem positiva. Não diz tanto o que não se
deve fazer, como sobretudo propõe o que podemos fazer melhor. E, se aponta
algo negativo, sempre procura mostrar também um valor positivo que atraia,
para não se ficar pela queixa, o lamento, a crítica ou o remorso. Além disso,
uma pregação positiva oferece sempre esperança, orienta para o futuro, não
nos deixa prisioneiros da negatividade. Como é bom que sacerdotes, diáconos e
leigos se reúnam periodicamente para encontrarem, juntos, os recursos que
tornem mais atraente a pregação!
4. Uma evangelização para o aprofundamento do querigma
160. O mandato missionário do Senhor inclui o apelo ao crescimento da fé,
quando diz: «ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt 28,
20). Daqui se vê claramente que o primeiro anúncio deve desencadear também
um caminho de formação e de amadurecimento. A evangelização procura
também o crescimento, o que implica tomar muito a sério em cada pessoa o
projecto que Deus tem para ela. Cada ser humano precisa sempre mais de
Cristo, e a evangelização não deveria deixar que alguém se contente com
pouco, mas possa dizer com plena verdade: «Já não sou eu que vivo, mas é
Cristo que vive em mim» (Gal 2, 20).
161. Não seria correcto que este apelo ao crescimento fosse interpretado,
exclusiva ou prioritariamente, como formação doutrinal. Trata-se de «cumprir»
aquilo que o Senhor nos indicou como resposta ao seu amor, sobressaindo,
junto com todas as virtudes, aquele mandamento novo que é o primeiro, o
maior, o que melhor nos identifica como discípulos: «É este o meu mandamento:
que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 15, 12). É evidente que,
quando os autores do Novo Testamento querem reduzir a mensagem moral
cristã a uma última síntese, ao mais essencial, apresentam-nos a exigência
irrenunciável do amor ao próximo: «Quem ama o próximo cumpre plenamente a
lei. (…) É no amor que está o pleno cumprimento da lei» (Rm 13, 8.10). De igual
modo, São Paulo, para quem o mandamento do amor não só resume a lei mas
constitui o centro e a razão de ser da mesma: «Toda a lei se cumpre
plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo» (Gal 5,
14). E, às suas comunidades, apresenta a vida cristã como um caminho de
crescimento no amor: «O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade
uns para com os outros e para com todos» (1 Ts 3, 12). Também São Tiago
exorta os cristãos a cumprir «a lei do Reino, de acordo com a Escritura: Amarás
o teu próximo como a ti mesmo» (2, 8), acabando por não citar nenhum
preceito.
162. Entretanto, este caminho de resposta e crescimento aparece sempre
precedido pelo dom, porque o antecede aquele outro pedido do Senhor:
«baptizando-os em nome...» (Mt 28, 19). A adopção como filhos que o Pai
oferece gratuitamente e a iniciativa do dom da sua graça (cf. Ef 2, 8-9; 1 Cor 4,
7) são a condição que torna possível esta santificação constante, que agrada a
Deus e Lhe dá glória. É deixar-se transformar em Cristo, vivendo
progressivamente «de acordo com o Espírito» (Rm 8, 5).
Uma catequese querigmática e mistagógica
163. A educação e a catequese estão ao serviço deste crescimento. Já temos à
disposição vários textos do Magistério e subsídios sobre a catequese,
preparados pela Santa Sé e por diversos episcopados. Lembro a Exortação
Apostólica Catechesi tradendae (1979), o Directório Geral para a Catequese
(1997) e outros documentos cujo conteúdo, sempre actual, não é necessário
repetir aqui. Queria deter-me apenas nalgumas considerações que me parece
oportuno evidenciar.
164. Voltámos a descobrir que também na catequese tem um papel fundamental
o primeiro anúncio ou querigma, que deve ocupar o centro da actividade
evangelizadora e de toda a tentativa de renovação eclesial. O querigma é
trinitário. É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer
em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a
misericórdia infinita do Pai. Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o
primeiro anúncio: «Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora
vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar». Ao designar-se
como «primeiro» este anúncio, não significa que o mesmo se situa no início e
que, em seguida, se esquece ou substitui por outros conteúdos que o superam;
é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que
sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se
tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese, em todas
as suas etapas e momentos. Por isso, também «o sacerdote, como a Igreja,
deve crescer na consciência da sua permanente necessidade de ser
evangelizado».
165. Não se deve pensar que, na catequese, o querigma é deixado de lado em
favor duma formação supostamente mais «sólida». Nada há de mais sólido,
mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio.
Toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se
vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne, que nunca deixa de iluminar a
tarefa catequética, e permite compreender adequadamente o sentido de
qualquer tema que se desenvolve na catequese. É o anúncio que dá resposta
ao anseio de infinito que existe em todo o coração humano. A centralidade do
querigma requer certas características do anúncio que hoje são necessárias em
toda a parte: que exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação
moral e religiosa, que não imponha a verdade mas faça apelo à liberdade, que
seja pautado pela alegria, o estímulo, a vitalidade e uma integralidade
harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais
filosóficas que evangélicas. Isto exige do evangelizador certas atitudes que
ajudam a acolher melhor o anúncio: proximidade, abertura ao diálogo,
paciência, acolhimento cordial que não condena.
166. Outra característica da catequese, que se desenvolveu nas últimas
décadas, é a iniciação mistagógica, que significa essencialmente duas coisas: a
necessária progressividade da experiência formativa na qual intervém toda a
comunidade e uma renovada valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã.
Muitos manuais e planificações ainda não se deixaram interpelar pela
necessidade duma renovação mistagógica, que poderia assumir formas muito
diferentes de acordo com o discernimento de cada comunidade educativa. O
encontro catequético é um anúncio da Palavra e está centrado nela, mas
precisa sempre duma ambientação adequada e duma motivação atraente, do
uso de símbolos eloquentes, da sua inserção num amplo processo de
crescimento e da integração de todas as dimensões da pessoa num caminho
comunitário de escuta e resposta.
167. É bom que toda a catequese preste uma especial atenção à «via da beleza
(via pulchritudinis)». Anunciar Cristo significa mostrar que crer n’Ele e segui-Lo
não é algo apenas verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de cumular a
vida dum novo esplendor e duma alegria profunda, mesmo no meio das
provações. Nesta perspectiva, todas as expressões de verdadeira beleza
podem ser reconhecidas como uma senda que ajuda a encontrar-se com o
Senhor Jesus. Não se trata de fomentar um relativismo estético, que pode
obscurecer o vínculo indivisível entre verdade, bondade e beleza, mas de
recuperar a estima da beleza para poder chegar ao coração do homem e fazer
resplandecer nele a verdade e a bondade do Ressuscitado. Se nós, como diz
Santo Agostinho, não amamos senão o que é belo, o Filho feito homem,
revelação da beleza infinita, é sumamente amável e atrai-nos para Si com laços
de amor. Por isso, torna-se necessário que a formação na via pulchritudinis
esteja inserida na transmissão da fé. É desejável que cada Igreja particular
incentive o uso das artes na sua obra evangelizadora, em continuidade com a
riqueza do passado, mas também na vastidão das suas múltiplas expressões
actuais, a fim de transmitir a fé numa nova «linguagem parabólica». É preciso
ter a coragem de encontrar os novos sinais, os novos símbolos, uma nova carne
para a transmissão da Palavra, as diversas formas de beleza que se
manifestam em diferentes âmbitos culturais, incluindo aquelas modalidades não
convencionais de beleza que podem ser pouco significativas para os
evangelizadores, mas tornaram-se particularmente atraentes para os outros.
168. Relativamente à proposta moral da catequese, que convida a crescer na
fidelidade ao estilo de vida do Evangelho, é oportuno indicar sempre o bem
desejável, a proposta de vida, de maturidade, de realização, de fecundidade,
sob cuja luz se pode entender a nossa denúncia dos males que a podem
obscurecer. Mais do que como peritos em diagnósticos apocalípticos ou juízes
sombrios que se comprazem em detectar qualquer perigo ou desvio, é bom que
nos possam ver como mensageiros alegres de propostas altas, guardiões do
bem e da beleza que resplandecem numa vida fiel ao Evangelho.
O acompanhamento pessoal dos processos de crescimento
169. Numa civilização paradoxalmente ferida pelo anonimato e,
simultaneamente, obcecada com os detalhes da vida alheia, descaradamente
doente de morbosa curiosidade, a Igreja tem necessidade de um olhar solidário
para contemplar, comover-se e parar diante do outro, tantas vezes quantas
forem necessárias. Neste mundo, os ministros ordenados e os outros agentes
de pastoral podem tornar presente a fragrância da presença solidária de Jesus e
o seu olhar pessoal. A Igreja deverá iniciar os seus membros – sacerdotes,
religiosos e leigos – nesta «arte do acompanhamento», para que todos
aprendam a descalçar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf.
Ex 3, 5). Devemos dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da proximidade, com
um olhar respeitoso e cheio de compaixão, mas que ao mesmo tempo cure,
liberte e anime a amadurecer na vida cristã.
170. Embora possa soar óbvio, o acompanhamento espiritual deve conduzir
cada vez mais para Deus, em quem podemos alcançar a verdadeira liberdade.
Alguns crêem-se livres quando caminham à margem de Deus, sem se dar conta
que ficam existencialmente órfãos, desamparados, sem um lar para onde
sempre possam voltar. Deixam de ser peregrinos para se transformarem em
errantes, que giram indefinidamente ao redor de si mesmos, sem chegar a lado
nenhum. O acompanhamento seria contraproducente, caso se tornasse uma
espécie de terapia que incentive esta reclusão das pessoas na sua imanência e
deixe de ser uma peregrinação com Cristo para o Pai.
171. Hoje mais do que nunca precisamos de homens e mulheres que
conheçam, a partir da sua experiência de acompanhamento, o modo de
proceder onde reine a prudência, a capacidade de compreensão, a arte de
esperar, a docilidade ao Espírito, para no meio de todos defender as ovelhas a
nós confiadas dos lobos que tentam desgarrar o rebanho. Precisamos de nos
exercitar na arte de escutar, que é mais do que ouvir. Escutar, na comunicação
com o outro, é a capacidade do coração que torna possível a proximidade, sem
a qual não existe um verdadeiro encontro espiritual. Escutar ajuda-nos a
individuar o gesto e a palavra oportunos que nos desinstalam da cómoda
condição de espectadores. Só a partir desta escuta respeitosa e compassiva é
que se pode encontrar os caminhos para um crescimento genuíno, despertar o
desejo do ideal cristão, o anseio de corresponder plenamente ao amor de Deus
e o anelo de desenvolver o melhor de quanto Deus semeou na nossa própria
vida. Mas sempre com a paciência de quem está ciente daquilo que ensinava
São Tomás de Aquino: alguém pode ter a graça e a caridade, mas não praticar
bem nenhuma das virtudes «por causa de algumas inclinações contrárias» que
persistem. Por outras palavras, as virtudes organizam-se sempre e
necessariamente «in habitu», embora os condicionamentos possam dificultar as
operações desses hábitos virtuosos. Por isso, faz falta «uma pedagogia que
introduza a pessoa passo a passo até chegar à plena apropriação do mistério».
Para se chegar a um estado de maturidade, isto é, para que as pessoas sejam
capazes de decisões verdadeiramente livres e responsáveis, é preciso dar
tempo ao tempo, com uma paciência imensa. Como dizia o Beato Pedro Fabro:
«O tempo é o mensageiro de Deus».
172. Quem acompanha sabe reconhecer que a situação de cada pessoa diante
de Deus e a sua vida em graça é um mistério que ninguém pode conhecer
plenamente a partir do exterior. O Evangelho propõe-nos que se corrija e ajude
a crescer uma pessoa a partir do reconhecimento da maldade objectiva das
suas acções (cf. Mt 18, 15), mas sem proferir juízos sobre a sua
responsabilidade e culpabilidade (cf. Mt 7, 1; Lc 6, 37). Seja como for, um válido
acompanhante não transige com os fatalismos nem com a pusilanimidade.
Sempre convida a querer curar-se, a pegar no catre (cf. Mt 9, 6), a abraçar a
cruz, a deixar tudo e partir sem cessar para anunciar o Evangelho. A experiência
pessoal de nos deixarmos acompanhar e curar, conseguindo exprimir com plena
sinceridade a nossa vida a quem nos acompanha, ensina-nos a ser pacientes e
compreensivos com os outros e habilita-nos a encontrar as formas para
despertar neles a confiança, a abertura e a vontade de crescer.
173. O acompanhamento espiritual autêntico começa sempre e prossegue no
âmbito do serviço à missão evangelizadora. A relação de Paulo com Timóteo e
Tito é exemplo deste acompanhamento e desta formação durante a acção
apostólica. Ao mesmo tempo que lhes confia a missão de permanecer numa
cidade concreta para «acabar de organizar o que ainda falta» (Tt 1, 5; cf. 1 Tm
1, 3-5), dá-lhes os critérios para a vida pessoal e a actividade pastoral. Isto é
claramente distinto de todo o tipo de acompanhamento intimista, de autorealização
isolada. Os discípulos missionários acompanham discípulos
missionários.
Ao redor da Palavra de Deus
174. Não é só a homilia que se deve alimentar da Palavra de Deus. Toda a
evangelização está fundada sobre esta Palavra escutada, meditada, vivida,
celebrada e testemunhada. A Sagrada Escritura é fonte da evangelização. Por
isso, é preciso formar-se continuamente na escuta da Palavra. A Igreja não
evangeliza, se não se deixa continuamente evangelizar. É indispensável que a
Palavra de Deus «se torne cada vez mais o coração de toda a actividade
eclesial». A Palavra de Deus ouvida e celebrada, sobretudo na Eucaristia,
alimenta e reforça interiormente os cristãos e torna-os capazes de um autêntico
testemunho evangélico na vida diária. Superámos já a velha contraposição entre
Palavra e Sacramento: a Palavra proclamada, viva e eficaz, prepara a recepção
do Sacramento e, no Sacramento, essa Palavra alcança a sua máxima eficácia.
175. O estudo da Sagrada Escritura deve ser uma porta aberta para todos os
crentes. É fundamental que a Palavra revelada fecunde radicalmente a
catequese e todos os esforços para transmitir a fé. A evangelização requer a
familiaridade com a Palavra de Deus, e isto exige que as dioceses, paróquias e
todos os grupos católicos proponham um estudo sério e perseverante da Bíblia
e promovam igualmente a sua leitura orante pessoal e comunitária. Nós não
procuramos Deus tacteando, nem precisamos de esperar que Ele nos dirija a
palavra, porque realmente «Deus falou, já não é o grande desconhecido, mas
mostrou-Se a Si mesmo». Acolhamos o tesouro sublime da Palavra revelada!
Capítulo IVA DIMENSÃO SOCIAL DA EVANGELIZAÇÃO
176. Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo. «Nenhuma
definição parcial e fragmentada, porém, chegará a dar razão da realidade rica,
complexa e dinâmica que é a evangelização, a não ser com o risco de a
empobrecer e até mesmo de a mutilar». Desejo agora partilhar as minhas
preocupações relacionadas com a dimensão social da evangelização,
precisamente porque, se esta dimensão não for devidamente explicitada, correse
sempre o risco de desfigurar o sentido autêntico e integral da missão
evangelizadora.
1. As repercussões comunitárias e sociais do querigma
177. O querigma possui um conteúdo inevitavelmente social: no próprio coração
do Evangelho, aparece a vida comunitária e o compromisso com os outros. O
conteúdo do primeiro anúncio tem uma repercussão moral imediata, cujo centro
é a caridade.
Confissão da fé e compromisso social
178. Confessar um Pai que ama infinitamente cada ser humano implica
descobrir que «assim lhe confere uma dignidade infinita». Confessar que o Filho
de Deus assumiu a nossa carne humana significa que cada pessoa humana foi
elevada até ao próprio coração de Deus. Confessar que Jesus deu o seu
sangue por nós impede-nos de ter qualquer dúvida acerca do amor sem limites
que enobrece todo o ser humano. A sua redenção tem um sentido social,
porque «Deus, em Cristo, não redime somente a pessoa individual, mas
também as relações sociais entre os homens». Confessar que o Espírito Santo
actua em todos implica reconhecer que Ele procura permear toda a situação
humana e todos os vínculos sociais: «O Espírito Santo possui uma inventiva
infinita, própria da mente divina, que sabe prover a desfazer os nós das
vicissitudes humanas mais complexas e impenetráveis». A evangelização
procura colaborar também com esta acção libertadora do Espírito. O próprio
mistério da Trindade nos recorda que somos criados à imagem desta comunhão
divina, pelo que não podemos realizar-nos nem salvar-nos sozinhos. A partir do
coração do Evangelho, reconhecemos a conexão íntima que existe entre
evangelização e promoção humana, que se deve necessariamente exprimir e
desenvolver em toda a acção evangelizadora. A aceitação do primeiro anúncio,
que convida a deixar-se amar por Deus e a amá-Lo com o amor que Ele mesmo
nos comunica, provoca na vida da pessoa e nas suas acções uma primeira e
fundamental reacção: desejar, procurar e ter a peito o bem dos outros.
179. Este laço indissolúvel entre a recepção do anúncio salvífico e um efectivo
amor fraterno exprime-se nalguns textos da Escritura, que convém considerar e
meditar atentamente para tirar deles todas as consequências. É uma mensagem
a que frequentemente nos habituamos e repetimos quase mecanicamente, mas
sem nos assegurarmos de que tenha real incidência na nossa vida e nas nossas
comunidades. Como é perigoso e prejudicial este habituar-se que nos leva a
perder a maravilha, a fascinação, o entusiasmo de viver o Evangelho da
fraternidade e da justiça! A Palavra de Deus ensina que, no irmão, está o
prolongamento permanente da Encarnação para cada um de nós: «Sempre que
fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o
fizestes» (Mt 25, 40). O que fizermos aos outros, tem uma dimensão
transcendente: «Com a medida com que medirdes, assim sereis medidos» (Mt
7, 2); e corresponde à misericórdia divina para connosco: «Sede
misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis
julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados.
Dai e ser-vos-á dado (...). A medida que usardes com os outros será usada
convosco» (Lc 6, 36-38). Nestes textos, exprime-se a absoluta prioridade da
«saída de si próprio para o irmão», como um dos dois mandamentos principais
que fundamentam toda a norma moral e como o sinal mais claro para discernir
sobre o caminho de crescimento espiritual em resposta à doação absolutamente
gratuita de Deus. Por isso mesmo, «também o serviço da caridade é uma
dimensão constitutiva da missão da Igreja e expressão irrenunciável da sua
própria essência». Assim como a Igreja é missionária por natureza, também
brota inevitavelmente dessa natureza a caridade efectiva para com o próximo, a
compaixão que compreende, assiste e promove.
O Reino que nos chama
180. Ao lermos as Escrituras, fica bem claro que a proposta do Evangelho não
consiste só numa relação pessoal com Deus. E a nossa resposta de amor
também não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos
pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados, o que poderia constituir
uma «caridade por receita», uma série de acções destinadas apenas a
tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4, 43);
trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir
reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de
paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência
cristã tendem a provocar consequências sociais. Procuremos o seu Reino:
«Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará
por acréscimo» (Mt 6, 33). O projecto de Jesus é instaurar o Reino de seu Pai;
por isso, pede aos seus discípulos: «Proclamai que o Reino do Céu está perto»
(Mt 10, 7).
181. O Reino, que se antecipa e cresce entre nós, abrange tudo, como nos
recorda aquele princípio de discernimento que Paulo VI propunha a propósito do
verdadeiro desenvolvimento: «Todos os homens e o homem todo». Sabemos
que «a evangelização não seria completa, se ela não tomasse em consideração
a interpelação recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida
concreta, pessoal e social, dos homens». É o critério da universalidade, próprio
da dinâmica do Evangelho, dado que o Pai quer que todos os homens se
salvem; e o seu plano de salvação consiste em «submeter tudo a Cristo,
reunindo n’Ele o que há no céu e na terra» (Ef 1, 10). O mandato é: «Ide pelo
mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda criatura» (Mc 16, 15), porque toda
«a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos
filhos de Deus» (Rm 8, 19). Toda a criação significa também todos os aspectos
da vida humana, de tal modo que «a missão do anúncio da Boa Nova de Jesus
Cristo tem destinação universal. Seu mandato de caridade alcança todas as
dimensões da existência, todas as pessoas, todos os ambientes da convivência
e todos os povos. Nada do humano pode lhe parecer estranho». A verdadeira
esperança cristã, que procura o Reino escatológico, gera sempre história.
A doutrina da Igreja sobre as questões sociais
182. Os ensinamentos da Igreja acerca de situações contingentes estão sujeitos
a maiores ou novos desenvolvimentos e podem ser objecto de discussão, mas
não podemos evitar de ser concretos – sem pretender entrar em detalhes – para
que os grandes princípios sociais não fiquem meras generalidades que não
interpelam ninguém. É preciso tirar as suas consequências práticas, para que
«possam incidir com eficácia também nas complexas situações hodiernas». Os
Pastores, acolhendo as contribuições das diversas ciências, têm o direito de
exprimir opiniões sobre tudo aquilo que diz respeito à vida das pessoas, dado
que a tarefa da evangelização implica e exige uma promoção integral de cada
ser humano. Já não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito
privado e serve apenas para preparar as almas para o céu. Sabemos que Deus
deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam
chamados à plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas «para nosso
usufruto» (1 Tm 6, 17), para que todos possam usufruir delas. Por isso, a
conversão cristã exige rever «especialmente tudo o que diz respeito à ordem
social e consecução do bem comum».
183. Por conseguinte, ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para
a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e
nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil,
sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos.
Quem ousaria encerrar num templo e silenciar a mensagem de São Francisco
de Assis e da Beata Teresa de Calcutá? Eles não o poderiam aceitar. Uma fé
autêntica – que nunca é cómoda nem individualista – comporta sempre um
profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco
melhor depois da nossa passagem por ela. Amamos este magnífico planeta,
onde Deus nos colocou, e amamos a humanidade que o habita, com todos os
seus dramas e cansaços, com os seus anseios e esperanças, com os seus
valores e fragilidades. A terra é a nossa casa comum, e todos somos irmãos.
Embora «a justa ordem da sociedade e do Estado seja dever central da
política», a Igreja «não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça».
Todos os cristãos, incluindo os Pastores, são chamados a preocupar-se com a
construção dum mundo melhor. É disto mesmo que se trata, pois o pensamento
social da Igreja é primariamente positivo e construtivo, orienta uma acção
transformadora e, neste sentido, não deixa de ser um sinal de esperança que
brota do coração amoroso de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, «une o próprio
empenho ao esforço em campo social das demais Igrejas e Comunidades
eclesiais, tanto na reflexão doutrinal como na prática».
184. Aqui não é o momento para explanar todas as graves questões sociais que
afectam o mundo actual, algumas das quais já comentei no terceiro capítulo.
Este não é um documento social e, para nos ajudar a reflectir sobre estes vários
temas, temos um instrumento muito apropriado no Compêndio da Doutrina
Social da Igreja, cujo uso e estudo vivamente recomendo. Além disso, nem o
Papa nem a Igreja possui o monopólio da interpretação da realidade social ou
da apresentação de soluções para os problemas contemporâneos. Posso repetir
aqui o que indicava, com grande lucidez, Paulo VI: «Perante situações, assim
tão diversificadas, torna-se-nos difícil tanto o pronunciar uma palavra única,
como o propor uma solução que tenha um valor universal. Mas, isso não é
ambição nossa, nem mesmo a nossa missão. É às comunidades cristãs que
cabe analisarem, com objectividade, a situação própria do seu país».
185. Em seguida, procurarei concentrar-me sobre duas grandes questões que
me parecem fundamentais neste momento da história. Desenvolvê-las-ei com
uma certa amplitude, porque considero que irão determinar o futuro da
humanidade. A primeira é a inclusão social dos pobres; e a segunda, a questão
da paz e do diálogo social.
2. A inclusão social dos pobres
186. Deriva da nossa fé em Cristo, que Se fez pobre e sempre Se aproximou
dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos
mais abandonados da sociedade.
Unidos a Deus, ouvimos um clamor
187. Cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de
Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam
integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe estar docilmente atentos, para
ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo. Basta percorrer as Escrituras, para
descobrir como o Pai bom quer ouvir o clamor dos pobres: «Eu bem vi a
opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor diante dos seus
inspectores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de os
libertar (...). E agora, vai; Eu te envio...» (Ex 3, 7-8.10). E Ele mostra-Se solícito
com as suas necessidades: «Os filhos de Israel clamaram, então, ao Senhor, e
o Senhor enviou-lhes um salvador» (Jz 3, 15). Ficar surdo a este clamor,
quando somos os instrumentos de Deus para ouvir o pobre, coloca-nos fora da
vontade do Pai e do seu projecto, porque esse pobre «clamaria ao Senhor
contra ti, e aquilo tornar-se-ia para ti um pecado» (Dt 15, 9). E a falta de
solidariedade, nas suas necessidades, influi directamente sobre a nossa relação
com Deus: «Se te amaldiçoa na amargura da sua alma, Aquele que o criou
ouvirá a sua oração» (Sir 4, 6). Sempre retorna a antiga pergunta: «Se alguém
possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o
seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?» (1 Jo 3, 17).
Lembremos também com quanta convicção o Apóstolo São Tiago retomava a
imagem do clamor dos oprimidos: «Olhai que o salário que não pagastes, aos
trabalhadores que ceifaram os vossos campos, está a clamar; e os clamores
dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo» (5, 4).
188. A Igreja reconheceu que a exigência de ouvir este clamor deriva da própria
obra libertadora da graça em cada um de nós, pelo que não se trata de uma
missão reservada apenas a alguns: «A Igreja, guiada pelo Evangelho da
Misericórdia e pelo amor ao homem, escuta o clamor pela justiça e deseja
responder com todas as suas forças». Nesta linha, se pode entender o pedido
de Jesus aos seus discípulos: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37), que
envolve tanto a cooperação para resolver as causas estruturais da pobreza e
promover o desenvolvimento integral dos pobres, como os gestos mais simples
e diários de solidariedade para com as misérias muito concretas que
encontramos. Embora um pouco desgastada e, por vezes, até mal interpretada,
a palavra «solidariedade» significa muito mais do que alguns actos esporádicos
de generosidade; supõe a criação duma nova mentalidade que pense em
termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos
bens por parte de alguns.
189. A solidariedade é uma reacção espontânea de quem reconhece a função
social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores
à propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e
aumentá-los de modo a servirem melhor o bem comum, pelo que a
solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe
corresponde. Estas convicções e práticas de solidariedade, quando se fazem
carne, abrem caminho a outras transformações estruturais e tornam-nas
possíveis. Uma mudança nas estruturas, sem se gerar novas convicções e
atitudes, fará com que essas mesmas estruturas, mais cedo ou mais tarde, se
tornem corruptas, pesadas e ineficazes.
190. Às vezes trata-se de ouvir o clamor de povos inteiros, dos povos mais
pobres da terra, porque «a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do
homem, mas também no respeito pelo direito dos povos». Lamentavelmente,
até os direitos humanos podem ser usados como justificação para uma defesa
exacerbada dos direitos individuais ou dos direitos dos povos mais ricos.
Respeitando a independência e a cultura de cada nação, é preciso recordar-se
sempre de que o planeta é de toda a humanidade e para toda a humanidade, e
que o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor
desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente.
É preciso repetir que «os mais favorecidos devem renunciar a alguns dos seus
direitos, para poderem colocar, com mais liberalidade, os seus bens ao serviço
dos outros». Para falarmos adequadamente dos nossos direitos, é preciso
alongar mais o olhar e abrir os ouvidos ao clamor dos outros povos ou de outras
regiões do próprio país. Precisamos de crescer numa solidariedade que
«permita a todos os povos tornarem-se artífices do seu destino», tal como
«cada homem é chamado a desenvolver-se».
191. Animados pelos seus Pastores, os cristãos são chamados, em todo o lugar
e circunstância, a ouvir o clamor dos pobres, como bem se expressaram os
Bispos do Brasil: «Desejamos assumir, a cada dia, as alegrias e esperanças, as
angústias e tristezas do povo brasileiro, especialmente das populações das
periferias urbanas e das zonas rurais – sem terra, sem teto, sem pão, sem
saúde – lesadas em seus direitos. Vendo a sua miséria, ouvindo os seus
clamores e conhecendo o seu sofrimento, escandaliza-nos o fato de saber que
existe alimento suficiente para todos e que a fome se deve à má repartição dos
bens e da renda. O problema se agrava com a prática generalizada do
desperdício».
192. Mas queremos ainda mais, o nosso sonho voa mais alto. Não se fala
apenas de garantir a comida ou um decoroso «sustento» para todos, mas
«prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos». Isto engloba
educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente trabalho, porque, no
trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e
engrandece a dignidade da sua vida. O salário justo permite o acesso adequado
aos outros bens que estão destinados ao uso comum.
Fidelidade ao Evangelho, para não correr em vão
193. Este imperativo de ouvir o clamor dos pobres faz-se carne em nós, quando
no mais íntimo de nós mesmos nos comovemos à vista do sofrimento alheio.
Voltemos a ler alguns ensinamentos da Palavra de Deus sobre a misericórdia,
para que ressoem vigorosamente na vida da Igreja. O Evangelho proclama:
«Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5, 7). O
Apóstolo São Tiago ensina que a misericórdia para com os outros permite-nos
sair triunfantes no juízo divino: «Falai e procedei como pessoas que hão-de ser
julgadas segundo a lei da liberdade. Porque, quem não pratica a misericórdia,
será julgado sem misericórdia. Mas a misericórdia não teme o julgamento» (2,
12-13). Neste texto, São Tiago aparece-nos como herdeiro do que tinha de mais
rico a espiritualidade judaica do pós-exílio, a qual atribuía um especial valor
salvífico à misericórdia: «Redime o teu pecado pela justiça, e as tuas
iniquidades, pela piedade para com os infelizes; talvez isto consiga prolongar a
tua prosperidade» (Dn 4, 24). Nesta mesma perspectiva, a literatura sapiencial
fala da esmola como exercício concreto da misericórdia para com os
necessitados: «A esmola livra da morte e limpa de todo o pecado» (Tb 12, 9). E
de forma ainda mais sensível se exprime Ben-Sirá: «A água apaga o fogo
ardente, e a esmola expia o pecado» (3, 30). Encontramos a mesma síntese no
Novo Testamento: «Mantende entre vós uma intensa caridade, porque o amor
cobre a multidão dos pecados» (1 Pd 4, 8). Esta verdade permeou
profundamente a mentalidade dos Padres da Igreja, tendo exercido uma
resistência profética como alternativa cultural face ao individualismo hedonista
pagão. Recordemos apenas um exemplo: «Tal como, em perigo de incêndio,
correríamos a buscar água para o apagar (...), o mesmo deveríamos fazer
quando nos turvamos porque, da nossa palha, irrompeu a chama do pecado;
assim, quando se nos proporciona a ocasião de uma obra cheia de misericórdia,
alegremo-nos por ela como se fosse uma fonte que nos é oferecida e na qual
podemos extinguir o incêndio».
194. É uma mensagem tão clara, tão directa, tão simples e eloquente que
nenhuma hermenêutica eclesial tem o direito de relativizar. A reflexão da Igreja
sobre estes textos não deveria ofuscar nem enfraquecer o seu sentido
exortativo, mas antes ajudar a assumi-los com coragem e ardor. Para quê
complicar o que é tão simples? As elaborações conceptuais hão-de favorecer o
contacto com a realidade que pretendem explicar, e não afastar-nos dela. Isto
vale sobretudo para as exortações bíblicas que convidam, com tanta
determinação, ao amor fraterno, ao serviço humilde e generoso, à justiça, à
misericórdia para com o pobre. Jesus ensinou-nos este caminho de
reconhecimento do outro, com as suas palavras e com os seus gestos. Para
quê ofuscar o que é tão claro? Não nos preocupemos só com não cair em erros
doutrinais, mas também com ser fiéis a este caminho luminoso de vida e
sabedoria. Porque «é frequente dirigir aos defensores da “ortodoxia” a acusação
de passividade, de indulgência ou de cumplicidade culpáveis frente a situações
intoleráveis de injustiça e de regimes políticos que mantêm estas situações».
195. Quando São Paulo foi ter com os Apóstolos a Jerusalém para discernir «se
estava a correr ou tinha corrido em vão» (Gal 2, 2), o critério-chave de
autenticidade que lhe indicaram foi que não se esquecesse dos pobres (cf. Gal
2, 10). Este critério importante para que as comunidades paulinas não se
deixassem arrastar pelo estilo de vida individualista dos pagãos, tem uma
grande actualidade no contexto actual em que tende a desenvolver-se um novo
paganismo individualista. A própria beleza do Evangelho nem sempre a
conseguimos manifestar adequadamente, mas há um sinal que nunca deve
faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora.
196. Às vezes somos duros de coração e de mente, esquecemo-nos,
entretemo-nos, extasiamo-nos com as imensas possibilidades de consumo e de
distracção que esta sociedade oferece. Gera-se assim uma espécie de
alienação que nos afecta a todos, pois «alienada é a sociedade que, nas suas
formas de organização social, de produção e de consumo, torna mais difícil a
realização deste dom e a constituição dessa solidariedade inter-humana».
O lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus
197. No coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres, tanto que até
Ele mesmo «Se fez pobre» (2 Cor 8, 9). Todo o caminho da nossa redenção
está assinalado pelos pobres. Esta salvação veio a nós, através do «sim» duma
jovem humilde, duma pequena povoação perdida na periferia dum grande
império. O Salvador nasceu num presépio, entre animais, como sucedia com os
filhos dos mais pobres; foi apresentado no Templo, juntamente com dois
pombinhos, a oferta de quem não podia permitir-se pagar um cordeiro (cf. Lc 2,
24; Lv 5, 7); cresceu num lar de simples trabalhadores, e trabalhou com suas
mãos para ganhar o pão. Quando começou a anunciar o Reino, seguiam-No
multidões de deserdados, pondo assim em evidência o que Ele mesmo dissera:
«O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu para anunciar a Boa-
Nova aos pobres» (Lc 4, 18). A quantos sentiam o peso do sofrimento,
acabrunhados pela pobreza, assegurou que Deus os tinha no âmago do seu
coração: «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6, 20);
e com eles Se identificou: «Tive fome e destes-Me de comer», ensinando que a
misericórdia para com eles é a chave do Céu (cf. Mt 25, 34-40).
198. Para a Igreja, a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que
cultural, sociológica, política ou filosófica. Deus «manifesta a sua misericórdia
antes de mais» a eles. Esta preferência divina tem consequências na vida de fé
de todos os cristãos, chamados a possuírem «os mesmos sentimentos que
estão em Cristo Jesus» (Fl 2, 5). Inspirada por tal preferência, a Igreja fez uma
opção pelos pobres, entendida como uma «forma especial de primado na
prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja». Como
ensinava Bento XVI, esta opção «está implícita na fé cristológica naquele Deus
que Se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza». Por isso,
desejo uma Igreja pobre para os pobres. Estes têm muito para nos ensinar.
Além de participar do sensus fidei, nas suas próprias dores conhecem Cristo
sofredor. É necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles. A nova
evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas, e a
colocá-los no centro do caminho da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo
neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a
ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa
sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles.
199. O nosso compromisso não consiste exclusivamente em acções ou em
programas de promoção e assistência; aquilo que o Espírito põe em movimento
não é um excesso de activismo, mas primariamente uma atenção prestada ao
outro «considerando-o como um só consigo mesmo». Esta atenção amiga é o
início duma verdadeira preocupação pela sua pessoa e, a partir dela, desejo
procurar efectivamente o seu bem. Isto implica apreciar o pobre na sua bondade
própria, com o seu modo de ser, com a sua cultura, com a sua forma de viver a
fé. O amor autêntico é sempre contemplativo, permitindo-nos servir o outro não
por necessidade ou vaidade, mas porque ele é belo, independentemente da sua
aparência: «Do amor, pelo qual uma pessoa é agradável a outra, depende que
lhe dê algo de graça». Quando amado, o pobre «é estimado como de alto
valor», e isto diferencia a autêntica opção pelos pobres de qualquer ideologia,
de qualquer tentativa de utilizar os pobres ao serviço de interesses pessoais ou
políticos. Unicamente a partir desta proximidade real e cordial é que podemos
acompanhá-los adequadamente no seu caminho de libertação. Só isto tornará
possível que «os pobres se sintam, em cada comunidade cristã, como “em
casa”. Não seria, este estilo, a maior e mais eficaz apresentação da boa nova
do Reino?» Sem a opção preferencial pelos pobres, «o anúncio do Evangelho –
e este anúncio é a primeira caridade – corre o risco de não ser compreendido ou
de afogar-se naquele mar de palavras que a actual sociedade da comunicação
diariamente nos apresenta».
200. Dado que esta Exortação se dirige aos membros da Igreja Católica, desejo
afirmar, com mágoa, que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de
cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à
fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua
amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a
proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção
preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude
religiosa privilegiada e prioritária.
201. Ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas
opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é
uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou
profissionais, e até mesmo eclesiais. Embora se possa dizer, em geral, que a
vocação e a missão próprias dos fiéis leigos é a transformação das diversas
realidades terrenas para que toda a actividade humana seja transformada pelo
Evangelho, ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e
pela justiça social: «A conversão espiritual, a intensidade do amor a Deus e ao
próximo, o zelo pela justiça e pela paz, o sentido evangélico dos pobres e da
pobreza são exigidos a todos». Temo que também estas palavras sejam objecto
apenas de alguns comentários, sem verdadeira incidência prática. Apesar disso,
tenho confiança na abertura e nas boas disposições dos cristãos e peço-vos
que procureis, comunitariamente, novos caminhos para acolher esta renovada
proposta.
Economia e distribuição das entradas
202. A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode
esperar; e não apenas por uma exigência pragmática de obter resultados e
ordenar a sociedade, mas também para a curar duma mazela que a torna frágil
e indigna e que só poderá levá-la a novas crises. Os planos de assistência, que
acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se apenas como
respostas provisórias. Enquanto não forem radicalmente solucionados os
problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da
especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade
social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema
algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais.
203. A dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que
deveriam estruturar toda a política económica, mas às vezes parecem somente
apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem
perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral. Quantas
palavras se tornaram molestas para este sistema! Molesta que se fale de ética,
molesta que se fale de solidariedade mundial, molesta que se fale de
distribuição dos bens, molesta que se fale de defender os postos de trabalho,
molesta que se fale da dignidade dos fracos, molesta que se fale de um Deus
que exige um compromisso em prol da justiça. Outras vezes acontece que estas
palavras se tornam objecto duma manipulação oportunista que as desonra. A
cómoda indiferença diante destas questões esvazia a nossa vida e as nossas
palavras de todo o significado. A vocação dum empresário é uma nobre tarefa,
desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto permitelhe
servir verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e
tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos.
204. Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do
mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento
económico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e
processos especificamente orientados para uma melhor distribuição das
entradas, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção
integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. Longe de mim propor
um populismo irresponsável, mas a economia não pode mais recorrer a
remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a
rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos.
205. Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num
autêntico diálogo que vise efectivamente sanar as raízes profundas e não a
aparência dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime
vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem
comum. Temos de nos convencer que a caridade «é o princípio não só das
micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas
também das macro-relações como relacionamentos sociais, económicos,
políticos». Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham
verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É
indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e
alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e
cuidados sanitários para todos os cidadãos. E porque não acudirem a Deus
pedindo-Lhe que inspire os seus planos? Estou convencido de que, a partir
duma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma nova mentalidade
política e económica que ajudaria a superar a dicotomia absoluta entre a
economia e o bem comum social.
206. A economia – como indica o próprio termo – deveria ser a arte de alcançar
uma adequada administração da casa comum, que é o mundo inteiro. Todo o
acto económico duma certa envergadura, que se realiza em qualquer parte do
planeta, repercute-se no mundo inteiro, pelo que nenhum Governo pode agir à
margem duma responsabilidade comum. Na realidade, torna-se cada vez mais
difícil encontrar soluções a nível local para as enormes contradições globais,
pelo que a política local se satura de problemas por resolver. Se realmente
queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos, neste momento
da história, de um modo mais eficiente de interacção que, sem prejuízo da
soberania das nações, assegure o bem-estar económico a todos os países e
não apenas a alguns.
207. E qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir
tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que
os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos, correrá também o
risco da sua dissolução, mesmo que fale de temas sociais ou critique os
Governos. Facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual,
dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios.
208. Se alguém se sentir ofendido com as minhas palavras, saiba que as
exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse
pessoal ou ideologia política. A minha palavra não é a dum inimigo nem a dum
opositor. A mim interessa-me apenas procurar que, quantos vivem escravizados
por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta, possam libertar-se
dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais
humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta
terra.
Cuidar da fragilidade
209. Jesus, o evangelizador por excelência e o Evangelho em pessoa,
identificou-Se especialmente com os mais pequeninos (cf. Mt 25, 40). Isto
recorda-nos, a todos os cristãos, que somos chamados a cuidar dos mais
frágeis da Terra. Mas, no modelo «do êxito» e «individualista» em vigor, parece
que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados
possam também singrar na vida.
210. Embora aparentemente não nos traga benefícios tangíveis e imediatos, é
indispensável prestar atenção e debruçar-nos sobre as novas formas de
pobreza e fragilidade, nas quais somos chamados a reconhecer Cristo sofredor:
os sem abrigo, os toxicodependentes, os refugiados, os povos indígenas, os
idosos cada vez mais sós e abandonados, etc. Os migrantes representam um
desafio especial para mim, por ser Pastor duma Igreja sem fronteiras que se
sente mãe de todos. Por isso, exorto os países a uma abertura generosa, que,
em vez de temer a destruição da identidade local, seja capaz de criar novas
sínteses culturais. Como são belas as cidades que superam a desconfiança
doentia e integram os que são diferentes, fazendo desta integração um novo
factor de progresso! Como são encantadoras as cidades que, já no seu projecto
arquitectónico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o
reconhecimento do outro!
211. Sempre me angustiou a situação das pessoas que são objecto das
diferentes formas de tráfico. Quem dera que se ouvisse o grito de Deus,
perguntando a todos nós: «Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9). Onde está o teu
irmão escravo? Onde está o irmão que estás matando cada dia na pequena
fábrica clandestina, na rede da prostituição, nas crianças usadas para a
mendicidade, naquele que tem de trabalhar às escondidas porque não foi
regularizado? Não nos façamos de distraídos! Há muita cumplicidade... A
pergunta é para todos! Nas nossas cidades, está instalado este crime mafioso e
aberrante, e muitos têm as mãos cheias de sangue devido a uma cómoda e
muda cumplicidade.
212. Duplamente pobres são as mulheres que padecem situações de exclusão,
maus-tratos e violência, porque frequentemente têm menores possibilidades de
defender os seus direitos. E todavia, também entre elas, encontramos
continuamente os mais admiráveis gestos de heroísmo quotidiano na defesa e
cuidado da fragilidade das suas famílias.
213. Entre estes seres frágeis, de que a Igreja quer cuidar com predilecção,
estão também os nascituros, os mais inermes e inocentes de todos, a quem
hoje se quer negar a dignidade humana para poder fazer deles o que apetece,
tirando-lhes a vida e promovendo legislações para que ninguém o possa
impedir. Muitas vezes, para ridiculizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da
vida dos nascituros, procura-se apresentar a sua posição como ideológica,
obscurantista e conservadora; e no entanto esta defesa da vida nascente está
intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano. Supõe a convicção de
que um ser humano é sempre sagrado e inviolável, em qualquer situação e em
cada etapa do seu desenvolvimento. É fim em si mesmo, e nunca um meio para
resolver outras dificuldades. Se cai esta convicção, não restam fundamentos
sólidos e permanentes para a defesa dos direitos humanos, que ficariam
sempre sujeitos às conveniências contingentes dos poderosos de turno. Por si
só a razão é suficiente para se reconhecer o valor inviolável de qualquer vida
humana, mas, se a olhamos também a partir da fé, «toda a violação da
dignidade pessoal do ser humano clama por vingança junto de Deus e torna-se
ofensa ao Criador do homem».
214. E precisamente porque é uma questão que mexe com a coerência interna
da nossa mensagem sobre o valor da pessoa humana, não se deve esperar que
a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser
completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou
«modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas,
eliminando uma vida humana. Mas é verdade também que temos feito pouco
para acompanhar adequadamente as mulheres que estão em situações muito
duras, nas quais o aborto lhes aparece como uma solução rápida para as suas
profundas angústias, particularmente quando a vida que cresce nelas surgiu
como resultado duma violência ou num contexto de extrema pobreza. Quem
pode deixar de compreender estas situações de tamanho sofrimento?
215. Há outros seres frágeis e indefesos, que muitas vezes ficam à mercê dos
interesses económicos ou dum uso indiscriminado. Refiro-me ao conjunto da
criação. Nós, os seres humanos, não somos meramente beneficiários, mas
guardiões das outras criaturas. Pela nossa realidade corpórea, Deus uniu-nos
tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é
como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma
espécie como se fosse uma mutilação. Não deixemos que, à nossa passagem,
fiquem sinais de destruição e de morte que afectem a nossa vida e a das
gerações futuras. Neste sentido, faço meu o expressivo e profético lamento que,
já há vários anos, formularam os Bispos das Filipinas: «Uma incrível variedade
de insectos vivia no bosque; e estavam ocupados com todo o tipo de tarefas.
(...) Os pássaros voavam pelo ar, as suas penas brilhantes e os seus variados
gorjeios acrescentavam cor e melodia ao verde dos bosques. (...) Deus quis que
esta terra fosse para nós, suas criaturas especiais, mas não para a podermos
destruir ou transformar num baldio. (...) Depois de uma única noite de chuva,
observa os rios de castanho-chocolate da tua localidade e lembra-te que estão a
arrastar o sangue vivo da terra para o mar. (...) Como poderão os peixes nadar
em esgotos como o rio Pasig e muitos outros rios que poluímos? Quem
transformou o maravilhoso mundo marinho em cemitérios subaquáticos
despojados de vida e de cor?»
216. Pequenos mas fortes no amor de Deus, como São Francisco de Assis,
todos nós, cristãos, somos chamados a cuidar da fragilidade do povo e do
mundo em que vivemos.
3. O bem comum e a paz social
217. Falámos muito sobre a alegria e o amor, mas a Palavra de Deus menciona
também o fruto da paz (cf. Gal 5, 22).
218. A paz social não pode ser entendida como irenismo ou como mera
ausência de violência obtida pela imposição de uma parte sobre as outras.
Também seria uma paz falsa aquela que servisse como desculpa para justificar
uma organização social que silencie ou tranquilize os mais pobres, de modo que
aqueles que gozam dos maiores benefícios possam manter o seu estilo de vida
sem sobressaltos, enquanto os outros sobrevivem como podem. As
reivindicações sociais, que têm a ver com a distribuição das entradas, a inclusão
social dos pobres e os direitos humanos não podem ser sufocados com o
pretexto de construir um consenso de escritório ou uma paz efémera para uma
minoria feliz. A dignidade da pessoa humana e o bem comum estão por cima da
tranquilidade de alguns que não querem renunciar aos seus privilégios. Quando
estes valores são afectados, é necessária uma voz profética.
219. E a paz também «não se reduz a uma ausência de guerra, fruto do
equilíbrio sempre precário das forças. Constrói-se, dia a dia, na busca duma
ordem querida por Deus, que traz consigo uma justiça mais perfeita entre os
homens». Enfim, uma paz que não surja como fruto do desenvolvimento integral
de todos, não terá futuro e será sempre semente de novos conflitos e variadas
formas de violência.
220. Em cada nação, os habitantes desenvolvem a dimensão social da sua vida,
configurando-se como cidadãos responsáveis dentro de um povo e não como
massa arrastada pelas forças dominantes. Lembremo-nos que «ser cidadão fiel
é uma virtude, e a participação na vida política é uma obrigação moral». Mas,
tornar-se um povo é algo mais, exigindo um processo constante no qual cada
nova geração está envolvida. É um trabalho lento e árduo que exige querer
integrar-se e aprender a fazê-lo até se desenvolver uma cultura do encontro
numa harmonia pluriforme.
221. Para avançar nesta construção de um povo em paz, justiça e fraternidade,
há quatro princípios relacionados com tensões bipolares próprias de toda a
realidade social. Derivam dos grandes postulados da Doutrina Social da Igreja,
que constituem o «primeiro e fundamental parâmetro de referência para a
interpretação e o exame dos fenómenos sociais». À luz deles, desejo agora
propor estes quatro princípios que orientam especificamente o desenvolvimento
da convivência social e a construção de um povo onde as diferenças se
harmonizam dentro de um projecto comum. Faço-o na convicção de que a sua
aplicação pode ser um verdadeiro caminho para a paz dentro de cada nação e
no mundo inteiro.
O tempo é superior ao espaço
222. Existe uma tensão bipolar entre a plenitude e o limite. A plenitude gera a
vontade de possuir tudo, e o limite é o muro que nos aparece pela frente. O
«tempo», considerado em sentido amplo, faz referimento à plenitude como
expressão do horizonte que se abre diante de nós, e o momento é expressão do
limite que se vive num espaço circunscrito. Os cidadãos vivem em tensão entre
a conjuntura do momento e a luz do tempo, do horizonte maior, da utopia que
nos abre ao futuro como causa final que atrai. Daqui surge um primeiro princípio
para progredir na construção de um povo: o tempo é superior ao espaço.
223. Este princípio permite trabalhar a longo prazo, sem a obsessão pelos
resultados imediatos. Ajuda a suportar, com paciência, situações difíceis e
hostis ou as mudanças de planos que o dinamismo da realidade impõe. É um
convite a assumir a tensão entre plenitude e limite, dando prioridade ao tempo.
Um dos pecados que, às vezes, se nota na actividade sociopolítica é privilegiar
os espaços de poder em vez dos tempos dos processos. Dar prioridade ao
espaço leva-nos a proceder como loucos para resolver tudo no momento
presente, para tentar tomar posse de todos os espaços de poder e
autoafirmação. É cristalizar os processos e pretender pará-los. Dar prioridade ao
tempo é ocupar-se mais com iniciar processos do que possuir espaços. O
tempo ordena os espaços, ilumina-os e transforma-os em elos duma cadeia em
constante crescimento, sem marcha atrás. Trata-se de privilegiar as acções que
geram novos dinamismos na sociedade e comprometem outras pessoas e
grupos que os desenvolverão até frutificar em acontecimentos históricos
importantes. Sem ansiedade, mas com convicções claras e tenazes.
224. Às vezes interrogo-me sobre quais são as pessoas que, no mundo actual,
se preocupam realmente mais com gerar processos que construam um povo do
que com obter resultados imediatos que produzam ganhos políticos fáceis,
rápidos e efémeros, mas que não constroem a plenitude humana. A história
julgá-los-á talvez com aquele critério enunciado por Romano Guardini: «O único
padrão para avaliar justamente uma época é perguntar-se até que ponto, nela,
se desenvolve e alcança uma autêntica razão de ser a plenitude da existência
humana, de acordo com o carácter peculiar e as possibilidades da dita época».
225. Este critério é muito apropriado também para a evangelização, que exige
ter presente o horizonte, adoptar os processos possíveis e a estrada longa. O
próprio Senhor, na sua vida mortal, deu a entender várias vezes aos seus
discípulos que havia coisas que ainda não podiam compreender e era
necessário esperar o Espírito Santo (cf. Jo 16, 12-13). A parábola do trigo e do
joio (cf. Mt 13, 24-30) descreve um aspecto importante de evangelização que
consiste em mostrar como o inimigo pode ocupar o espaço do Reino e causar
dano com o joio, mas é vencido pela bondade do trigo que se manifesta com o
tempo.
A unidade prevalece sobre o conflito
226. O conflito não pode ser ignorado ou dissimulado; deve ser aceitado. Mas,
se ficamos encurralados nele, perdemos a perspectiva, os horizontes reduzemse
e a própria realidade fica fragmentada. Quando paramos na conjuntura
conflitual, perdemos o sentido da unidade profunda da realidade.
227. Perante o conflito, alguns limitam-se a olhá-lo e passam adiante como se
nada fosse, lavam-se as mãos para poder continuar com a sua vida. Outros
entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte,
projectam nas instituições as suas próprias confusões e insatisfações e, assim,
a unidade torna-se impossível. Mas há uma terceira forma, a mais adequada, de
enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo
de ligação de um novo processo. «Felizes os pacificadores» (Mt 5, 9)!
228. Deste modo, torna-se possível desenvolver uma comunhão nas diferenças,
que pode ser facilitada só por pessoas magnânimas que têm a coragem de
ultrapassar a superfície conflitual e consideram os outros na sua dignidade mais
profunda. Por isso, é necessário postular um princípio que é indispensável para
construir a amizade social: a unidade é superior ao conflito. A solidariedade,
entendida no seu sentido mais profundo e desafiador, torna-se assim um estilo
de construção da história, um âmbito vital onde os conflitos, as tensões e os
opostos podem alcançar uma unidade multifacetada que gera nova vida. Não é
apostar no sincretismo ou na absorção de um no outro, mas na resolução num
plano superior que conserva em si as preciosas potencialidades das polaridades
em contraste.
229. Este critério evangélico recorda-nos que Cristo tudo unificou em Si: céu e
terra, Deus e homem, tempo e eternidade, carne e espírito, pessoa e sociedade.
O sinal distintivo desta unidade e reconciliação de tudo n’Ele é a paz. Cristo «é
a nossa paz» (Ef 2, 14). O anúncio do Evangelho começa sempre com a
saudação de paz; e a paz coroa e cimenta em cada momento as relações entre
os discípulos. A paz é possível, porque o Senhor venceu o mundo e sua
permanente conflitualidade, «pacificando pelo sangue da sua cruz» (Col 1, 20).
Entretanto, se examinarmos a fundo estes textos bíblicos, descobriremos que o
primeiro âmbito onde somos chamados a conquistar esta pacificação nas
diferenças é a própria interioridade, a própria vida sempre ameaçada pela
dispersão dialéctica. Com corações despedaçados em milhares de fragmentos,
será difícil construir uma verdadeira paz social.
230. O anúncio de paz não é a proclamação duma paz negociada, mas a
convicção de que a unidade do Espírito harmoniza todas as diversidades.
Supera qualquer conflito numa nova e promissora síntese. A diversidade é bela,
quando aceita entrar constantemente num processo de reconciliação até selar
uma espécie de pacto cultural que faça surgir uma «diversidade reconciliada»,
como justamente ensinaram os Bispos da República Democrática do Congo: «A
diversidade das nossas etnias é uma riqueza. (…) Só com a unidade, a
conversão dos corações e a reconciliação é que poderemos fazer avançar o
nosso país».
A realidade é mais importante do que a ideia
231. Existe também uma tensão bipolar entre a ideia e a realidade: a realidade
simplesmente é, a ideia elabora-se. Entre as duas, deve estabelecer-se um
diálogo constante, evitando que a ideia acabe por separar-se da realidade. É
perigoso viver no reino só da palavra, da imagem, do sofisma. Por isso, há que
postular um terceiro princípio: a realidade é superior à ideia. Isto supõe evitar
várias formas de ocultar a realidade: os purismos angélicos, os totalitarismos do
relativo, os nominalismos declaracionistas, os projectos mais formais que reais,
os fundamentalismos anti-históricos, os eticismos sem bondade, os
intelectualismos sem sabedoria.
232. A ideia – as elaborações conceituais – está ao serviço da captação,
compreensão e condução da realidade. A ideia desligada da realidade dá
origem a idealismos e nominalismos ineficazes que, no máximo, classificam ou
definem, mas não empenham. O que empenha é a realidade iluminada pelo
raciocínio. É preciso passar do nominalismo formal à objectividade harmoniosa.
Caso contrário, manipula-se a verdade, do mesmo modo que se substitui a
ginástica pela cosmética. Há políticos – e também líderes religiosos – que se
interrogam por que motivo o povo não os compreende nem segue, se as suas
propostas são tão lógicas e claras. Possivelmente é porque se instalaram no
reino das puras ideias e reduziram a política ou a fé à retórica; outros
esqueceram a simplicidade e importaram de fora uma racionalidade alheia à
gente.
233. A realidade é superior à ideia. Este critério está ligado à encarnação da
Palavra e ao seu cumprimento: «Reconheceis que o espírito é de Deus por isto:
todo o espírito que confessa Jesus Cristo que veio em carne mortal é de Deus».
(1 Jo 4, 2). O critério da realidade, duma Palavra já encarnada e sempre
procurando encarnar-se, é essencial à evangelização. Por um lado, leva-nos a
valorizar a história da Igreja como história de salvação, a recordar os nossos
Santos que inculturaram o Evangelho na vida dos nossos povos, a recolher a
rica tradição bimilenária da Igreja, sem pretender elaborar um pensamento
desligado deste tesouro como se quiséssemos inventar o Evangelho. Por outro
lado, este critério impele-nos a pôr em prática a Palavra, a realizar obras de
justiça e caridade nas quais se torne fecunda esta Palavra. Não pôr em prática,
não levar à realidade a Palavra é construir sobre a areia, permanecer na pura
ideia e degenerar em intimismos e gnosticismos que não dão fruto, que
esterilizam o seu dinamismo.
O todo é superior à parte
234. Entre a globalização e a localização também se gera uma tensão. É
preciso prestar atenção à dimensão global para não cair numa mesquinha
quotidianidade. Ao mesmo tempo convém não perder de vista o que é local, que
nos faz caminhar com os pés por terra. As duas coisas unidas impedem de cair
em algum destes dois extremos: o primeiro, que os cidadãos vivam num
universalismo abstracto e globalizante, miméticos passageiros do carro de
apoio, admirando os fogos de artifício do mundo, que é de outros, com a boca
aberta e aplausos programados; o outro extremo é que se transformem num
museu folclórico de eremitas localistas, condenados a repetir sempre as
mesmas coisas, incapazes de se deixar interpelar pelo que é diverso e de
apreciar a beleza que Deus espalha fora das suas fronteiras.
235. O todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma
delas. Portanto, não se deve viver demasiado obcecados por questões limitadas
e particulares. É preciso alargar sempre o olhar para reconhecer um bem maior
que trará benefícios a todos nós. Mas há que o fazer sem se evadir nem se
desenraizar. É necessário mergulhar as raízes na terra fértil e na história do
próprio lugar, que é um dom de Deus. Trabalha-se no pequeno, no que está
próximo, mas com uma perspectiva mais ampla. Da mesma forma, uma pessoa
que conserva a sua peculiaridade pessoal e não esconde a sua identidade,
quando se integra cordialmente numa comunidade não se aniquila, mas recebe
sempre novos estímulos para o seu próprio desenvolvimento. Não é a esfera
global que aniquila, nem a parte isolada que esteriliza.
236. Aqui o modelo não é a esfera, pois não é superior às partes e, nela, cada
ponto é equidistante do centro, não havendo diferenças entre um ponto e o
outro. O modelo é o poliedro, que reflecte a confluência de todas as partes que
nele mantêm a sua originalidade. Tanto a acção pastoral como a acção política
procuram reunir nesse poliedro o melhor de cada um. Ali entram os pobres com
a sua cultura, os seus projectos e as suas próprias potencialidades. Até mesmo
as pessoas que possam ser criticadas pelos seus erros, têm algo a oferecer que
não se deve perder. É a união dos povos, que, na ordem universal, conservam a
sua própria peculiaridade; é a totalidade das pessoas numa sociedade que
procura um bem comum que verdadeiramente incorpore a todos.
237. A nós, cristãos, este princípio fala-nos também da totalidade ou integridade
do Evangelho que a Igreja nos transmite e envia a pregar. A sua riqueza plena
incorpora académicos e operários, empresários e artistas, incorpora todos. A
«mística popular» acolhe, a seu modo, o Evangelho inteiro e encarna-o em
expressões de oração, de fraternidade, de justiça, de luta e de festa. A Boa
Nova é a alegria dum Pai que não quer que se perca nenhum dos seus
pequeninos. Assim nasce a alegria no Bom Pastor que encontra a ovelha
perdida e a reintegra no seu rebanho. O Evangelho é fermento que leveda toda
a massa e cidade que brilha no cimo do monte, iluminando todos os povos. O
Evangelho possui um critério de totalidade que lhe é intrínseco: não cessa de
ser Boa Nova enquanto não for anunciado a todos, enquanto não fecundar e
curar todas as dimensões do homem, enquanto não unir todos os homens à
volta da mesa do Reino. O todo é superior à parte.
4. O diálogo social como contribuição para a paz
238. A evangelização implica também um caminho de diálogo. Neste momento,
existem sobretudo três campos de diálogo onde a Igreja deve estar presente,
cumprindo um serviço a favor do pleno desenvolvimento do ser humano e
procurando o bem comum: o diálogo com os Estados, com a sociedade – que
inclui o diálogo com as culturas e as ciências – e com os outros crentes que não
fazem parte da Igreja Católica. Em todos os casos, «a Igreja fala a partir da luz
que a fé lhe dá», oferece a sua experiência de dois mil anos e conserva sempre
na memória as vidas e sofrimentos dos seres humanos. Isto ultrapassa a razão
humana, mas também tem um significado que pode enriquecer a quantos não
crêem e convida a razão a alargar as suas perspectivas.
239. A Igreja proclama o «evangelho da paz» (Ef 6, 15) e está aberta à
colaboração com todas as autoridades nacionais e internacionais para cuidar
deste bem universal tão grande. Ao anunciar Jesus Cristo, que é a paz em
pessoa (cf. Ef 2, 14), a nova evangelização incentiva todo o baptizado a ser
instrumento de pacificação e testemunha credível duma vida reconciliada. É
hora de saber como projectar, numa cultura que privilegie o diálogo como forma
de encontro, a busca de consenso e de acordos mas sem a separar da
preocupação por uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões. O
autor principal, o sujeito histórico deste processo, é a gente e a sua cultura, não
uma classe, uma fracção, um grupo, uma elite. Não precisamos de um projecto
de poucos para poucos, ou de uma minoria esclarecida ou testemunhal que se
aproprie de um sentimento colectivo. Trata-se de um acordo para viver juntos,
de um pacto social e cultural.
240. O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade compete ao Estado.
Este, com base nos princípios de subsidiariedade e solidariedade e com um
grande esforço de diálogo político e criação de consensos, desempenha um
papel fundamental – que não pode ser delegado – na busca do
desenvolvimento integral de todos. Este papel exige, nas circunstâncias actuais,
uma profunda humildade social.
241. No diálogo com o Estado e com a sociedade, a Igreja não tem soluções
para todas as questões específicas. Mas, juntamente com as várias forças
sociais, acompanha as propostas que melhor correspondam à dignidade da
pessoa humana e ao bem comum. Ao fazê-lo, propõe sempre com clareza os
valores fundamentais da existência humana, para transmitir convicções que
possam depois traduzir-se em acções políticas.
O diálogo entre a fé, a razão e as ciências
242. O diálogo entre ciência e fé também faz parte da acção evangelizadora que
favorece a paz. O cientificismo e o positivismo recusam-se a «admitir, como
válidas, formas de conhecimento distintas daquelas que são próprias das
ciências positivas». A Igreja propõe outro caminho, que exige uma síntese entre
um uso responsável das metodologias próprias das ciências empíricas e os
outros saberes como a filosofia, a teologia, e a própria fé que eleva o ser
humano até ao mistério que transcende a natureza e a inteligência humana. A fé
não tem medo da razão; pelo contrário, procura-a e tem confiança nela, porque
«a luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus», e não se podem
contradizer entre si. A evangelização está atenta aos progressos científicos para
os iluminar com a luz da fé e da lei natural, tendo em vista procurar que sempre
respeitem a centralidade e o valor supremo da pessoa humana em todas as
fases da sua existência. Toda a sociedade pode ser enriquecida através deste
diálogo que abre novos horizontes ao pensamento e amplia as possibilidades da
razão. Também este é um caminho de harmonia e pacificação.
243. A Igreja não pretende deter o progresso admirável das ciências. Pelo
contrário, alegra-se e inclusivamente desfruta reconhecendo o enorme potencial
que Deus deu à mente humana. Quando o progresso das ciências, mantendose
com rigor académico no campo do seu objecto específico, torna evidente
uma determinada conclusão que a razão não pode negar, a fé não a contradiz.
Nem os crentes podem pretender que uma opinião científica que lhes agrada –
e que nem sequer foi suficientemente comprovada – adquira o peso dum dogma
de fé. Em certas ocasiões, porém, alguns cientistas vão mais além do objecto
formal da sua disciplina e exageram com afirmações ou conclusões que
extravasam o campo da própria ciência. Neste caso, não é a razão que se
propõe, mas uma determinada ideologia que fecha o caminho a um diálogo
autêntico, pacífico e frutuoso.
O diálogo ecuménico
244. O compromisso ecuménico corresponde à oração do Senhor Jesus
pedindo «que todos sejam um só» (Jo 17, 21). A credibilidade do anúncio cristão
seria muito maior, se os cristãos superassem as suas divisões e a Igreja
realizasse «a plenitude da catolicidade que lhe é própria naqueles filhos que,
embora incorporados pelo Baptismo, estão separados da sua plena comunhão».
Devemos sempre lembrar-nos de que somos peregrinos, e peregrinamos juntos.
Para isso, devemos abrir o coração ao companheiro de estrada sem medos
nem desconfianças, e olhar primariamente para o que procuramos: a paz no
rosto do único Deus. O abrir-se ao outro tem algo de artesanal, a paz é
artesanal. Jesus disse-nos: «Felizes os pacificadores» (Mt 5, 9). Neste esforço,
mesmo entre nós, cumpre-se a antiga profecia: «Transformarão as suas
espadas em relhas de arado» (Is 2, 4).
245. Sob esta luz, o ecumenismo é uma contribuição para a unidade da família
humana. A presença no Sínodo do Patriarca de Constantinopla, Sua Santidade
Bartolomeu I, e do Arcebispo de Cantuária, Sua Graça Rowan Douglas
Williams, foi um verdadeiro dom de Deus e um precioso testemunho cristão.
246. Dada a gravidade do contra-testemunho da divisão entre cristãos,
sobretudo na Ásia e na África, torna-se urgente a busca de caminhos de
unidade. Os missionários, nesses continentes, referem repetidamente as
críticas, queixas e sarcasmos que recebem por causa do escândalo dos cristãos
divididos. Se nos concentrarmos nas convicções que nos unem e recordarmos o
princípio da hierarquia das verdades, poderemos caminhar decididamente para
formas comuns de anúncio, de serviço e de testemunho. A imensa multidão que
não recebeu o anúncio de Jesus Cristo não pode deixar-nos indiferentes. Por
isso, o esforço por uma unidade que facilite a recepção de Jesus Cristo deixa de
ser mera diplomacia ou um dever forçado para se transformar num caminho
imprescindível da evangelização. Os sinais de divisão entre cristãos, em países
que já estão dilacerados pela violência, juntam outros motivos de conflito vindos
da parte de quem deveria ser um activo fermento de paz. São tantas e tão
valiosas as coisas que nos unem! E, se realmente acreditamos na acção livre e
generosa do Espírito, quantas coisas podemos aprender uns dos outros! Não se
trata apenas de receber informações sobre os outros para os conhecermos
melhor, mas de recolher o que o Espírito semeou neles como um dom também
para nós. Só para dar um exemplo, no diálogo com os irmãos ortodoxos, nós, os
católicos, temos a possibilidade de aprender algo mais sobre o significado da
colegialidade episcopal e sobre a sua experiência da sinodalidade. Através dum
intercâmbio de dons, o Espírito pode conduzir-nos cada vez mais para a
verdade e o bem.
As relações com o Judaísmo
247. Um olhar muito especial é dirigido ao povo judeu, cuja Aliança com Deus
nunca foi revogada, porque «os dons e o chamamento de Deus são
irrevogáveis» (Rm 11, 29). A Igreja, que partilha com o Judaísmo uma parte
importante das Escrituras Sagradas, considera o povo da Aliança e a sua fé
como uma raiz sagrada da própria identidade cristã (cf. Rm 11, 16-18). Como
cristãos, não podemos considerar o Judaísmo como uma religião alheia, nem
incluímos os judeus entre quantos são chamados a deixar os ídolos para se
converter ao verdadeiro Deus (cf. 1 Ts 1, 9). Juntamente com eles, acreditamos
no único Deus que actua na história, e acolhemos, com eles, a Palavra revelada
comum.
248. O diálogo e a amizade com os filhos de Israel fazem parte da vida dos
discípulos de Jesus. O afecto que se desenvolveu leva-nos a lamentar, sincera
e amargamente, as terríveis perseguições de que foram e são objecto,
particularmente aquelas que envolvem ou envolveram cristãos.
249. Deus continua a operar no povo da Primeira Aliança e faz nascer tesouros
de sabedoria que brotam do seu encontro com a Palavra divina. Por isso, a
Igreja também se enriquece quando recolhe os valores do Judaísmo. Embora
algumas convicções cristãs sejam inaceitáveis para o Judaísmo e a Igreja não
possa deixar de anunciar Jesus como Senhor e Messias, há uma rica
complementaridade que nos permite ler juntos os textos da Bíblia hebraica e
ajudar-nos mutuamente a desentranhar as riquezas da Palavra, bem como
compartilhar muitas convicções éticas e a preocupação comum pela justiça e o
desenvolvimento dos povos.
O diálogo inter-religioso
250. Uma atitude de abertura na verdade e no amor deve caracterizar o diálogo
com os crentes das religiões não-cristãs, apesar dos vários obstáculos e
dificuldades, de modo particular os fundamentalismos de ambos os lados. Este
diálogo inter-religioso é uma condição necessária para a paz no mundo e, por
conseguinte, é um dever para os cristãos e também para outras comunidades
religiosas. Este diálogo é, em primeiro lugar, uma conversa sobre a vida
humana ou simplesmente – como propõem os Bispos da Índia – «estar aberto a
eles, compartilhando as suas alegrias e penas». Assim aprendemos a aceitar os
outros, na sua maneira diferente de ser, de pensar e de se exprimir. Com este
método, poderemos assumir juntos o dever de servir a justiça e a paz, que
deverá tornar-se um critério básico de todo o intercâmbio. Um diálogo, no qual
se procurem a paz e a justiça social, é em si mesmo, para além do aspecto
meramente pragmático, um compromisso ético que cria novas condições
sociais. Os esforços à volta dum tema específico podem transformar-se num
processo em que, através da escuta do outro, ambas as partes encontram
purificação e enriquecimento. Portanto, estes esforços também podem ter o
significado de amor à verdade.
251. Neste diálogo, sempre amável e cordial, nunca se deve descuidar o vínculo
essencial entre diálogo e anúncio, que leva a Igreja a manter e intensificar as
relações com os não-cristãos. Um sincretismo conciliador seria, no fundo, um
totalitarismo de quantos pretendem conciliar prescindindo de valores que os
transcendem e dos quais não são donos. A verdadeira abertura implica
conservar-se firme nas próprias convicções mais profundas, com uma
identidade clara e feliz, mas «disponível para compreender as do outro» e
«sabendo que o diálogo pode enriquecer a ambos». Não nos serve uma
abertura diplomática que diga sim a tudo para evitar problemas, porque seria um
modo de enganar o outro e negar-lhe o bem que se recebeu como um dom para
partilhar com generosidade. Longe de se contraporem, a evangelização e o
diálogo inter-religioso apoiam-se e alimentam-se reciprocamente.
252. Neste tempo, adquire grande importância a relação com os crentes do
Islão, hoje particularmente presentes em muitos países de tradição cristã, onde
podem celebrar livremente o seu culto e viver integrados na sociedade. Não se
deve jamais esquecer que eles «professam seguir a fé de Abraão, e connosco
adoram o Deus único e misericordioso, que há-de julgar os homens no último
dia». Os escritos sagrados do Islão conservam parte dos ensinamentos cristãos;
Jesus Cristo e Maria são objecto de profunda veneração e é admirável ver como
jovens e idosos, mulheres e homens do Islão são capazes de dedicar
diariamente tempo à oração e participar fielmente nos seus ritos religiosos. Ao
mesmo tempo, muitos deles têm uma profunda convicção de que a própria vida,
na sua totalidade, é de Deus e para Deus. Reconhecem também a necessidade
de Lhe responder com um compromisso ético e com a misericórdia para com os
mais pobres.
253. Para sustentar o diálogo com o Islão é indispensável a adequada formação
dos interlocutores, não só para que estejam sólida e jubilosamente radicados na
sua identidade, mas também para que sejam capazes de reconhecer os valores
dos outros, compreender as preocupações que subjazem às suas
reivindicações e fazer aparecer as convicções comuns. Nós, cristãos,
deveríamos acolher com afecto e respeito os imigrantes do Islão que chegam
aos nossos países, tal como esperamos e pedimos para ser acolhidos e
respeitados nos países de tradição islâmica. Rogo, imploro humildemente a
esses países que assegurem liberdade aos cristãos para poderem celebrar o
seu culto e viver a sua fé, tendo em conta a liberdade que os crentes do Islão
gozam nos países ocidentais. Frente a episódios de fundamentalismo violento
que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos
a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação
adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.
254. Os não-cristãos fiéis à sua consciência podem, por gratuita iniciativa divina,
viver «justificados por meio da graça de Deus» e, assim, «associados ao
mistério pascal de Jesus Cristo». Devido, porém, à dimensão sacramental da
graça santificante, a acção divina neles tende a produzir sinais, ritos,
expressões sagradas que, por sua vez, envolvem outros numa experiência
comunitária do caminho para Deus. Não têm o significado e a eficácia dos
Sacramentos instituídos por Cristo, mas podem ser canais que o próprio Espírito
suscita para libertar os não-cristãos do imanentismo ateu ou de experiências
religiosas meramente individuais. O mesmo Espírito suscita por toda a parte
diferentes formas de sabedoria prática que ajudam a suportar as carências da
vida e a viver com mais paz e harmonia. Nós, cristãos, podemos tirar proveito
também desta riqueza consolidada ao longo dos séculos, que nos pode ajudar a
viver melhor as nossas próprias convicções.
O diálogo social num contexto de liberdade religiosa
255. Os Padres sinodais lembraram a importância do respeito pela liberdade
religiosa, considerada um direito humano fundamental. Inclui «a liberdade de
escolher a religião que se crê ser verdadeira e de manifestar publicamente a
própria crença». Um são pluralismo, que respeite verdadeiramente aqueles que
pensam diferente e os valorizem como tais, não implica uma privatização das
religiões, com a pretensão de as reduzir ao silêncio e à obscuridade da
consciência de cada um ou à sua marginalização no recinto fechado das igrejas,
sinagogas ou mesquitas. Tratar-se-ia, em definitivo, de uma nova forma de
discriminação e autoritarismo. O respeito devido às minorias de agnósticos ou
de não-crentes não se deve impor de maneira arbitrária que silencie as
convicções de maiorias crentes ou ignore a riqueza das tradições religiosas. No
fundo, isso fomentaria mais o ressentimento do que a tolerância e a paz.
256. Ao questionar-se sobre a incidência pública da religião, é preciso distinguir
diferentes modos de a viver. Tanto os intelectuais como os jornalistas caem,
frequentemente, em generalizações grosseiras e pouco académicas, quando
falam dos defeitos das religiões e, muitas vezes, não são capazes de distinguir
que nem todos os crentes – nem todos os líderes religiosos – são iguais. Alguns
políticos aproveitam esta confusão para justificar acções discriminatórias.
Outras vezes, desprezam-se os escritos que surgiram no âmbito duma
convicção crente, esquecendo que os textos religiosos clássicos podem
oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora
que abre sempre novos horizontes, estimula o pensamento, engrandece a
mente e a sensibilidade. São desprezados pela miopia dos racionalismos. Será
razoável e inteligente relegá-los para a obscuridade, só porque nasceram no
contexto duma crença religiosa? Contêm princípios profundamente humanistas
que possuem um valor racional, apesar de estarem permeados de símbolos e
doutrinas religiosos.
257. Como crentes, sentimo-nos próximo também de todos aqueles que, não se
reconhecendo parte de qualquer tradição religiosa, buscam sinceramente a
verdade, a bondade e a beleza, que, para nós, têm a sua máxima expressão e a
sua fonte em Deus. Sentimo-los como preciosos aliados no compromisso pela
defesa da dignidade humana, na construção duma convivência pacífica entre os
povos e na guarda da criação. Um espaço peculiar é o dos chamados novos
Areópagos, como o «Átrio dos Gentios», onde «crentes e não-crentes podem
dialogar sobre os temas fundamentais da ética, da arte e da ciência, e sobre a
busca da transcendência». Também este é um caminho de paz para o nosso
mundo ferido.
258. A partir de alguns temas sociais, importantes para o futuro da humanidade,
procurei explicitar uma vez mais a incontornável dimensão social do anúncio do
Evangelho, para encorajar todos os cristãos a manifestá-la sempre nas suas
palavras, atitudes e acções.
Capítulo VEVANGELIZADORES COM ESPÍRITO
259. Evangelizadores com espírito quer dizer evangelizadores que se abrem
sem medo à acção do Espírito Santo. No Pentecostes, o Espírito faz os
Apóstolos saírem de si mesmos e transforma-os em anunciadores das
maravilhas de Deus, que cada um começa a entender na própria língua. Além
disso, o Espírito Santo infunde a força para anunciar a novidade do Evangelho
com ousadia (parresia), em voz alta e em todo o tempo e lugar, mesmo contracorrente.
Invoquemo-Lo hoje, bem apoiados na oração, sem a qual toda a acção
corre o risco de ficar vã e o anúncio, no fim de contas, carece de alma. Jesus
quer evangelizadores que anunciem a Boa Nova, não só com palavras mas
sobretudo com uma vida transfigurada pela presença de Deus.
260. Neste último capítulo, não vou oferecer uma síntese da espiritualidade
cristã, nem desenvolverei grandes temas como a oração, a adoração eucarística
ou a celebração da fé, sobre os quais já possuímos preciosos textos do
Magistério e escritos célebres de grandes autores. Não pretendo substituir nem
superar tanta riqueza. Limitar-me-ei simplesmente a propor algumas reflexões
acerca do espírito da nova evangelização.
261. Quando se diz de uma realidade que tem «espírito», indica-se
habitualmente uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à
acção pessoal e comunitária. Uma evangelização com espírito é muito diferente
de um conjunto de tarefas vividas como uma obrigação pesada, que quase não
se tolera ou se suporta como algo que contradiz as nossas próprias inclinações
e desejos. Como gostaria de encontrar palavras para encorajar uma estação
evangelizadora mais ardorosa, alegre, generosa, ousada, cheia de amor até ao
fim e feita de vida contagiante! Mas sei que nenhuma motivação será suficiente,
se não arde nos corações o fogo do Espírito. Em suma, uma evangelização com
espírito é uma evangelização com o Espírito Santo, já que Ele é a alma da
Igreja evangelizadora. Antes de propor algumas motivações e sugestões
espirituais, invoco uma vez mais o Espírito Santo; peço-Lhe que venha renovar,
sacudir, impelir a Igreja numa decidida saída para fora de si mesma a fim de
evangelizar todos os povos.
1. Motivações para um renovado impulso missionário
262. Evangelizadores com espírito quer dizer evangelizadores que rezam e
trabalham. Do ponto de vista da evangelização, não servem as propostas
místicas desprovidas de um vigoroso compromisso social e missionário, nem os
discursos e acções sociais e pastorais sem uma espiritualidade que transforme
o coração. Estas propostas parciais e desagregadoras alcançam só pequenos
grupos e não têm força de ampla penetração, porque mutilam o Evangelho. É
preciso cultivar sempre um espaço interior que dê sentido cristão ao
compromisso e à actividade. Sem momentos prolongados de adoração, de
encontro orante com a Palavra, de diálogo sincero com o Senhor, as tarefas
facilmente se esvaziam de significado, quebrantamo-nos com o cansaço e as
dificuldades, e o ardor apaga-se. A Igreja não pode dispensar o pulmão da
oração, e alegra-me imenso que se multipliquem, em todas as instituições
eclesiais, os grupos de oração, de intercessão, de leitura orante da Palavra, as
adorações perpétuas da Eucaristia. Ao mesmo tempo, «há que rejeitar a
tentação duma espiritualidade intimista e individualista, que dificilmente se
coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da encarnação». Há o
risco de que alguns momentos de oração se tornem uma desculpa para evitar
de dedicar a vida à missão, porque a privatização do estilo de vida pode levar os
cristãos a refugiarem-se nalguma falsa espiritualidade.
263. É salutar recordar-se dos primeiros cristãos e de tantos irmãos ao longo da
história que se mantiveram transbordantes de alegria, cheios de coragem,
incansáveis no anúncio e capazes de uma grande resistência activa. Há quem
se console, dizendo que hoje é mais difícil; temos, porém, de reconhecer que o
contexto do Império Romano não era favorável ao anúncio do Evangelho, nem à
luta pela justiça, nem à defesa da dignidade humana. Em cada momento da
história, estão presentes a fraqueza humana, a busca doentia de si mesmo, a
comodidade egoísta e, enfim, a concupiscência que nos ameaça a todos. Isto
está sempre presente, sob uma roupagem ou outra; deriva mais da limitação
humana que das circunstâncias. Por isso, não digamos que hoje é mais difícil; é
diferente. Em vez disso, aprendamos com os Santos que nos precederam e
enfrentaram as dificuldades próprias do seu tempo. Com esta finalidade,
proponho-vos que nos detenhamos a recuperar algumas motivações que nos
ajudem a imitá-los nos nossos dias.
O encontro pessoal com o amor de Jesus que nos salva
264. A primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus,
aquela experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez
mais. Com efeito, um amor que não sentisse a necessidade de falar da pessoa
amada, de a apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria? Se não
sentimos o desejo intenso de comunicar Jesus, precisamos de nos deter em
oração para Lhe pedir que volte a cativar-nos. Precisamos de o implorar cada
dia, pedir a sua graça para que abra o nosso coração frio e sacuda a nossa vida
tíbia e superficial. Colocados diante d’Ele com o coração aberto, deixando que
Ele nos olhe, reconhecemos aquele olhar de amor que descobriu Natanael no
dia em que Jesus Se fez presente e lhe disse: «Eu vi-te, quando estavas
debaixo da figueira!» (Jo 1, 48). Como é doce permanecer diante dum crucifixo
ou de joelhos diante do Santíssimo Sacramento, e fazê-lo simplesmente para
estar à frente dos seus olhos! Como nos faz bem deixar que Ele volte a tocar a
nossa vida e nos envie para comunicar a sua vida nova! Sucede então que, em
última análise, «o que nós vimos e ouvimos, isso anunciamos» (1 Jo 1, 3). A
melhor motivação para se decidir a comunicar o Evangelho é contemplá-lo com
amor, é deter-se nas suas páginas e lê-lo com o coração. Se o abordamos desta
maneira, a sua beleza deslumbra-nos, volta a cativar-nos vezes sem conta. Por
isso, é urgente recuperar um espírito contemplativo, que nos permita
redescobrir, cada dia, que somos depositários dum bem que humaniza, que
ajuda a levar uma vida nova. Não há nada de melhor para transmitir aos outros.
265. Toda a vida de Jesus, a sua forma de tratar os pobres, os seus gestos, a
sua coerência, a sua generosidade simples e quotidiana e, finalmente, a sua
total dedicação, tudo é precioso e fala à nossa vida pessoal. Todas as vezes
que alguém volta a descobri-lo, convence-se de que é isso mesmo o que os
outros precisam, embora não o saibam: «Aquele que venerais sem O conhecer,
é Esse que eu vos anuncio» (Act 17, 23). Às vezes perdemos o entusiasmo pela
missão, porque esquecemos que o Evangelho dá resposta às necessidades
mais profundas das pessoas, porque todos fomos criados para aquilo que o
Evangelho nos propõe: a amizade com Jesus e o amor fraterno. Quando se
consegue exprimir, de forma adequada e bela, o conteúdo essencial do
Evangelho, de certeza que essa mensagem fala aos anseios mais profundos do
coração: «O missionário está convencido de que existe já, nas pessoas e nos
povos, pela acção do Espírito, uma ânsia – mesmo se inconsciente – de
conhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do caminho que conduz à
liberação do pecado e da morte. O entusiasmo posto no anúncio de Cristo
deriva da convicção de responder a tal ânsia».
O entusiasmo na evangelização funda-se nesta convicção. Temos à disposição
um tesouro de vida e de amor que não pode enganar, a mensagem que não
pode manipular nem desiludir. É uma resposta que desce ao mais fundo do ser
humano e pode sustentá-lo e elevá-lo. É a verdade que não passa de moda,
porque é capaz de penetrar onde nada mais pode chegar. A nossa tristeza
infinita só se cura com um amor infinito.
266. Esta convicção, porém, é sustentada com a experiência pessoal,
constantemente renovada, de saborear a sua amizade e a sua mensagem. Não
se pode perseverar numa evangelização cheia de ardor, se não se está
convencido, por experiência própria, que não é a mesma coisa ter conhecido
Jesus ou não O conhecer, não é a mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar
tacteando, não é a mesma coisa poder escutá-Lo ou ignorar a sua Palavra, não
é a mesma coisa poder contemplá-Lo, adorá-Lo, descansar n’Ele ou não o
poder fazer. Não é a mesma coisa procurar construir o mundo com o seu
Evangelho em vez de o fazer unicamente com a própria razão. Sabemos bem
que a vida com Jesus se torna muito mais plena e, com Ele, é mais fácil
encontrar o sentido para cada coisa. É por isso que evangelizamos. O
verdadeiro missionário, que não deixa jamais de ser discípulo, sabe que Jesus
caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus
vivo com ele, no meio da tarefa missionária. Se uma pessoa não O descobre
presente no coração mesmo da entrega missionária, depressa perde o
entusiasmo e deixa de estar seguro do que transmite, faltam-lhe força e paixão.
E uma pessoa que não está convencida, entusiasmada, segura, enamorada,
não convence ninguém.
267. Unidos a Jesus, procuramos o que Ele procura, amamos o que Ele ama.
Em última instância, o que procuramos é a glória do Pai, vivemos e agimos
«para que seja prestado louvor à glória da sua graça» (Ef 1, 6). Se queremos
entregar-nos a sério e com perseverança, esta motivação deve superar toda e
qualquer outra. O movente definitivo, o mais profundo, o maior, a razão e o
sentido último de tudo o resto é este: a glória do Pai que Jesus procurou durante
toda a sua existência. Ele é o Filho eternamente feliz, com todo o seu ser «no
seio do Pai» (Jo 1, 18). Se somos missionários, antes de tudo é porque Jesus
nos disse: «A glória do meu Pai [consiste] em que deis muito fruto» (Jo 15, 8).
Independentemente de que nos convenha, interesse, aproveite ou não, para
além dos estreitos limites dos nossos desejos, da nossa compreensão e das
nossas motivações, evangelizamos para a maior glória do Pai que nos ama.
O prazer espiritual de ser povo
268. A Palavra de Deus convida-nos também a reconhecer que somos povo:
«Vós que outrora não éreis um povo, agora sois povo de Deus» (1 Pd 2, 10).
Para ser evangelizadores com espírito é preciso também desenvolver o prazer
espiritual de estar próximo da vida das pessoas, até chegar a descobrir que isto
se torna fonte duma alegria superior. A missão é uma paixão por Jesus, e
simultaneamente uma paixão pelo seu povo. Quando paramos diante de Jesus
crucificado, reconhecemos todo o seu amor que nos dignifica e sustenta, mas lá
também, se não formos cegos, começamos a perceber que este olhar de Jesus
se alonga e dirige, cheio de afecto e ardor, a todo o seu povo. Lá descobrimos
novamente que Ele quer servir-Se de nós para chegar cada vez mais perto do
seu povo amado. Toma-nos do meio do povo e envia-nos ao povo, de tal modo
que a nossa identidade não se compreende sem esta pertença.
269. O próprio Jesus é o modelo desta opção evangelizadora que nos introduz
no coração do povo. Como nos faz bem vê-Lo perto de todos! Se falava com
alguém, fitava os seus olhos com uma profunda solicitude cheia de amor:
«Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele» (Mc 10, 21). Vemo-Lo
disponível ao encontro, quando manda aproximar-se o cego do caminho (cf. Mc
10, 46-52) e quando come e bebe com os pecadores (cf. Mc 2, 16), sem Se
importar que O chamem de glutão e beberrão (cf. Mt 11, 19). Vemo-Lo
disponível, quando deixa uma prostituta ungir-Lhe os pés (cf. Lc 7, 36-50) ou
quando recebe, de noite, Nicodemos (cf. Jo 3, 1-21). A entrega de Jesus na cruz
é apenas o culminar deste estilo que marcou toda a sua vida. Fascinados por
este modelo, queremos inserir-nos a fundo na sociedade, partilhamos a vida
com todos, ouvimos as suas preocupações, colaboramos material e
espiritualmente nas suas necessidades, alegramo-nos com os que estão
alegres, choramos com os que choram e comprometemo-nos na construção de
um mundo novo, lado a lado com os outros. Mas não por obrigação, nem como
um peso que nos desgasta, mas como uma opção pessoal que nos enche de
alegria e nos dá uma identidade.
270. Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente
distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria
humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos
a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos
à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente
entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da
ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente e
vivemos a intensa experiência de ser povo, a experiência de pertencer a um
povo.
271. É verdade que, na nossa relação com o mundo, somos convidados a dar
razão da nossa esperança, mas não como inimigos que apontam o dedo e
condenam. A advertência é muito clara: fazei-o «com mansidão e respeito» (1
Pd 3, 16) e «tanto quanto for possível e de vós dependa, vivei em paz com
todos os homens» (Rm 12, 18). E somos incentivados também a vencer «o mal
com o bem» (Rm 12, 21), sem nos cansarmos de «fazer o bem» (Gal 6, 9) e
sem pretendermos aparecer como superiores, antes «considerai os outros
superiores a vós próprios» (Fl 2, 3). Na realidade, os Apóstolos do Senhor
«tinham a simpatia de todo o povo» (Act 2, 47; cf. 4, 21.33; 5, 13). Está claro
que Jesus não nos quer como príncipes que olham desdenhosamente, mas
como homens e mulheres do povo. Esta não é a opinião de um Papa, nem uma
opção pastoral entre várias possíveis; são indicações da Palavra de Deus tão
claras, directas e contundentes, que não precisam de interpretações que as
despojariam da sua força interpeladora. Vivamo-las sine glossa, sem
comentários. Assim, experimentaremos a alegria missionária de partilhar a vida
com o povo fiel de Deus, procurando acender o fogo no coração do mundo.
272. O amor às pessoas é uma força espiritual que favorece o encontro em
plenitude com Deus, a ponto de se dizer, de quem não ama o irmão, que «está
nas trevas e nas trevas caminha» (1 Jo 2, 11), «permanece na morte» (1 Jo 3,
14) e «não chegou a conhecer a Deus» (1 Jo 4, 8). Bento XVI disse que «fechar
os olhos diante do próximo torna cegos também diante de Deus», e que o amor
é fundamentalmente a única luz que «ilumina incessantemente um mundo às
escuras e nos dá a coragem de viver e agir». Portanto, quando vivemos a
mística de nos aproximar dos outros com a intenção de procurar o seu bem,
ampliamos o nosso interior para receber os mais belos dons do Senhor. Cada
vez que nos encontramos com um ser humano no amor, ficamos capazes de
descobrir algo de novo sobre Deus. Cada vez que os nossos olhos se abrem
para reconhecer o outro, ilumina-se mais a nossa fé para reconhecer a Deus.
Em consequência disto, se queremos crescer na vida espiritual, não podemos
renunciar a ser missionários. A tarefa da evangelização enriquece a mente e o
coração, abre-nos horizontes espirituais, torna-nos mais sensíveis para
reconhecer a acção do Espírito, faz-nos sair dos nossos esquemas espirituais
limitados. Ao mesmo tempo, um missionário plenamente devotado ao seu
trabalho experimenta o prazer de ser um manancial que transborda e refresca
os outros. Só pode ser missionário quem se sente bem procurando o bem do
próximo, desejando a felicidade dos outros. Esta abertura do coração é fonte de
felicidade, porque «a felicidade está mais em dar do que em receber» (Act 20,
35). Não se vive melhor fugindo dos outros, escondendo-se, negando-se a
partilhar, resistindo a dar, fechando-se na comodidade. Isto não é senão um
lento suicídio.
273. A missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou um
ornamento que posso pôr de lado; não é um apêndice ou um momento entre
tantos outros da minha vida. É algo que não posso arrancar do meu ser, se não
me quero destruir. Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste
mundo. É preciso considerarmo-nos como que marcados a fogo por esta missão
de iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar. Nisto se revela a
enfermeira autêntica , o professor autêntico, o político autêntico, aqueles que
decidiram, no mais íntimo do seu ser, estar com os outros e ser para os outros.
Mas, se uma pessoa coloca a tarefa dum lado e a vida privada do outro, tudo se
torna cinzento e viverá continuamente à procura de reconhecimentos ou
defendendo as suas próprias exigências. Deixará de ser povo.
274. Para partilhar a vida com a gente e dar-nos generosamente, precisamos de
reconhecer também que cada pessoa é digna da nossa dedicação. E não pelo
seu aspecto físico, suas capacidades, sua linguagem, sua mentalidade ou pelas
satisfações que nos pode dar, mas porque é obra de Deus, criatura sua. Ele
criou-a à sua imagem, e reflecte algo da sua glória. Cada ser humano é objecto
da ternura infinita do Senhor, e Ele mesmo habita na sua vida. Na cruz, Jesus
Cristo deu o seu sangue precioso por essa pessoa. Independentemente da
aparência, cada um é imensamente sagrado e merece o nosso afecto e a nossa
dedicação. Por isso, se consigo ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso já
justifica o dom da minha vida. É maravilhoso ser povo fiel de Deus. E ganhamos
plenitude, quando derrubamos os muros e o coração se enche de rostos e de
nomes!
A acção misteriosa do Ressuscitado e do seu Espírito
275. No terceiro capítulo, reflectimos sobre a carência de espiritualidade
profunda que se traduz no pessimismo, no fatalismo, na desconfiança. Algumas
pessoas não se dedicam à missão, porque crêem que nada pode mudar e
assim, segundo elas, é inútil esforçar-se. Pensam: «Para quê privar-me das
minhas comodidades e prazeres, se não vejo algum resultado importante?»
Com esta mentalidade, torna-se impossível ser missionário. Esta atitude é
precisamente uma desculpa maligna para continuar fechado na própria
comodidade, na preguiça, na tristeza insatisfeita, no vazio egoísta. Trata-se de
uma atitude autodestrutiva, porque «o homem não pode viver sem esperança: a
sua vida, condenada à insignificância, tornar-se-ia insuportável». No caso de
pensarmos que as coisas não vão mudar, recordemos que Jesus Cristo triunfou
sobre o pecado e a morte e possui todo o poder. Jesus Cristo vive
verdadeiramente. Caso contrário, «se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa
pregação» (1 Cor 15, 14). Diz-nos o Evangelho que, quando os primeiros
discípulos saíram a pregar, «o Senhor cooperava com eles, confirmando a
Palavra» (Mc 16, 20). E o mesmo acontece hoje. Somos convidados a descobrilo,
a vivê-lo. Cristo ressuscitado e glorioso é a fonte profunda da nossa
esperança, e não nos faltará a sua ajuda para cumprir a missão que nos confia.
276. A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que
penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o
lado os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual. É verdade que muitas
vezes parece que Deus não existe: vemos injustiças, maldades, indiferenças e
crueldades que não cedem. Mas também é certo que, no meio da obscuridade,
sempre começa a desabrochar algo de novo que, mais cedo ou mais tarde,
produz fruto. Num campo arrasado, volta a aparecer a vida, tenaz e invencível.
Haverá muitas coisas más, mas o bem sempre tende a reaparecer e espalharse.
Cada dia, no mundo, renasce a beleza, que ressuscita transformada através
dos dramas da história. Os valores tendem sempre a reaparecer sob novas
formas, e na realidade o ser humano renasceu muitas vezes de situações que
pareciam irreversíveis. Esta é a força da ressurreição, e cada evangelizador é
um instrumento deste dinamismo.
277. E continuamente aparecem também novas dificuldades, a experiência do
fracasso, as mesquinhices humanas que tanto ferem. Todos sabemos, por
experiência, que às vezes uma tarefa não nos dá as satisfações que
desejaríamos, os frutos são escassos e as mudanças são lentas, e vem-nos a
tentação de se dar por cansado. Todavia, não é a mesma coisa quando alguém,
por cansaço, baixa momentaneamente os braços e quando os baixa
definitivamente dominado por um descontentamento crónico, por uma acédia
que lhe mirra a alma. Pode acontecer que o coração se canse de lutar, porque,
em última análise, se busca a si mesmo num carreirismo sedento de
reconhecimentos, aplausos, prémios, promoções; então a pessoa não baixa os
braços, mas já não tem garra, carece de ressurreição. Assim, o Evangelho, que
é a mensagem mais bela que há neste mundo, fica sepultado sob muitas
desculpas.
278. A fé significa também acreditar n’Ele, acreditar que nos ama
verdadeiramente, que está vivo, que é capaz de intervir misteriosamente, que
não nos abandona, que tira bem do mal com o seu poder e a sua criatividade
infinita. Significa acreditar que Ele caminha vitorioso na história «e, com Ele,
estarão os chamados, os escolhidos, os fiéis» (Ap 17, 14). Acreditamos no
Evangelho que diz que o Reino de Deus já está presente no mundo, e vai-se
desenvolvendo-se aqui e além de várias maneiras: como a pequena semente
que pode chegar a transformar-se numa grande árvore (cf. Mt 13, 31-32), como
o punhado de fermento que leveda uma grande massa (cf. Mt 13, 33), e como a
boa semente que cresce no meio do joio (cf. Mt 13, 24-30) e sempre nos pode
surpreender positivamente: ei-la que aparece, vem outra vez, luta para florescer
de novo. A ressurreição de Cristo produz por toda a parte rebentos deste mundo
novo; e, ainda que os cortem, voltam a despontar, porque a ressurreição do
Senhor já penetrou a trama oculta desta história; porque Jesus não ressuscitou
em vão. Não fiquemos à margem desta marcha da esperança viva!
279. Como nem sempre vemos estes rebentos, precisamos de uma certeza
interior, ou seja, da convicção de que Deus pode actuar em qualquer
circunstância, mesmo no meio de aparentes fracassos, porque «trazemos este
tesouro em vasos de barro» (2 Cor 4, 7). Esta certeza é o que se chama
«sentido de mistério», que consiste em saber, com certeza, que a pessoa que
se oferece e entrega a Deus por amor, seguramente será fecunda (cf. Jo 15, 5).
Muitas vezes esta fecundidade é invisível, incontrolável, não pode ser
contabilizada. A pessoa sabe com certeza que a sua vida dará frutos, mas sem
pretender conhecer como, onde ou quando; está segura de que não se perde
nenhuma das suas obras feitas com amor, não se perde nenhuma das suas
preocupações sinceras com os outros, não se perde nenhum acto de amor a
Deus, não se perde nenhuma das suas generosas fadigas, não se perde
nenhuma dolorosa paciência. Tudo isto circula pelo mundo como uma força de
vida. Às vezes invade-nos a sensação de não termos obtido resultado algum
com os nossos esforços, mas a missão não é um negócio nem um projecto
empresarial, nem mesmo uma organização humanitária, não é um espectáculo
para que se possa contar quantas pessoas assistiram devido à nossa
propaganda. É algo de muito mais profundo, que escapa a toda e qualquer
medida. Talvez o Senhor Se sirva da nossa entrega para derramar bênçãos
noutro lugar do mundo, aonde nunca iremos. O Espírito Santo trabalha como
quer, quando quer e onde quer; e nós gastamo-nos com grande dedicação, mas
sem pretender ver resultados espectaculares. Sabemos apenas que o dom de
nós mesmos é necessário. No meio da nossa entrega criativa e generosa,
aprendamos a descansar na ternura dos braços do Pai. Continuemos para
diante, empenhemo-nos totalmente, mas deixemos que seja Ele a tornar
fecundos, como melhor Lhe parecer, os nossos esforços.
280. Para manter vivo o ardor missionário, é necessária uma decidida confiança
no Espírito Santo, porque Ele «vem em auxílio da nossa fraqueza» (Rm 8, 26).
Mas esta confiança generosa tem de ser alimentada e, para isso, precisamos de
O invocar constantemente. Ele pode curar-nos de tudo o que nos faz esmorecer
no compromisso missionário. É verdade que esta confiança no invisível pode
causar-nos alguma vertigem: é como mergulhar num mar onde não sabemos o
que vamos encontrar. Eu mesmo o experimentei tantas vezes. Mas não há
maior liberdade do que a de se deixar conduzir pelo Espírito, renunciando a
calcular e controlar tudo e permitindo que Ele nos ilumine, guie, dirija e
impulsione para onde Ele quiser. O Espírito Santo bem sabe o que faz falta em
cada época e em cada momento. A isto chama-se ser misteriosamente
fecundos!
A força missionária da intercessão
281. Há uma forma de oração que nos incentiva particularmente a gastarmo-nos
na evangelização e nos motiva a procurar o bem dos outros: é a intercessão.
Fixemos, por momentos, o íntimo dum grande evangelizador como São Paulo,
para perceber como era a sua oração. Esta estava repleta de seres humanos:
«Em todas as minhas orações, sempre peço com alegria por todos vós (...), pois
tenho-vos no coração» (Fl 1, 4.7). Descobrimos, assim, que interceder não nos
afasta da verdadeira contemplação, porque a contemplação que deixa de fora
os outros é uma farsa.
282. Esta atitude transforma-se também num agradecimento a Deus pelos
outros. «Antes de mais, dou graças ao meu Deus por todos vós, por meio de
Jesus Cristo» (Rm 1, 8). Trata-se de um agradecimento constante: «Dou
incessantemente graças ao meu Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi
concedida em Cristo Jesus» (1 Cor 1, 4); «todas as vezes que me lembro de
vós, dou graças ao meu Deus» (Fl 1, 3). Não é um olhar incrédulo, negativo e
sem esperança, mas uma visão espiritual, de fé profunda, que reconhece aquilo
que o próprio Deus faz neles. E, simultaneamente, é a gratidão que brota de um
coração verdadeiramente solícito pelos outros. Deste modo, quando um
evangelizador sai da oração, o seu coração tornou-se mais generoso, libertouse
da consciência isolada e está ansioso por fazer o bem e partilhar a vida com
os outros.
283. Os grandes homens e mulheres de Deus foram grandes intercessores. A
intercessão é como «fermento» no seio da Santíssima Trindade. É penetrarmos
no Pai e descobrirmos novas dimensões que iluminam as situações concretas e
as mudam. Poderíamos dizer que o coração de Deus se deixa comover pela
intercessão, mas na realidade Ele sempre nos antecipa, pelo que, com a nossa
intercessão, apenas possibilitamos que o seu poder, o seu amor e a sua
lealdade se manifestem mais claramente no povo.
2. Maria, a Mãe da evangelização
284. Juntamente com o Espírito Santo, sempre está Maria no meio do povo. Ela
reunia os discípulos para O invocarem (Act 1, 14), e assim tornou possível a
explosão missionária que se deu no Pentecostes. Ela é a Mãe da Igreja
evangelizadora e, sem Ela, não podemos compreender cabalmente o espírito da
nova evangelização.
O dom de Jesus ao seu povo
285. Na cruz, quando Cristo suportava em sua carne o dramático encontro entre
o pecado do mundo e a misericórdia divina, pôde ver a seus pés a presença
consoladora da Mãe e do amigo. Naquele momento crucial, antes de declarar
consumada a obra que o Pai Lhe havia confiado, Jesus disse a Maria: «Mulher,
eis o teu filho!» E, logo a seguir, disse ao amigo bem-amado: «Eis a tua mãe!»
(Jo 19, 26-27). Estas palavras de Jesus, no limiar da morte, não exprimem
primariamente uma terna preocupação por sua Mãe; mas são, antes, uma
fórmula de revelação que manifesta o mistério duma missão salvífica especial.
Jesus deixava-nos a sua Mãe como nossa Mãe. E só depois de fazer isto é que
Jesus pôde sentir que «tudo se consumara» (Jo 19, 28). Ao pé da cruz, na hora
suprema da nova criação, Cristo conduz-nos a Maria; conduz-nos a Ela, porque
não quer que caminhemos sem uma mãe; e, nesta imagem materna, o povo lê
todos os mistérios do Evangelho. Não é do agrado do Senhor que falte à sua
Igreja o ícone feminino. Ela, que O gerou com tanta fé, também acompanha «o
resto da sua descendência, isto é, os que observam os mandamentos de Deus
e guardam o testemunho de Jesus» (Ap 12, 17). Esta ligação íntima entre Maria,
a Igreja e cada fiel, enquanto de maneira diversa geram Cristo, foi
maravilhosamente expressa pelo Beato Isaac da Estrela: «Nas Escrituras
divinamente inspiradas, o que se atribui em geral à Igreja, Virgem e Mãe, aplicase
em especial à Virgem Maria (...). Alem disso, cada alma fiel é igualmente, a
seu modo, esposa do Verbo de Deus, mãe de Cristo, filha e irmã, virgem e mãe
fecunda. (...) No tabernáculo do ventre de Maria, Cristo habitou durante nove
meses; no tabernáculo da fé da Igreja, permanecerá até ao fim do mundo; no
conhecimento e amor da alma fiel habitará pelos séculos dos séculos».
286. Maria é aquela que sabe transformar um curral de animais na casa de
Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Ela é a serva
humilde do Pai, que transborda de alegria no louvor. É a amiga sempre solícita
para que não falte o vinho na nossa vida. É aquela que tem o coração
trespassado pela espada, que compreende todas as penas. Como Mãe de
todos, é sinal de esperança para os povos que sofrem as dores do parto até que
germine a justiça. Ela é a missionária que Se aproxima de nós, para nos
acompanhar ao longo da vida, abrindo os corações à fé com o seu afecto
materno. Como uma verdadeira mãe, caminha connosco, luta connosco e
aproxima-nos incessantemente do amor de Deus. Através dos diferentes títulos
marianos, geralmente ligados aos santuários, compartilha as vicissitudes de
cada povo que recebeu o Evangelho e entra a formar parte da sua identidade
histórica. Muitos pais cristãos pedem o Baptismo para seus filhos num santuário
mariano, manifestando assim a fé na acção materna de Maria que gera novos
filhos para Deus. É lá, nos santuários, que se pode observar como Maria reúne
ao seu redor os filhos que, com grandes sacrifícios, vêm peregrinos para A ver e
deixar-se olhar por Ela. Lá encontram a força de Deus para suportar os
sofrimentos e as fadigas da vida. Como a São João Diego, Maria oferece-lhes a
carícia da sua consolação materna e diz-lhes: «Não se perturbe o teu coração.
(...) Não estou aqui eu, que sou tua Mãe?»
A Estrela da nova evangelização
287. À Mãe do Evangelho vivente, pedimos a sua intercessão a fim de que este
convite para uma nova etapa da evangelização seja acolhido por toda a
comunidade eclesial. Ela é a mulher de fé, que vive e caminha na fé, e «a sua
excepcional peregrinação da fé representa um ponto de referência constante
para a Igreja». Ela deixou-Se conduzir pelo Espírito, através dum itinerário de fé,
rumo a uma destinação feita de serviço e fecundidade. Hoje fixamos n’Ela o
olhar, para que nos ajude a anunciar a todos a mensagem de salvação e para
que os novos discípulos se tornem operosos evangelizadores. Nesta
peregrinação evangelizadora, não faltam as fases de aridez, de ocultação e até
de um certo cansaço, como as que viveu Maria nos anos de Nazaré enquanto
Jesus crescia: «Este é o início do Evangelho, isto é, da boa nova, da jubilosa
nova. Não é difícil, porém, perceber naquele início um particular aperto do
coração, unido a uma espécie de “noite da fé” – para usar as palavras de São
João da Cruz – como que um “véu” através do qual é forçoso aproximar-se do
Invisível e viver na intimidade com o mistério. Foi deste modo efectivamente que
Maria, durante muitos anos, permaneceu na intimidade com o mistério do seu
Filho, e avançou no seu itinerário de fé».
288. Há um estilo mariano na actividade evangelizadora da Igreja. Porque
sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da
ternura e do afecto. N’Ela, vemos que a humildade e a ternura não são virtudes
dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se
sentir importantes. Fixando-A, descobrimos que aquela que louvava a Deus
porque «derrubou os poderosos de seus tronos» e «aos ricos despediu de mãos
vazias» (Lc 1, 52.53) é mesma que assegura o aconchego dum lar à nossa
busca de justiça. E é a mesma também que conserva cuidadosamente «todas
estas coisas ponderando-as no seu coração» (Lc 2, 19). Maria sabe reconhecer
os vestígios do Espírito de Deus tanto nos grandes acontecimentos como
naqueles que parecem imperceptíveis. É contemplativa do mistério de Deus no
mundo, na história e na vida diária de cada um e de todos. É a mulher orante e
trabalhadora em Nazaré, mas é também nossa Senhora da prontidão, a que sai
«à pressa» (Lc 1, 39) da sua povoação para ir ajudar os outros. Esta dinâmica
de justiça e ternura, de contemplação e de caminho para os outros faz d’Ela um
modelo eclesial para a evangelização. Pedimos-Lhe que nos ajude, com a sua
oração materna, para que a Igreja se torne uma casa para muitos, uma mãe
para todos os povos, e torne possível o nascimento dum mundo novo. É o
Ressuscitado que nos diz, com uma força que nos enche de imensa confiança e
firmíssima esperança: «Eu renovo todas as coisas» (Ap 21, 5). Com Maria,
avançamos confiantes para esta promessa, e dizemos-Lhe:
Virgem e Mãe Maria,
Vós que, movida pelo Espírito,
acolhestes o Verbo da vida
na profundidade da vossa fé humilde,
totalmente entregue ao Eterno,
ajudai-nos a dizer o nosso «sim»
perante a urgência, mais imperiosa do que nunca,
de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus.
Vós, cheia da presença de Cristo,
levastes a alegria a João o Baptista,
fazendo-o exultar no seio de sua mãe.
Vós, estremecendo de alegria,
cantastes as maravilhas do Senhor.
Vós, que permanecestes firme diante da Cruz
com uma fé inabalável,
e recebestes a jubilosa consolação da ressurreição,
reunistes os discípulos à espera do Espírito
para que nascesse a Igreja evangelizadora.
Alcançai-nos agora um novo ardor de ressuscitados
para levar a todos o Evangelho da vida
que vence a morte.
Dai-nos a santa ousadia de buscar novos caminhos
para que chegue a todos
o dom da beleza que não se apaga.
Vós, Virgem da escuta e da contemplação,
Mãe do amor, esposa das núpcias eternas
intercedei pela Igreja, da qual sois o ícone puríssimo,
para que ela nunca se feche nem se detenha
na sua paixão por instaurar o Reino.
Estrela da nova evangelização,
ajudai-nos a refulgir com o testemunho da comunhão,
do serviço, da fé ardente e generosa,
da justiça e do amor aos pobres,
para que a alegria do Evangelho
chegue até aos confins da terra
e nenhuma periferia fique privada da sua luz.
Mãe do Evangelho vivente,
manancial de alegria para os pequeninos,
rogai por nós.
Amen. Aleluia!
Dado em Roma, junto de São Pedro, no encerramento do Ano da Fé, dia 24 de
Novembro – Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo – do
ano de 2013, primeiro do meu Pontificado.
[Franciscus PP]
ÍNDICE
1. Alegria que se renova e comunica [2-8] ……………………….. 2
2. A doce e reconfortante alegria de evangelizar [9-10] ………….. 6
Uma eterna novidade [11-13] ……………………...…………………….. 7
3. A nova evangelização para a transmissão da fé [14-15] ………….. 9
A proposta desta Exortação e seus contornos [16-18] …..…………….. 11
Capítulo IA TRANSFORMAÇÃO MISSIONÁRIA DA IGREJA
1. Uma Igreja «em saída» [20-23] …..………………………..……….. 13
«Primeirear», envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar [24] ..….. 14
2. Pastoral em conversão [25-26] …..…………………………...…….. 16
Uma renovação eclesial inadiável [27-33] …..……………….………….. 17
3. A partir do coração do Evangelho [34-39] …..……………...…….. 21
4. A missão que se encarna nas limitações humanas [40-45] ...….. 23
5. Uma mãe de coração aberto [46-49] …..………………….....…….. 27
Capítulo IINA CRISE DO COMPROMISSO COMUNITÁRIO
1. Alguns desafios do mundo actual [52] …..…………………....…….. 30
Não a uma economia da exclusão [53-54] …..…………………....…….. 30
Não à nova idolatria do dinheiro [55-56] …..…………………....…….. 31
Não a um dinheiro que governa em vez de servir [57-58] …...…….. 32
Não à desigualdade social que gera violência [59-60] …..…………….. 33
Alguns desafios culturais [61-67] …..…………………...............…….. 35
Desafios da inculturação da fé [68-70] …..…………………....…….. 38
Desafios das culturas urbanas [71-75] …..…………………....…….. 40
2. Tentações dos agentes pastorais [76-77] …..……..……....…….. 42
Sim ao desafio duma espiritualidade missionária [78-80] …....…….. 43
Não à acédia egoísta [81-83] …..………………….........................…….. 45
Não ao pessimismo estéril [84-86] …..…………………...............…….. 46
Sim às relações novas geradas por Jesus Cristo [87-92] …..………….….. 48
Não ao mundanismo espiritual [93-97] …..…………………....……... 51
Não à guerra entre nós [98-101] …..…………………...............…….. 53
Outros desafios eclesiais [102-109] …..…………………....…………..... 55
Capítulo IIIO ANÚNCIO DO EVANGELHO
1. Todo o povo de Deus anuncia o Evangelho [111] …..……….…….. 60
Um povo para todos [112-114] …..…………………...............…….. 60
Um povo com muitos rostos [115-118] …..…………………....……... 62
Todos somos discípulos missionários [119-121] …..……………...…….. 65
A força evangelizadora da piedade popular [122-126] …..……….…….. 66
De pessoa a pessoa [127-129] …..………………….........................…….. 69
Carismas ao serviço da comunhão evangelizadora [130-131] …....….….. 70
Cultura, pensamento e educação [132-134] …..………………....…..…..... 71
2. A homilia [135-136] …..………………………………..……………... 72
O contexto litúrgico [137-138] …..…………………....……………….….. 73
A conversa da mãe [139-141] …..………………….........................…….. 74
Palavras que abrasam os corações [142-144] …..………….......…….. 75
3. A preparação da pregação [145] …..…………………....………...….. 77
O culto da verdade [146-148] …..………………….........................…….. 77
A personalização da Palavra [148-151] …..…………………....….….. 79
A leitura espiritual [152-153] …..……………………………….....…….. 81
À escuta do povo [154-155] …..…………………..........................…….. 82
Recursos pedagógicos [156-159] …..…………………....………..….. 84
4. Uma evangelização para o aprofundamento do querigma [160-162] . 85
Uma catequese querigmática e mistagógica [163-168] …..……….…….. 87
O acompanhamento pessoal dos processos de crescimento [169-173] ….... 90
Ao redor da Palavra de Deus [174-175] …..………………….....…….. 92
Capítulo IVA DIMENSÃO SOCIAL DA EVANGELIZAÇÃO
1. As repercussões comunitárias e sociais do querigma [177] ….... 94
Confissão da fé e compromisso social [178-179] …..………………….... 94
O Reino que nos chama [180-181] …..…………………....………...….. 96
A doutrina da Igreja sobre as questões sociais [182-185] …….…….. 97
2. A inclusão social dos pobres [186] …..…………………....……... 99
Unidos a Deus, ouvimos um clamor [187-192] …..…………………..... 99
Fidelidade ao Evangelho, para não correr em vão [193-196] …..…….... 102
O lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus [197-201] …..…….... 105
Economia e distribuição das entradas [202-208] …..………………….... 108
Cuidar da fragilidade [209-216] …..……………………………….... 110
3. O bem comum e a paz social [217-221] …..………………………...... 114
O tempo é superior ao espaço [222-225] …..………………………...... 115
A unidade prevalece sobre o conflito [226-230] …..………………….... 117
A realidade é mais importante do que a ideia [231-233] …..…………...... 118
O todo é superior à parte [234-237] …..……………………………….... 120
4. O diálogo social como contribuição para a paz [238-241] …..……... 121
O diálogo entre a fé, a razão e as ciências [242-243] …..…………...... 123
O diálogo ecuménico [244-246] …..……………………………........ 124
As relações com o Judaísmo [247-249] …..………………………...... 125
O diálogo inter-religioso [250-254] …..……………………………….... 126
O diálogo social num contexto de liberdade religiosa [255-258] ….... 129
Capítulo VEVANGELIZADORES COM ESPÍRITO
1. Motivações para um renovado impulso missionário [262-263] ….... 133
O encontro pessoal com o amor de Jesus que nos salva [264-267] ….... 134
O prazer espiritual de ser povo [268-274] …………………………….... 137
A acção misteriosa do Ressuscitado e do seu Espírito [275-280] ….... 140
A força missionária da intercessão [281-283] ……………………….. 144
2. Maria, a Mãe da evangelização [284] ……………………………... 145
O dom de Jesus ao seu povo [285-286] …………………………….... 145
A Estrela da nova evangelização [287-288] …………………………….... 146
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